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1977: Punk e Glitter em 7 discos

1977: Punk e Glitter em 7 discos

Dividido entre o disco e o punk, a paranoia causada pela guerra fria, a opressão de um regime militar brasileiro, e o medo da família tradicional de jovens usando alfinetes como acessório, 1977 é dito como um dos melhores anos da história da música.


Traçando paralelos, nesse ano também tínhamos crise e inflação, e um presidente oriundo direto de um dos círculos do inferno. Mas pelo menos o divórcio foi regulamentado. O mundo de quarenta anos atrás não era simples e muito menos digno de romantização, mas não se equipara com a alucinação chamada 2017.

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Rumours

Fleetwood Mac

Rumours existe na mitologia popular como o álbum de término de relacionamento escrito pelo Fleetwood Mac sobre o Fleetwood Mac, floreado com a dor, a amargura e o hedonismo que em sequência. E altas dose de cocaína. Escrito e produzido no meio de um processo de divórcio (John McVie vs Christine McVie), uma descoberta de traição (Mick Fleetwood e a esposa) e um relacionamento turbulento entre os líderes da banda (Lindsey Buckingham vs Stevie Nicks), fica claro que tudo no álbum é uma catarse emocional gigantesca. Rumours é um produto claro dos anos 70: a auto-indulgência do rock em encontro com a decadência da era hippie. Um pop atormentado e desesperado, acessível sendo dolorosamente pessoal. São músicas de amor e perda, feitas com amor e ódio, tristeza e êxtase, ressentimento e cansaço. A instrumentação intensa mesmo nas músicas lentas, e os solos do blues e o rock se misturam como pano de fundo para uma batalha constante entre as forças avassaladoras da banda e as feridas causadas: a balada “Dreams” contra o nervosismo de "Go Your Own Way"; "And if you don't love me now / You will never love me again" de "The Chain", com um dos melhores solos de baixo de todos os tempos e o “You, you make loving fun / And I don’t have to tell you but you’re the only one” de You Make Loving Fun.


Ouvir e reouvir Rumours é ser atacada pela nostalgia do momento no qual eu o ouvi pela primeira vez. É sentir falta de andar pela Califórnia sem nunca ter posto os pés lá. É lembrar de todos os seus traumas emocionais e se deliciar neles, porque você sabe que sobreviveu. E sobreviveu pra ouvir de novo.

 

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Low

David Bowie

David Bowie queria fama e infâmia, e quem sabe de fato controlar o mundo. Trabalhou até conseguir e passou a viver dos seus excessos — e decidiu que odiava. Então, matou Ziggy Stardust, gerou e assassinou o Thin White Duke. Na beira da psicose e do abismo pessoal, escolheu Berlim como altar de desintoxicação e solidão, jogou-se na sua arte e na cultura alemã, e emergiu com essa obra prima.


Low é o primeiro álbum da Trilogia Berlim, uma série de colaborações com Brian Eno e Tony Visconti com uma sonoridade mais eletrônica e vanguardista que nada tem em comum com os paradigmas da época. Apesar de ser menos complexo que o projeto anterior (Station to Station, 1975) ainda assim não é de fácil digestão justamente porque não foi feito para ser. Aqui temos um Bowie lutando contra a sua auto destruição, melancólico, alienado e paranóico - e tudo isso se reflete nos trinta e oito minutos que compõem o álbum. O seu bloqueio criativo dá espaço para os vocais esparsos e o foco nos instrumentais surrealistas provindos diretos de um pesadelo. A atmosfera de Low é de um futurismo em ruínas, um devaneio texturizado feito de baixos e vibratos de sintetizadores, uma meditação perturbada a respeito da própria existência.


Low é alarmante. Não evoca imagens ou sentimentos muito agradáveis de primeira. Mesmo assim não é um álbum triste, que só se ouve quando o humor pede algo depressivo. Low na verdade é uma aventura profunda de auto descobrimento e auto superação, de nos levantarmos dos nossos pontos mais baixos e seguirmos em frente. No caso do Bowie, foi lançar Heroes meses depois. No meu caso, é literalmente carregar comigo (no antebraço). Mas nada na mensagem desse disco é linear ou objetivo, então tudo bem.

 

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Lust for Life

Iggy Pop

 

A primeira coisa que ouvimos é a bateria. Uma marcha ansiosa e inquieta, liderando o baixo, guitarra e um piano correndo para alcançar o resto, nessa exata ordem. Um minuto de instrumentais que te desafiam a ficar parado até ouvirmos Iggy Pop. E o resto é fermentação de um clássico. Vinte anos depois, é reconhecido como tal na cena de abertura de Trainspotting, a versão cinematográfica de toda a explosão da faixa de abertura.


A década para Iggy Pop pode ser resumida em: fim dos The Stooges, prisões, final do fim do poço, um hospício, um “Ei” pro Bowie, um voo só de ida para a Europa, e o álbum mais sombrio, introspectivo e cheio de escárnio que o cantor já produziu, o The Idiot, lançado no início de 1977. Lust for Life é outra história. Não é sobre ter se reencontrado, curado, estar limpo ou nenhuma metáfora de fênix do tipo. É vibrante e cheio de energia, um punk curioso e desafiador, com muito mais esperança do que ódio e a depravação característica do artista. Forte, agudo e afiado, quase mecânico no seus instrumentais; mais ácido e direto ainda nas suas letras. Iggy Pop não propõe nenhum mistério, seus vícios e erros são visíveis para qualquer um que queira ver. Lust for Life é querer continuar vivendo e aproveitando mesmo quando tudo está uma merda - mesmo quando você é um merda, também.

 

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Marquee Moon

Television

Marquee Moon é um fenômeno que vem uma vez a cada década, tipo um cometa. O punk surrealista, fundindo com jazz e melodias complexas e imprevisíveis que rejeitam a clássica estrutura de poucos acordes do gênero. As letras poéticas contam histórias da Nova Iorque imunda dos anos 70, misturando mitologias ("Venus") com a paranoia de viver numa selva urbana e perigosa (a faixa título). Nada era, ou é, remotamente parecido ao álbum de estreia do Television.


Não existe ambição em tentar ser diferente, algo maior que o punk, ou diferente de nada. O que mais impressiona nesse álbum é a total falta de pretensão. O que se ouve é o que se vê na capa: quatro jovens tocando e criando. A única diferença é qualidade, a falta de medo ou de limites em explorar e experimentar; a coragem de criar uma faixa de dez minutos com inúmeros solos de guitarra impossíveis de serem recriados por meros humanos.  É econômico sem ousar ser simples. É denso sem se perder, sem mal querer ser nada demais.  

 

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Trans-europe Express

Kraftwerk

Ouvir Trans Europe Express, seja em 1977 ou 2017, provavelmente é muito parecido com as descrições bíblicas do que acontece quando você morre e é escolhido para ir ao céu passar a eternidade pastando com uma túnica branca. É música na sua manifestação metafísica. É cósmico. Te faz ciente de que o seu corpo é só um amontoado de átomos, e que isso é lindo.
O eletrônico do Kraftwerk é sequencial, calculado e quase matemático. E nem por isso é previsível. A música tem um poder único de nunca se repetir e sempre surpreender. Nela, saber exatamente quando a batida vai explodir (antes do refrão, lógico) não é tarefa a ser feita. Até porque isso de fato não acontece. As batidas mais hipnotizantes e fascinantes já feitas tem um minimalismo industrial feito por uma geração pós-guerra e sem identidade, onde os vocais de um sotaque alemão carregado são manipulados para se tornarem robóticos enquanto falam a obsessão com aparência e usam de sarcasmo para questionar o mundo ao seu redor. O vocal monótono canta: “a vida é eterna” ao mesmo tempo que cria uma obra imortal.

 

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Refavela

Gilberto Gil

A trilogia Re contempla os álbums Refazenda, Realce e Refavela. Cada qual com seu próprio som e tema, com um Gilberto Gil no ápice do seu poder criativo. Refavela é a MPB tropical, veraneia, do domingo ensolarado lento que pede algo para ouvir rodeado de gente ou deitado em algum lugar confortável de olhos fechados. Acima de tudo, a versão de música brasileira do Gil é muito mais abrangente e diversa do que todas as outras, ainda mais aqui. Após uma viagem até a África, o cantor voltou com uma sonoridade mais grandiosa ainda: reggae, ritmos africanos, a música afro da Bahia, samba, funk e soul americano e afrobeat. Refavela é sobre a África e a diáspora negra, um encontro a raízes de quem se vê negro no espelho e sorri de orelha a orelha. Gil não deixa seus ouvintes esqueceram da cultura negra em nenhum momento. É de um negro primeiramente para outros negros, uma joia que fala sobre poder, orgulho e resistência negra.


Há quarenta anos atrás um músico negro produziu um álbum inteiro sobre o quão é bom ser negro. No Brasil. A única parte ruim dessa história é o fato de isso ainda ser necessário.
 

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Saturday Night Fever: OMST

Vários Artistas

Uma das minhas informações inúteis favoritas é a de que as batidas de “Stayin’ Alive” tem o ritmo preciso para uma mensagem cardíaca adequada em caso de emergência. Ou seja, os Bee Gees podem literalmente salvar vidas.


Os Bee Gees também podem criar cinco clássicos ("Stayin Alive", "How Deep Is Your Love", "Night Fever", "More Than A Woman", "You Should Be Dancin’") para uma trilha sonora de filme e estabelecer um fenômeno cultural que definiu uma década inteira. Mas Saturday Night Fever aka Os Embalos de Sábado a Noite aka John Travolta no seu auge estético consegue ser ainda mais grandioso e delicioso do que a presença dos Beatles da era disco. O risco de misturar Beethoven com o groove do disco é uma insanidade por si só que se compensa assim que o resto da música cresce. São uma hora e quinze minutos sem um ponto baixo ou fraco, quase uma compilação ininterrupta dos melhores momentos de todas festas já feitas na história da humanidade.

1987: Laquê liberado em 7 discos

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1967: O verão do amor em 7 discos

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