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Cronópio? - Irmão Victor

Cronópio? - Irmão Victor

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Cronópio?

Irmão Victor
Chupa Manga Records
Janeiro/2018
Experimental, Rock Psicodélico
O que achamos: Muito Bom

Cronópio? – Irmão Victor

Todos conhecemos o Mito da Caverna, usado a torto e a direito para ilustrar as mais piegas lições de carpe diem, pois "lá fora" há supostamente todo um mundo de cores, sons e sensações a serem explorados que nunca poderão ser conhecidos se permanecermos na caverna, ignorantes junto às sombras. Bem, ouvir Cronópio?, disco do gaúcho Irmão Victor, lembra bastante a alegoria de Platão. Só que ao contrário. Cada minuto ouvido do trabalho é um andar que descemos para dentro de uma mente reclusa e cansada. E, de fato, os primeiros 50 segundos do álbum, que compõem a faixa introdutória, lembram muito o abrir de uma caixinha de música, como se daí para frente nos trancássemos na Caixa de Pandora (manteremos as referências gregas) com tudo o que há de mais louco nela.

Na psicodelia experimental soturna de Irmão Victor, as influências são muitas. Diversos momentos de seu trabalho lembram o seu conterrâneo Júpiter Maçã, com quem compartilha os elementos psicodélicos e a excentricidade dos temas explorados. No entanto, Cronópio? se expande por outros lados. Tem um quê de bossa nova em "Reflexões Navais", enquanto em “Senza Far Niente” os versos em italiano criam uma atmosfera circense melancólica. Em muitos momentos, o disco flerta com o Indie Rock mais lo-fi.

Em “Canção Para Minha Chaleira Vermelha”, um dos grandes destaques do disco, a vontade de se esconder do mundo ocupa o centro do palco. O rock calmo nos acordes conversa com os vocais cansados que cantam: “O William Bonner diz que tudo desaba / e nem na minha sala eu consigo me esconder” e concluem “esse planeta é um barco de papel / um pesadelo, uma miragem”. A faixa ilustra muito bem o estilo de composição do artista gaúcho, que se dá a liberdade para pirar em uns versos sem se tornar blasé a ponto de perder o interesse do ouvinte. Alguns jogos de palavras ficam na cabeça: “Essa foi a última vez que eu fiz isso / Na próxima vez que eu fizer isso de novo / pela última vez mais uma vez de novo”

Se o italiano aparece no início do disco, o francês surge mais para o final ("Tentativas Telepáticas com Anouk Aimée"), mas é no inglês que acontece um dos melhores momentos do disco, “All I Wanna do Is Sit Down and Cry”. As cordas rápidas amplificam a melancolia dessa faixa, cujo título acaba sendo autoexplicativo e é repetido ao longo da própria, criando uma peça do álbum que marca por ser altamente vulnerável e confessional. Depreende-se da beleza dela que o uso ocasional de outros idiomas não tem nada de arbitrário ou pedante, mas reforça a expressão artística e emocional do músico e o caráter de fluxo de consciência que a obra assume.

“Cronópio” é um termo cunhado pelo escritor argentino Julio Cortázar para identificar pequenos seres verdes que ele teria imaginado em uma certa ocasião. Na maneira em que Cortázar os descreveu, são seres sensíveis e antissociais, assemelhando-se a poetas e àqueles que vivem à margem da sociedade. Não há nome mais apropriado para a obra de Irmão Victor, com todo o seu movimento para se afastar de um mundo que persegue, de uma casa habitada pela mobília, de uma noite de insônia e rinite alérgica. E ainda assim, por cima do leque de instrumentos que Irmão Victor coordena muito bem, das composições marcadas pelo mergulho dentro da própria mente bagunçada, das melodias cansadas, resiste a dúvida: Cronópio?

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