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The Official Body - Shopping

The Official Body - Shopping

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The Official Body

Shopping
FatCat Records
Janeiro/2018
Post-Punk, Indie Rock
O que achamos: Muito Bom
Timbre Recomenda

The Official Body, terceiro álbum da banda Shopping, vem como uma surpresa. Onde estavam eles antes? Os britânicos Rachel Aggs, Billy Easter e Andrew Milk, todos vindo da cena DIY de Londres, se juntaram em 2012 e com seus primeiros dois trabalhos de estúdio (Consumer Complaints de 2013 e Why Choose de 2015), o trio foi marcando presença no circuito post-punk de shows no Reino Unido. Porém sua música ainda não havia se propagado muito além dessa comunidade de músicos e frequentadores de apresentações em bares e casas noturnas.

Após a realocação de Milk para Glasgow depois do segundo álbum banda, as sessões de gravação presencial que marcavam a sintonia do trio foi afetada, e a pressão para gravar material em menos tempo de estúdio se intensificou. Juntando isso com o clima incerto pós-Brexit e a entrada de Trump no poder nos EUA, o clima tenso nas composições deste novo registro não é surpresa.

Pesquisando sobre a banda na internet, percebe-se que eles são colocados dentro de uma caixa post-punk dançante, o que não é algo errado ou ruim. A classificação (para aqueles que gostam de classificações) faz muito sentido, porém ouvindo o álbum, para mim fica evidente a mistura desse post-punk britânico oitentista com uma pegada meio surf rock dos anos 60, e me surpreendeu não ter encontrado essa menção em nenhum lugar.

E toda essa vibe surf rock dançante vem da guitarra da Rachel Aggs, que é o ponto central da produção instrumental das 10 faixas do The Official Body. Logo na primeira faixa do disco, o ouvinte é impactado pela força do instrumento, e como ela comanda o ritmo de forma tão gostosa, como uma tarde de verão. Justamente após essa constatação, dá para entender porque a capa, que contém de forma tão artística uma composição de uma sombra de uma boia inflável no formato de um jacaré, parece se encaixar tão bem com uma proposta sonora que a princípio não teria nada a ver com diversão sob o sol.

Ainda assim, não é apenas de luz solar que vive a narrativa do registro. Assim como as vozes de Rachel e Billy fazem um jogo vocal entre o masculino e o feminino no decorrer das músicas, a vibe dançante das faixas vai atingindo seu ápice lá para o meio do álbum e daí entramos em uma festa cada vez mais niilista, para não dizer gótica, em um atropelamento de sensações sonoras. Sentimos a euforia na cadência melódica, e a desesperança cada vez mais forte.

Em meio a isso tudo, o conteúdo lírico é bem original, mas remetente de um estilo punk dos anos 70 bem forte, com poucas palavras em tom ausente de positividade, quase como ouvir palavras de ordem em um comício ausente de emoção. Em “Asking For A Friend”, a banda se pergunta: “Why is it so hard/To know what I need/Why is it never enough/To satisfy me”, em uma retórica adolescente e cheia de rebeldia e ansiedade.

Outro ponto do álbum toca na intolerância com minorias, como em “Suddenly Gone”, ou “Wild Child”, que demonstram em diferentes ângulos a luta diária que drag queens e pessoas não cis sofrem para se afirmar em um mundo covarde e preconceituoso.

Ao final disso tudo, “Overtime” é uma ode à como absorvemos informação demais em um curto espaço de tempo na sociedade contemporânea, e ela deixa o álbum com uma nota de lamento. Uma pequena joia rara desse início de 2018, The Official Body traz muito em poucas palavras, nos faz dançar e nos encanta com um instrumental que tinha tudo para ser básico, mas não é. Foi uma delícia entrar na mente musical desse trio talentoso, e espero fazê-lo em mais oportunidades.

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