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Ouvir música quando o mundo está acabando

Ouvir música quando o mundo está acabando

Qual é o sentido da arte em tempos de urgência?

 'Persona’ (1965), Ingmar Bergman

'Persona’ (1965), Ingmar Bergman

Eu devo continuar ouvindo música? Escrevendo sobre música? Tem passado pela minha cabeça, de vez em quando, nesses dias em que a mente não tem sossego e em que o mal triunfa, que não é certo me distrair. Que qualquer atividade que desvie minha atenção da realidade não é nada além de uma fuga, ou tentativa de fuga do inevitável… Como se o mundo já tivesse acabado, e agora não há mais sentido em recorrer à arte para buscar a reflexão, catarse. A sociedade alcançou uma parede e pintá-la não mudará nada.

Esses meus devaneios pessimistas estão certos? Devo fazer um voto de silêncio diante da loucura assombrosa que assolou a sociedade e não me permitir sentir nada além de desgosto e pesar? Qual é o sentido da arte em tempos de urgência?

Essa questão certamente exige reflexões e investigações profundas e amplas. Mas na minha mentezinha inquieta eu busco meias respostas para as meias perguntas que consigo elaborar… Primeiro, eu não quero parar de viver. Eu ainda quero sentir, descobrir, me envolver e compartilhar experiências. Eu tenho entendido que meu cansaço ininterrupto guarda uma vontade de se ver refletido. Minha indignação dolorosa quer se ver representada. Meus ideais querem se verbalizar. Em música, em cor, em poesia. Eu quero o onírico, o surreal revelando a desordem de uma realidade inacreditável e toda embaralhada.

Eu tenho percebido, também, que é muito fácil encontrar evidências de que a turbulência da vida na tirania produz uma arte poderosa e resistente. Caetano, Chico, Gil, Belchior, tantos outros. Há arte pela qual se esperar, sempre houve. Especialmente na música e especialmente nesses dias em que um deslizar de dedos te leva aos poços de criação.

Se nada disso fizer muito sentido ou se não servir de muita coisa, é importante que esteja claro que fugir não é errado. Pelo contrário, é justo e honesto escapar das notícias de televisão e dos discursos vazios dos tiranos e de seus fiéis seguidores. Na verdade, eu acho que é radical, de certa forma, dar uma banana pro status quo cambaleante e cruel e seguir sendo si mesmo, desobedecer os cuzões e os idiotas e continuar falando de música e de arte.

Embora eu não consiga e nem queira me desfazer dos meus momentos de Elizabet Vogler de Persona ou dos Remanescentes Culpados de The Leftovers, eu também quero tentar preservar o que em mim sempre buscou a beleza e a cor. Pois nessa busca, tanta preciosidade já foi encontrada, e agora eu preciso delas mais do que nunca. Vamos continuar buscando.

As Melhores Faixas de Outubro

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