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Man of the Woods - Justin Timberlake

Man of the Woods - Justin Timberlake

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Man of the Woods

Justin Timberlake
RCA / Sony Music
Fevereiro/2018
Pop
O que achamos: Péssimo

Então, como uma Rachel Dolezal em reverso, Justin Timberlake se redescobriu homem branco e sulista Americano. Retorna depois de cinco anos, muito depois de clamores para uma pausa do cinema terem esfriado, com Man of the Woods, seu quinto álbum. Produzido por Timbaland e Pharrell Williams, dois mestres responsáveis pelo seu breakthrough como artista solo pós-cabelo-de-miojo-sabor-galinha-caipira e o seu auge musical numa escolha que outrora seria uma maestral, mas que na verdade é mais uma nostalgia apelativa e vazia. Auto-descrito como “um folk & americana misturado com 808s” (tradução: o country depois da descoberta de umas playlists de new wave), o álbum começa com a exclamação “Haters will say it’s fake”, de “Filthy”. E em um mundo ideal seria mesmo.

Qualquer aspecto cativante e realmente inovador encontrado em Justified e FutureLove/SexSounds, a introdução digna de atenção seguido a continuação que lhe trouxe respeito, não só se perdeu como tornou-se antiquado e desnecessário. A celebração do início da carreira solo e o título “Justin Timberlake, pop star”  agrandaram o ego de alguém que realmente acredita ter aberto portas para outros iguais a ele. Como se todas as portas do mundo já não estivessem escancaradas para cantores brancos e bonitinhos.

Man of the Woods é construído na premissa básica e batida de ser um manual do homem moderno - porém de família - cheio de soberba disfarçada de sabedoria, e faminto por mais um pouco de veneração. Mas o mundo de 2018 está saturado; já não tem mais interesse em exaltar a mediocridade masculina. O mero fato de ter sido gravado e lançado nos últimos dois anos comprova uma falta de noção e contato com a realidade quase estratosféricas.

A dissonância sônica reina suprema. As transições são repentinas, como se duas ou mais sessões de gravações com propostas diferentes houvessem sido remendadas juntas. Cada música parece pertencer a um álbum diferente. Se na terceira música ele é o homem do mato, na sétima ele pode ser o mais novo branquelo sem sal do trap. A ideia provavelmente era a diversidade de tons e uma ilustração de todos os gêneros americanos que o inspiraram ou qualquer coisa que dê a mesma impressão de falsa modéstia.

E é por isso que temos, nessa ordem exata: mais um hit pronto sanguessuga do hip-hop, caso você tenha se esquecido, a especialidade da casa (Deus me liberte de todo mal, e de “Supplies” também); um dueto piegas com a Alicia Keys ("Morning Light"); um outro dueto vagamente Make America Great Again com Chris Stapleton ("Say Something"); um interlúdio digno de Michael Bublé cantado pela esposa por motivos matrimoniais e paternos afim de reforçar a Cultura Hétero ("Hers"); e um R&B de menino azedo de subúrbio americano que inventou de fazer um cover country de Boyz II Men digno de causar inveja em Ed Sheeran ("Flannel"). Os tais dos synths 808s estão misturados ou escondidos através das músicas, ocasionalmente juntos a guitarras sujas tiradas de uma banda cover de The Strokes, espremidos entre momentos de disco e uma versão top e cervejeiro artesanal de Joanne da Gaga.

É uma produção insípida, previsível (é lógico que um bicho ronrona logo após Justin entoar a palavra “beast”) e sem um pingo de coerência, quando não é confusa sobre a própria identidade ou propósito. A imprevisibilidade de uma batida - que de fato têm muito potencial - pode ser interessante se ela vai para algum lugar ao invés de se perder ou permanecer inexplorada em faixas longas e repetitivas que testam a sua paciência depois de um tempo. Pensando bem, talvez seja difícil cobrar individualidade ou nexo de um artista cuja carreira é um pilar espetacular de personalidades e culturas alheias.

E como se isso não fosse sofrimento suficiente, temos os ensinamentos do tal almanaque do homem mediano americano, que vão de “You’re pink / I’m purple” ("Sauce"), passando pelo momento obrigatório de esquerdomacho - quem é que protagonizou um filme do Woody Allen em 2017 mesmo? -, arrogância disfarçada de confiança e conselhos tóxicos porém sutis ao filho pequeno. É uma experiência frustrante e cansativa; uma hora e seis minutos se passam tão vagarosamente quanto a espera em um consultório de dentista.

Liricamente raso, artificial e auto indulgente, Man of the Woods se enrola nas próprias ideias e ambições. É muita coisa e muita pouca coisa ao mesmo tempo. Tipo homem mesmo. As estações vão e voltam, anos passam e a cada mudança de transformação de tempo a sociedade vai se arrependendo de ter dado biscoito à esse homem. Portanto, uma proposta: vamos superar o Timberlake.

Que Janet Jackson e a Britney Jean tenham um ótimo 2018.

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