Olá!

Somos o Timbre. Um espaço de opinião sobre música vibrando em novas frequências.

In a Poem Unlimited - Us Girls

In a Poem Unlimited - Us Girls

usag).png

In a Poem Unlimited

U.S. Girls
4AD
Fev/2018
Indie Pop
O que achamos: Excelente

“Você dorme com um olho aberto porque ele sempre pode voltar, e você anda pelas ruas indefesa esperando qualquer homem explodir” é como somos apresentados ao oitavo álbum da U.S. Girls que na verdade é apenas — ou em sua maioria — Meghan Remy. Sua voz suave sobre uma instrumentação polida de sons de sopros e riffs nos guia até um conto de vingança em “Velvet 4 Sale” e termina com um conselho: plante neles o medo de ser presa.  A introdução de In a Poem Unlimited,  oitavo álbum do projeto da cantora americana,  é doce e mordaz, eficaz no seu poder de relatar o peso da realidade e sorrateira no modo como é apresentada: um lo-fi calmo porém Lynchiano, simultaneamente noturno e límpido.

Em sua carreira de 10 anos, Remy sempre preteriu o modo experimental e vanguardista de fazer arte. Com flertes de ambient (Introducing…, 2008), shoegaze (Go Grey, 2010) e glam rock (Gem, 2012), sua preocupação e ambições musicais até então nunca foram algo descomplicado, digestível e acessível àquilo que se entende como “massa”. A base sonora do seu trabalho está na experimentação e nos riscos. Mesmo assim, a trajetória da sua discografia é um caminho até o externo. Sua música vai se abrindo e expandindo a cada lançamento, tornando-se menos impenetrável e mais pop — quanto mais pop, mais potente e questionador, quase violento. E aqui ele chega a ser brutal.

Brutal, sim, por retratar em grande parte as diversas formas como a violência contra à mulher se representa na sociedade e no dia-a-dia. Produzido pela própria Remy, Rich Morel, Steve Chahley e Tony Price, os 37 minutos de In a Poem Unlimited refletem o tempo-espaço no qual vivemos. Um álbum sobre fúria feminina contra o patriarcado, afiado, às vezes histérico, às vezes de sangue frio. As músicas não podem ser categorizadas em gêneros, pois elas transitam por ondas psicodélicas, disco, jazz, sintetizadores, distorções e pedais. A graça vive na sua imprevisibilidade, em ser surpreendido(a) pelo o que está por vir.

As guitarras dançantes de “Pearly Gates” narram um céu que não é lugar seguro para mulheres. Os teclados de “Poem” são uma distopia que lembra O Conta da Aia. “Incidental Boogie” mistura orquestras de riffs com a complexidade de relacionamentos abusivos. O groove e saxofones de “Rage of Plastics” nos conta a saga de trabalho de uma mulher. No indie rock de “M.A.H.” (mad as hell), o vilão da história é ninguém menos que Barack Obama e seus oito anos de presidência, o que pode parecer no mínimo inesperado nos tempos do Senhor Presidente Apresentador de Reality Show.

A profundidade psicológica, a narrativa das letras e a inovação das composições são mescladas com quase perfeição. É um trabalho navalhado, raivoso e incendiário, e ainda sim contemplativo. Cada música é uma história, uma mulher plena e multidimensional que pode ser você mesma ou qualquer pessoa que você conheça. O pop pode ser político sim, para quem esteja se perguntando.

Always Ascending - Franz Ferdinand

Always Ascending - Franz Ferdinand

Twin Fantasy - Car Seat Headrest

Twin Fantasy - Car Seat Headrest