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Rotomusic de Liquidificapum - Pato Fu

Rotomusic de Liquidificapum - Pato Fu

Rotomusic de Liquidificapum

Pato Fu
Cogumelo
Maio/1993
Rock Alternativo
O que achamos: Excelente

De acordo com Rotomusic de Liquidificapum, o fim já esteve próximo. Pelo menos é possível se ter certeza disso ouvindo o álbum e toda a viagem niilista e impaciente que ele faz em seus quase 50 minutos de duração. Lançado em 1993 por um Pato Fu jovem, experimental, e cheio de raiva pra por para fora, o disco de estreia da banda de Belo Horizonte é um marco na história do rock nacional, se aproximando de vários gêneros dentro do rock, mas se distanciando de tudo ao mesmo tempo. É um álbum que nunca se permite parecer com nada e ainda traz sons familiares para o ouvinte brasileiro, conseguindo, assim, resistir ao teste do tempo e manter a atmosfera fresca e super fora da caixa. Sim, o disco foi lançado há 25 anos.

Na primeira e homônima faixa do álbum, já podemos perceber do que se trata o engraçado título. É uma mistura, de fato, no tal liquidificapum. Antes de qualquer palavra ser pronunciada, passamos por riffs agressivo de guitarra que, antes de ficarem pesados demais, viram um híbrido de hip hop com rock, como se fôssemos ouvir uma faixa do Faith No More, e, do nada, um forrózinho acelerado se aprochega, sem deixar de lado os metais, só pra dar oi, e vai embora. Ufa! Nesse momento, o ouvinte já está pronto para qualquer coisa. Mas olhe de novo: a banda começa a cantar em inglês a confusão mental que os assombra. É belo, de um jeito, é palatável, apesar de confuso, e é criativo pra caramba!

Ainda na primeira faixa, que tem uma estrutura rapsódica e mais de 7 minutos de duração, o ritmo desacelera por completo e a voz de Fernanda Takai canta versos sobre o "espírito da morte", invocando uma solidão extrema antes da parada toda puxar mais pro metal, contrastando com seu vocal delicado. E aí que o tema dos Flinstones entra e eu paro de ver sentido em continuar descrevendo a faixa. A mistura de sons e ideias que vemos aqui se repete pelo álbum, sempre sob o filtro da descrença, da vontade de ver confusão, do vazio existencial.

É claro que o rock é predominante no álbum. Ora, é um álbum de rock, com a guitarra conduzindo o som e a percussão incisiva seguindo. No entanto, em “Meu Coração É Uma Privada”, por exemplo, o que ouvimos primeiro é uma base de hip hop dos anos 80, e durante o álbum vem sempre aquela sensação de que alguém está prestes a iniciar um flow de rap à la Beastie Boys. Inclusive, é necessário chamar atenção para versos como “Se você encostar sua orelha no meu peito, vai ouvir um barulhinho de chuá chuá”, na faixa mencionada acima. É o tipo de letra confessional e desesperada que é encontrada em Rotomusic, mas que sempre é entregue em tom jocoso e despretencioso, com um desprezo óbvio direcionado a tudo que é convenção social, industrial, musical e o escambau.

Muitas vezes as letras são letras engraçadas e ambíguas, de uma ironia que é expandida pelos vocais de John Ulhoa (que nesse disco aparece bem mais que Fernanda Takai), soando sempre desajeitados e prontos para explodir. “Meu Processo de Criação Vai de 10 até 1000 Mil” é um rock com cara séria em que Takai anuncia que vai pular e que não tá nem aí se vai machucar, se vai morrer (a Unimed é quem vai pagar...). No entanto, o disco nunca se aproxima do que foi feito, por exemplo, pelo som multigênero e cômico dos Mamonas Assassinas. O Pato Fu nega a comédia: é engraçado, mas não vê graça e, conforme avançamos no disco, o deboche evidencia o caos e o insuportável.

“O Mundo Ainda Não Está Pronto” pode ser apontado como o epítome do niilismo de Rotomusic de Liquidificapum. É uma faixa mais leve, apoiada nos acordes de um violão e nos vocais que aqui parecem ter descido vários tons. A canção olha para fora (“Quem acha que o mundo é tudo na vida / infelizmente, não sabe de nada”) e para dentro (“Inclusive eu também não sei”), que é quando ela explode: “Mas pelo menos eu estou aqui gritando / aaaaaaaaaaaaaaaaaaaa”. A segunda metade da faixa conversa com o contexto do álbum, e a banda mostra que não tem medo de morrer, entregando frases tão poderosas que dá vontade de tatuar, como “Quem me dera uma guerra das antigas pra lutar.” e “O terror é popular!”.

A raiva, o deboche e a solidão constroem, desde o primeiro minuto do registro, uma crescente tensão que atravessa o próprio. Ela permanece, mesmo sob as constantes explosões que o Pato Fu causa com sua negligência ríspida. Então, em sua última peça, a canção “O Amor em Carne e Osso”, a tal tensão se desfaz. É como se você fosse recompensado por estar ali e é um momento que só a música pode oferecer. A guitarra lenta chora enquanto o grave do baixo se retorce ao fundo. Takai conta uma história em menos de 2 minutos e poucos detalhes, conseguindo magicamente criar uma imagem inteira: o amor, em pessoa, lhe fazendo promessas e desaparecendo juntos com instrumentos.

É o não-final que se torna o final perfeito, a banda se despe das muitas camadas, influências e oscilações de humor que ouvimos durante todo o disco e entrega uma pequena pérola básica, mas poderosa, sem explicar muito, mas dizendo tudo. E, sendo trabalho do ouvinte preencher os buracos e juntar as pontas soltas, vamos concluindo que, às vezes, finais mudam começos, e que certas coisas ganham outros sentidos apenas quando ouvimos uma história completa. Talvez as promessas vazias do amor em carne e osso sejam, afinal, a causa do vazio existencial refletido na obra que o Pato Fu cria aqui. Talvez seja só o ouvinte forçando a barra.

No fim das contas, Rotomusic de Liquidificapum se abre como uma flor: lentamente. Cresce de brincadeiras de uma criança hiperativa para a indisposição de um adulto viciado em café. Com suas muitas influências, ele tem cara de Brasil, mas não se limita ao espaço e, muito menos, ao tempo. É um clássico que talvez tenha sido ofuscado pelos trabalhos seguintes da banda, mas que deles parece ser o centro. Para os já familiarizados com a banda, um lugar seguro. Para os desavisados, uma grata e agressiva surpresa. Para a música brasileira, um tesouro nacional.

 

O álbum do clubinho da semana que vem será o New Amerykah Part One (4th World War) da Erykah Badu.

 

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