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1987: Laquê liberado em 7 discos

1987: Laquê liberado em 7 discos

Olá Timbreirinhos! Eu fiquei com a humilde missão de escrever sobre meus 7 álbuns favoritos de 1987, como parte da nossa série de 7 álbuns de cada ano terminado em 7 dos últimos 50 anos. Fiquei muito feliz, porque os anos 80 são a minha década musical favorita! Quando eu penso em anos 80, eu penso em sintetizadores, glam hard rock, cabelos armados, heavy metal, problemas sociais, fim da ditadura militar, dentre outras coisas. Espero que meus álbuns favoritos desse ano reflitam um pouco disso. Então vamos lá!

 

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Sign O' The Times

Prince

Para iniciar, dentre o grande trio do pop oitentista (Michael Jackson, Madonna e Prince), apesar de eu ter Madonna como uma das minhas artistas favoritas, o Prince reina supremo nessa década, devido ao grande número de álbuns e músicas acima da média que marcaram esse período da música americana. E para mim, o Sign O' The Times é o melhor de tudo de bom que ele lançou em sua carreira. Ou seja, é mais que excelente. Eu acho que esse álbum é um marco, porque eu me conecto com ele em vários níveis. A paranoia da faixa-título, com uma visão que as gerações mais velhas sempre tem da atual, mencionando os desastres violentos e a AIDS como sinais do fim do mundo dá nome ao álbum, e indica o caminho que o ouvinte deve esperar da obra. Só que não.

Logo após essa música, descobrimos que para Prince, cada geração tem seu valor, tem sua marca e sua narrativa. Atrás da música de abertura, vem uma enxurrada de cores, de músicas de versos fáceis e contagiantes, com produção cristalina e moderna para a época, com batidas de hip-hop, acompanhamentos de jazz, tudo com a voz impecável do melhor artista da década.

Após nos enganar com o começo do álbum, Prince celebra a alegria, o viver como se fosse o último dia, valoriza o amor, as diferenças (como na música “Starfish and Coffee”, uma animada canção com harmonias sessentistas, que dá brilho e importância a crianças autistas) e a igualdade entre gêneros (até de forma meio creepy em “If I Was Your Girlfriend”). A segunda metade do trabalho concentra uma enxurrada de clássicos, como “U Got The Look”, “If I Was Your Girlfriend” (melhor linha de sintetizador dos anos 80? Talvez), “I Could Never Take The Place Of Your Man” (uma demonstração que a androginia e exploração do feminino não se limitavam apenas no seu visual) e fechando com “Adore”, que tem uma interpretação vocal toda em falsetto arrepiante.

Prince demonstrou preocupação com as questões da atualidade em 87, mas preferiu focar em como a liberdade, o amor e a felicidade de uma geração pós-Woodstock seriam a chave para conseguirmos ultrapassar os obstáculos dos novos tempos. Um álbum muito emblemático do que foi os anos 80 e para a história da música.

 

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The Joshua Tree

U2

“I wanna run, I wanna hide”. Assim começa “Where The Streets Have No Name”, a faixa de abertura do Joshua Tree. Quarto álbum de estúdio da banda, e o registro que definiu a carreira deles, é um dos álbuns mais vendidos de todos os tempos e um dos meus favoritos da vida. Aquele primeiro verso do álbum define pra mim o porquê desse monstro sonoro ser tão especial e único: ele te dá a sensação de expansão e introspecção ao mesmo tempo.

Após uma turnê de sucesso pelos Estados Unidos, a banda se uniu aos produtores de peso Daniel Lanois e a lenda viva Brian Eno para juntos conseguirem retirar elementos do seu rock irlandês, com uma pegada post-punk e colar com influências do blues americano. O resultado é uma impressionante imensidão no som da banda, especialmente na celebrada guitarra do The Edge. A sensação é de estar no meio do nada, querendo fazer tudo ao mesmo tempo, mas dentro do seu próprio corpo. Esse instrumental invadiu a mente coletiva dos anos 80, e junto com a voz poderosa de Bono Vox, elevou a banda ao estrelato mundial. O trio de músicas que abre o álbum (“Where The Streets Have No Name”, “I Still Haven’t Found What I’m Looking For” e “With Or Without You”) é uma das aberturas de álbuns mais absurdas que existem e abrem portas para apreciarmos as outras 8 faixas do álbum já imersos nessa atmosfera única criada pela banda, tornando o disco uma experiência singular na vida de qualquer ouvinte.

 

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Appetite for Destruction

Guns N' Roses

Outro dos meus álbuns favoritos desse ano, o Appetite For Destruction também é um álbum bem mainstream, que tem mais de 30 milhões de cópias vendidas, e é um dos discos de estreia mais impactantes da história da música popular moderna. A banda veio com uma proposta de som que estava muito em alta na época, um glam rock bem estridente, pesado e com letras com ode à vida fora da lei, ao abuso de substâncias ilícitas e muito sexo e convivência com garotas bonitas entre um show e outro. E o título vem bem a calhar: é como se seus ouvidos adquirissem um gosto pela destruição sonora que essas lendas entregam nesse trabalho.

O que diferenciou esse registro de qualquer outro dessa cena musical, é a coesão e a medida certa de peso e melodia nas músicas. É um álbum direto, e apesar de longo, não existe tempo para respirar. Todas as músicas demandam atenção e nenhum segundo é desperdiçado tentando ter material suficiente para um álbum completo, como na maioria dos discos de hard rock nessa época. A voz do Axl Rose é maravilhosa, um agudo anasalado rouco que é reconhecível instantaneamente, e o trabalho de guitarra do Slash é de outro mundo. Cada momento das músicas é delicioso, e com tamanha criatividade e inovação dentro de um gênero que é até meio brega hoje em dia, o disco sobreviveu, se tornando um marco e uma bíblia do que era o rock das paradas de sucesso na segunda metade dos anos 80.

 

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Paid in Full

Erik B. & Rakim

Diferentemente dos álbuns anteriores, eu não diria que o Paid In Full é um dos meus álbuns favoritos. Mas resolvi que ele deveria entrar nessa listinha porque muitos artistas do universo do hip-hop devem seus sons a essa dupla. E o hip-hop é algo que eu respiro, então esse álbum tem uma importância significativa pra mim também. O produtor Eric B. e o rapper Rakim foram um dos precursores do gênero nos anos 80, e esse disco é um marco da história do ritmo vindo dos guetos americanos.

O álbum chama a atenção pela produção e utilização de samples de forma eficaz pelo Eric B., para produzir batidas inovadoras para a época. Inclusive, das 10 faixas do registro, 3 são totalmente instrumentais, dando total foco para peso das pick-ups oitentistas, com muito arranhar de discos e charme nostálgico. Dentro desse invólucro saudosista, Rakim faz suas rimas old school, falando do mundo do hip-hop ainda em sua infância, e sendo bem meta nos seus temas, que são o hip-hop em si, a vida de um MC, como ele seria o melhor rapper daquela geração e que as pessoas seriam agraciadas por ouvir seus versos precisos. Errado ele não tá, né?

 

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Diesel and Dust

Midnight Oil

O álbum Diesel and Dust, do Midnight Oil é muito especial pra mim, por sempre ter ouvido a faixa de abertura “Beds Are Burning” na rádio quando criança, e mais tarde, quando fui ouvir disco, fiquei muito emocionado em redescobrir a música e ao mesmo tempo ouvir um trabalho musical tão delicioso. O som dos australianos é um rock new wave, com uma guitarra bem ao estilo das bandas australianas da década, e não foge dos padrões oitentistas de pop rock. Os ritmos são fáceis, bem feitos e envolventes e as melodias foram construídas para grudar na mente do ouvinte, com a voz anasalada e por vezes fora do tom do Peter Garrett dando um tom mais rebelde ao som.

O que diferencia esse registro de outros dos anos 80 é o seu tema. Após fazer uma turnê pela Austrália desértica e entender a situação dos povos aborígenes dessas regiões, a banda uniu tudo que aprenderam e o que os preocupou e compôs 11 maravilhosas faixas que falam sobre desmatamento, apropriação territorial e cultural, descaso e falta de culpabilidade por anos de violência com esses povos. Misturado a isso, temos temas ecológicos e de sustentabilidade, mas de uma forma tão pop e acessível, que essa situação trágica se torna motivo para cantar junto com os refrãos em coro e celebrar a diversidade australiana.

 

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Jesus não Tem Dentes no País dos Banguelas

Titãs

O meu álbum nacional favorito desse ano tem que ser esse disco maestral dos Titãs, uma das (senão a melhor) banda nacional da década de oitenta. Nesse período, o Brasil passava por uma crise financeira e política pós-ditadura, e o rock com elementos new wave e post-punk feito por muitas bandas apinhava as estações de rádio e as mentes dos jovens brasileiros. Os Titãs se destacavam desse grupo de bandas por terem instrumentais acima da média, terem faixas cantadas por diferentes integrantes e suas letras serem um misto de poesia com grito de rebeldia adolescente.

Neste álbum, lançado após o gigantesco Cabeça Dinossauro, a produção de Liminha seguiu num viés de sofisticar mais os instrumentos do grupo, sem perder a intensidade e o peso da música. As faixas falavam de conflitos internos nas pessoas vivendo em um país tão abandonado pelos seus governantes, e sobre esse desgoverno em si, todo envolto em um som marcante e poderoso, e melodias marcantes com nas músicas “Comida”, “Diversão” e “Lugar Nenhum”, faixas que não podem faltar em nenhuma playlist de rock brasileiro.

 

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I.N.R.I.

Sarcófago

Eu gosto bastante de um bom heavy metal. Talvez pelas outras escolhas da lista, mesmo com o Guns’n’Roses nela, escolher um álbum do Sarcófago para fechar essa lista seja uma surpresa. Mas por gostar bastante do gênero, me enche de orgulho que o Brasil seja reconhecido como um dos principais consumidores e criadores do metal. Por isso esse registro (que não é só um dos pilares do black metal, sendo influência pra toda a cena europeia e americana, como é também um trabalho muito inovador) não poderia ficar de fora da minha lista de 1987.

De onde uma banda vinda do país tropical tirou tanta fúria anti-cristã assim? É um contraponto delicioso às nossas raízes católicas ouvir os vocais guturais do Wagner “Antichrist” Lamounier blasfemando contra Jesus Cristo, desejando sua morte, chamando-o de mentiroso, dizendo que o odeia, ao mesmo tempo em que fala sobre cultos satânicos, sexo grupal, sacrifícios de virgens para os anjos diabólicos, etc. Todas essas letras pesadas são levadas ainda mais ao extremo pelo instrumental nervoso, especialmente a bateria ao estilo blast beat, pouco usada na época, o que deixa o I.N.R.I. ainda mais com uma carinha única. Esse é apenas para quem é bem mente aberta, e livre de amarras cristãs!

1997: Introspecção e calças largas em 7 discos

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1977: Punk e Glitter em 7 discos

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