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Twin Fantasy - Car Seat Headrest

Twin Fantasy - Car Seat Headrest

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Twin Fantasy

Car Seat Headrest
Matador
Fevereiro/2018
Indie Rock
O que achamos: Muito bom

Em uma jogada ambiciosa, o mais recente lançamento do Car Seat Headrest é nada mais, nada menos do que uma regravação, do começo ao fim, de um disco lançado anteriormente, em 2011. A primeira versão, repleta de chiados, distorções e pequenos defeitos naturais de gravações caseiras, é uma das grandes responsáveis por criar um pequeno culto de fãs dedicados em torno da banda - e de seu criador, Will Toledo. Na época com 19 anos, Toledo escreveu letras repletas de acidez, cinismo e muita dor que tornam quase impossível não se deixar tocar. Em versos como “It should be called anti-depression/ As a friend of mine suggested/Because it's not the sadness that  hurts you/ It's the brain's reaction against it” (da majestosa “Beach Life-In-Death”), é possível perceber a carga de sentimentos - dentre eles a incerteza, a tristeza e a melancolia - depositados nas palavras magicamente bem escolhidas por Toledo. Sendo assim, a regravação de Twin Fantasy é, ainda que um feito incomum, uma ótima aposta. A nova versão do álbum é refinada (ainda que com os pés fincados no power pop e indie rock), maravilhosamente bem executada e, sem perder o espírito do que foi o início de tudo, há sete anos, é tocante, emocionante e fácil de se identificar.

O tema do álbum gira em torno de um relacionamento com um rapaz que, segundo Toledo, foi baseado em parte em sua experiência pessoal. Além dessa temática principal, carregada de sofrimento pós-adolescente, outros temas, como drogas, sexo e solidão permeiam as letras incríveis de Toledo, que tem uma habilidade inegável de transmitir arrepios, desconfortos e constrangimentos para quem escuta suas composições. Algumas das sacadas das letras de Twin Fantasy são dotadas de pura genialidade, como em “Famous Prophets (Stars)”, que começa com: “Apologies to future mes and yous/ But I can't help feeling like we're through/ The ripping of the tape hurts my ears/ In my years, I have never seen anyone quit quite like you do”.

Outro exemplo pode ser encontrado na faixa “Bodys”, que une um início de batidas dançantes de música eletrônica a riffs e vocais altamente inspirados em Strokes (algo que é notavelmente marcante na discografia do Car Seat Headrest). A faixa, abordando uma complexa oposição entre impotência e a sensação de indestrutibilidade - algo tão presente na juventude - apresenta algumas sutilezas cômicas em sua letra, como quando Toledo fala sobre a própria estrutura da música: “(Is it the chorus yet?/ No. It’s just a building of the verse/ So when the chorus does come, it’ll be more rewarding)”. “Nervous Young Inhumans”, que antecede “Bodys”, começa carregada de guitarras de power pop e sons quase alienígenas de sintetizador. O início, elétrico, apesar de se manter ao longo da faixa, é rapidamente aliviado pela voz rouca e abafada de Toledo. O grande momento é, passados os três primeiros minutos, o outro, falado em volume baixo, uma divagação existencial a respeito de bem e mal, religião, viagens e meses do ano, seguido de notas tortas de guitarra que fizeram com que eu sorrisse e lembrasse do bom e velho Libertines.

Guardando o melhor para o final, é preciso tirar um tempo para falar de “Beach Life-In-Death”. A faixa, que ganhou pouco mais de um minuto na versão regravada, conta com não-tão-longos treze minutos, necessários para contar uma história dividida em três partes. Na faixa, Toledo fala do constrangimento sob o olhar de julgamento dos outros (“And when the train came it was so big and powerful/ When it came into the little station/ I wanted to put my arms around it/ But the conductor looked at me funny”), das dificuldades envolvendo sua sexualidade (“I pretended I was drunk when I came out to my friends/ I never came out to my friends/ We were all on Skype/ And I laughed and I changed the subject”) e de sentimentos de raiva e dúvida que permeiam os relacionamentos amorosos (“Last night I dreamed he was trying to kill you/ I woke up and I was trying to kill you/ It's been a year since we first met/ I don't know if we're boyfriends yet”). “Beach Life-In-Death” também aborda crises existenciais e divagações filosóficas de Toledo, como nos belos versos “I am almost completely soulless/ I am incapable of being human/ I am incapable of being inhuman/ I am living uncontrollably”. A faixa se alterna entre explosões épicas de indie rock que subitamente desaparecem e momentos de calmaria, com notas soltas e espaçadas de guitarra e sons quebrados de bateria.

A regravação de Twin Fantasy é exatamente o que deveria ser: barulhenta, conceitual e profunda. Pra quem escutou a versão de 2011, a regravação soa mais limpa e mais poderosa, o que não tira o mérito e a beleza de todos os álbuns anteriores do Car Seat Headrest - fazendo um paralelo, é mais ou menos como o último disco do Foxygen em relação aos anteriores. Will Toledo, que começou sozinho e depois passou a gravar e tocar com mais três integrantes, juntou-se, em Twin Fantasy, com a banda Naked Giants, com quem o Car Seat Headrest fez turnês. Essa grandiosidade começa, portanto, nos sete músicos que participaram do projeto, e é transmitida no som cheio e épico do álbum. As letras, frutos da genialidade de Toledo, mostram um sentimentalismo que transborda, não por ser exagerado, mas por ser proveniente das vivências de um jovem introvertido, brilhante e confuso. É, enfim, um grande álbum do indie, no qual se prova que é possível brincar com emoções obscuras e densas para fazer um som dançante e terrivelmente contagiante.

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