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Huncho Jack, Jack Huncho - Travis Scott & Quavo

Huncho Jack, Jack Huncho - Travis Scott & Quavo

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Huncho Jack, Jack Huncho

Travis Scott & Quavo
Quality Control Music / Epic / Capitol / Cactus Jack / Grand Hustle / Motown
Dezembro 2017
Hip-Hop, Trap
O que achamos: Bom

Colaborações entre artistas são habituais desde que nos entendemos como humanidade, e desde que alguém correlacionou ritmo, melodia e tempo em algum ponto da era pré-histórica. Colaborações dentro do hip-hop (ou, pelo nome popular, os feats) são ainda mais rotineiras e sempre foram uma característica marcante dentro do gênero.

Mas tal ideia habitualmente se expande para novos cantos e formas, e torna-se um álbum inteiro de rappers se juntando para fazer o que fazem de melhor juntos. Isso não é nada novo — temos Eric B. e Rakim (“Paid in Full”, 1987), Mos Def e Talib Kweli (“Mos Def & Talib Kweli Are Black Star”, 1998), o esposo da Beyoncé e pai de três filhos com Kanye West (“Watch the Throne”, 2011), Future e Drake (“What a Time to Be Alive”, 2015), e "Super Slimey" (Future de novo, dessa vez com o Young Thug) e "Without Warning" (Offset, 21 Savage, Metro Boomin) do ano passado. Cada qual com o seu próprio som e resultados surpreendentes.

Agora chegou a vez de Travis Scott e Quavo (⅓ do Migos) de misturarem rimas e batidas. Os dois são um dos maiores nomes do trap/hip-hop atual, saíram da mesma cena e já dividiram um estúdio antes e nos presentearam com “Kelly Price” do Culture do Migos, então o propósito básico do álbum faz todo o sentido. Lançado sem muito alardes no final de dezembro e vendendo mais que o Eminem na semana de estreia porque se Deus existe ele é muito justo, "Huncho Jack, Jack Huncho" é o álbum de trap que qualquer um poderia esperar desses dois nomes. É composto de 13 faixas e inclui participações de Takeoff e Offset do Migos, com produção compartilhada entre os peso-pesados Murda Beatz, Southside, Buddah Bless, Vinylz, Illmind, Dun Deal, Frank Dukes e Cardo. A capa assinada pelo lendário Ralph Steadman, o artista do jornalismo gonzo (o jornalismo que foge das regras básicas do jornalismo a favor da subjetividade e hedonismo), se encaixa perfeitamente com a temática das músicas.

Porque, sim, elas são exatamente o que seus olhos encontram num texto do Hunter S. Thompson ou uma reportagem infame da Vice: uma dose cavalar de drogas e sexo apresentado de maneira casual, e um estilo de vida que não deveria ser romantizado. Mas é 2018, então fazer o quê. O paralelo óbvio aqui é que isso também faz parte da vida gangsta-trap desses homens e de muitos outros, que narram sagas sobre o verde das notas de dólares, lean, carros, bad bitches, egos e extravagâncias em geral como Saint Laurent e viagens para Dubai com suas vozes altamente alteradas, senão distorcidas, pelo auto-tune. Ao invés de batalharem, seus versos se complementam e contam a mesma história de vir do nada e ultrapassar barreiras sob um ponto de vista muito similar. Mas dentro disso tudo também há espaço para respeito, confiança e amizade (“Eye 2 Eye”, um dos feats, e “Best Man”, última faixa do álbum). É fofo.

A verdade é que não importa o que eles falam. Não pelo conteúdo das letras ou o que elas abordam, ou até o jeito letárgico e afastado com o qual elas são ditas. Ou sequer o flow meio questionável de ambos. Porque apesar de se misturarem muito bem, no final a dupla não consegue elevar-se à  nenhum patamar marcante que justifique a existência de “Huncho Jack, Jack Huncho”. Além, é claro, das suas batidas. O pulso do álbum está na sua produção. A alma do negócio é a atmosfera noturna, as curvas e reviravoltas inesperadas de “Saint Laurent Mask” e “Black & Chinese” e o sample ambicioso de Otis Redding na faixa de abertura — e destaque — “Modern Slavery”. É o trap energético que conhecemos e amamos.

Em geral, essa colaboração não traz novidades e inovações. Também nunca se propôs a ser algo revolucionário e profundo. Huncho Jack, Jack Huncho é direto: trap para rolê ou festa, ou qualquer lugar escuro ou com luzes piscantes sitiado por fumaças de origens variadas, orgânicas ou não. Seu intuito e promessa é diversão e nisso ele cumpre com competência. A distração é bem vinda, mesmo que ela se dissipe rapidamente.
 

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