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New Amerykah Part One (4th World War) - Erykah Badu

New Amerykah Part One (4th World War) - Erykah Badu

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New Amerykah Part One (4th World War) 

Erykah Badu
Motown
Fevereiro/2008
Neo Soul
O que achamos: Muito Bom

É meio surpreendente descobrir que o primeiro álbum conceitual da Erykah Badu veio depois de mais de dez anos de carreira visto que tudo na sua persona e arte (mais essência, pelo que tudo indica) parece ser muito além de simples absorção da mente humana mortal e mais, digamos, regular. Mas aqui estamos. Em um vislumbre ao título ambicioso já é possível presumir que o quarto álbum da cantora americana é uma aula de história que não vemos em sala de aula.  Até porque não vemos um foco na existência negra de qualquer maneira a não ser que seja algo específico. Logo, a arte ilumina e ilustra.

A pegada da primeira parte da história (a segunda, New Amerykah Part Two (Return of the Ankh), vem em 2010 e é mais focada em relacionamentos) é social e política por natureza. No universo de “New Amerykah Part One: 4th World War”, estamos vivendo em um pós-guerra de direitos civis nos quais os negros buscam a sua identidade e reforçam a sua humanidade perante a um mundo que basicamente sempre a negou. O lado bom desse enredo é que Badu nunca jurou retratar um mundo alternativo ou apocalíptico; saindo em contra partida do que pensamos de “álbum conceitual”, uma paisagem desoladora pode apenas ser a realidade.

Esse álbum remonta a uma nostalgia pesada, até desgastante. Lançado antes de nos preocuparmos com questões sociais, nos antecedentes da Era Obama,quando éramos mais esperançosos e inocentes, bem menos cansados porém um pouco cegos e definitivamente menos alertas e ansiosos,  é impossível não traçar paralelos entre em que pé estamos como sociedade. A positividade foi engolida por cinismo e melancolia. O discurso perdura. E os tópicos ainda são relevantes porque o mundo progride mas não se transforma em dez anos. E como assim já se passaram dez anos?!

Produzido por Madlib, 9th Wonder e Shafiq Husayn, e gravado no icônico Electric Lady, New Amerykah não é aquém de compreensão. Existe algo na aura de Erykah Badu que impede que a sua arte seja pretensiosa ou de difícil digestão por mais vanguardista que esta seja às vezes. Mesmo operando em um plano muito distante do nosso, há uma acessibilidade inerente em tudo o que produz. A sua mensagem é direta e certeira até mesmo na extremidade da sua ambição. Talvez porque há uma ciência enorme da importância daquilo que está sendo dito dentro e fora do seu público.

É possível ouvir as influências claramente, já que são apenas o cume da negritude sonora - de Miles Davis à Stevie Wonder, Erykah Badu traz a sua cartela de neo soul, R&B, hip-hop (homenageado em “The Healer” onde canta: "Hip-hop is bigger than religion") e jazz fundidas tão efusivamente quanto um punho simbolizando o black power. Pela primeira vez na carreira, Badu flerta com tons eletrônicos e experimentações sônicas, seus vocais suaves e intocados, crus em justaposição à complexidade e densidade dos instrumentais permeados em diversas camadas. As músicas longas de praxe em álbuns conceituais do tipo não removem o apelo do álbum, nem o tornam cansativo. O groove e o carisma de tudo à mostra aqui jamais deixariam isso acontecer.

A sua visão é cristalina e poderosa. Suas letras retratam o lado cru de ser negro e americano, da dificuldade em existir e do sentimento de falsa liberdade (“Soldier”), trazendo no manifesto “Twinkle” um dos versos mais impactantes da sua carreira: "I’m a human being, damn it / My life has value!". Já em “Master Teacher Medley”, a afirmação chega a ser um grito de guerra: “I stay woke” - pois wokeness não foi inventada ontem.

 

O próximo álbum do Clubinho é o Dire Straits, do Dire Straits (1978).

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