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Microshift - Hookworms

Microshift - Hookworms

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Microshift

Hookworms
Domino
Fevereiro/2018
Noise Rock, Drone Rock
O que achamos: Excelente

O quinteto de Leeds, em um misto de modéstia e obscuridade, lança seu terceiro álbum, Microshift, sem dúvidas o mais palatável e possivelmente o mais interessante da carreira da banda. Um efeito curioso, ainda mais sendo ele posterior à tragédia do final do ano de 2015, quando o rio Aire invadiu o estúdio do Hookworms, algo que Matthew Johnson (MJ), vocalista, descreveu em entrevista ao The Guardian como “genuinamente assustador”. Sem conseguir o dinheiro do seguro, a banda perdeu, além do material que lá estava, o espaço, que funcionava como um estúdio comercial. Alguns anos depois, com apoio de crowdfundings e de amigos, o estúdio foi reconstruído, e Microshift lançado, contendo a carga de angústia esperada, com um pano de fundo agridoce que torna o álbum denso e agradável, uma união que se mostrou absolutamente maravilhosa.

O mistério que parece pairar acima do Hookworms começa com os nomes dos integrantes, que preferem ser conhecidos por suas iniciais: JN, JW, MB, MJ e SS. Esse mistério se manifesta tanto nas letras curtas, pausadas, cantadas por uma voz camuflada por camadas e camadas de efeitos, quanto nos riffs barulhentos e mãos pesadas na bateria e nas teclas. Pearl Mystic (2013), álbum de estreia, une um caos majestosamente desorganizado - à la Velvet Underground - a guitarras encorpadas e composições oníricas, formando um conjunto surpreendente. Em seguida, veio The Hum (2014) que conserva as características de seu antecessor, envolto em gritos melancólicos abafados e noise rock.

Antes que alguém possa se enganar, Microshift não vai para o lado oposto, nem apela para sons açucarados ou temáticas comuns. Parece apenas um amadurecimento do quinteto, com pés mais fincados no chão, e inclusive com menos medo de se mostrar, no sentido tanto literal - como a voz de MJ, que se destaca bem mais do que nas produções anteriores - quanto na carga de sentimento depositada nas melodias, letras e instrumentos.

O álbum, com 9 faixas - cujas durações variam entre 2 e 8 minutos -, traz elementos como o peso da auto-destruição, a depressão e a dor do término de um relacionamento. Imerso em loops, repetições e batidas que soam incrivelmente bem, Microshift talvez seja um novo mergulho da banda em outras referências, como o pop e o disco, mas que não camuflam, superam ou atrapalham a psicodelia arrastada (no melhor sentido possível) do Hookworms. O álbum é interligado, sem deixar pontas soltas, muitas vezes conectando-se o final de uma faixa com o início de outra por fade outs e fade ins de sintetizadores.

A faixa de abertura, “Negative Space”, é desde seus primeiros momentos embalada na música eletrônica, o que condiz com as experimentações dos membros da banda no gênero, mostrando um leve distanciamento das distorções e chiados presentes nos outros álbuns do quinteto. Um início forte, “Negative Space” traz em si um par de opostos: se a letra fala de morte, dor e distância, a melodia é dançante e quase alegre. Ainda nos primeiros minutos de Microshift, há a agitada “Ullswater”, que se constrói em um clima elétrico e de tempos incomuns, enquanto as letras abordam mais uma temática difícil: a luta do pai de MJ com o Alzheimer. Em seguida, a memorável “The Soft Season” que, como diz o título, é bela e suave, com aspectos de dream pop que se sobressaem em relação às outras faixas.

“Boxing Day”, talvez a mais sombria do álbum, é também a mais curta, com 2 minutos e 19 segundos. Com clima de filme de terror (afinal, foi no feriado com o mesmo nome que ocorreu a enchente mencionada), a faixa acaba abruptamente, o que fez inclusive com que MJ escrevesse em seu Twitter: “para nos poupar de repetições, sim, ‘Boxing Day’ foi feita para acabar assim”. A última faixa do álbum, “Shortcomings”, tem uma bonita progressão em termos de letra, com um início tão soturno que traz Joy Division à mente - “This party is nearly over/ Lately, love feels cynical/ Calloused mind of self destruction/ Lately I don‘t know”. Ao final da faixa, que também é o fim de Microshift, o tom muda, trazendo uma espécie de esperança letárgica, que se encaixa perfeitamente com o clima geral do álbum: “Found a way to love the world/ I remember the place where I first felt ashamed/ Of my body and space/ I was wrong, I was wrong”.

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