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A trilha sonora de Crepúsculo, 10 anos depois

A trilha sonora de Crepúsculo, 10 anos depois

Será que a primeira parte da saga Crepúsculo nos ofereceu algo de bom, afinal?

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O ano era 2008. Eu estava na sétima série, aos 13 anos, aproveitando os últimos meses antes de ter meu rosto completamente tomado pela acne e me afundar numa timidez cada vez maior. Em algum momento entre acompanhar as olimpíadas de Pequim, ouvir falar da grande crise econômica que assolava o mundo, e me assombrar com a história do padre voador de Paranaguá/PR, eu fui apresentado a Crepúsculo, o primeiro livro da saga de Stephenie Meyer, lançado em 2005, que iriar ganhar sua adaptação para o cinema em novembro daquele ano. A infame franquia cinematográfica baseada nos livros se tornaria um dos maiores sucessos de bilheteria da década e um dos piores fracassos de crítica da história. Tendo sido movido por alguma curiosidade estranha a assistir todos os 5 filmes da franquia, eu concluí, já ao assistir o segundo, que se tratava de uma péssima experiência cinematográfica dedicada apenas a satisfazer fãs histéricos e a colocar os atores em suas performances ridículas acima de qualquer ideia narrativa e/ou estética. Exceto pelo primeiro filme, do qual eu sempre gostei.

Não, não estou dizendo que é um bom filme, que deveria receber mais reconhecimento ou que justifica o sucesso comercial alcançado pela saga ou a produção de mais 4 parcelas para a história chocha da donzela em perigo adaptada para a modernidade. Ele só é original, de alguma forma, na criação de sua atmosfera, e eu admito, hoje, que gosto dele. E isso deve muito à sua trilha sonora, tanto nas canções selecionadas para ela, quanto na trilha instrumental de Carter Burwell (Onde os Fracos Não Têm Vez; Carol).

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A trilha de Burwell brincava com distorções de guitarras e sintetizadores, ambos espaçados e sombrios, criando a atmosfera de suspense e insegurança para retratar a chuvosa cidade de Forks e o mergulho de Bella Swan em seu romance perigoso com o vampiro Edward Cullen. “Bella’s Lullaby”, a queridinha dos fãs, é um momento belo numa trilha de tensões e distorções e "I Know What You Are" envolve a icônica cena em que a protagonista confronta o vampiro pela primeira vez. O filme também surpreende ao usar com respeito a clássica “Claire de Lune” de Claude Debussy em uma de suas cenas. Ainda assim, foram as canções do OST que tiveram um maior impacto na cultura pop em 2008/2009.

A tracklist vai de Linking Park (“Leave Out All The Rest”, uma das últimas grandes canções da banda) até Iron & Wine (“Flightless Bird, American Mouth”), passando ainda por Muse e sua famosa “Supermassive Black Hole”, que estorou nas playlists indies após figurar no filme. Todas elas ajudam a construir um mood de suspense e perigo que ajudou o filme a se tornar maior que si próprio e entrar no imaginário coletivo de adolescentes do mundo todo, eu incluso.

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Obviamente, nenhuma dessas faixas teve o impacto de “Decode”, do Paramore. A banda, que ainda está na trilha com “I Caught Myself”, escreveu a canção especialmente para o filme quando soube que ele seria produzido pela Summit Entertainment. Assim, acabaram criando uma obra que ajudou tanto a banda quanto o filme a impulsionarem sua popularidade. Até hoje, “Decode”, com suas guitarras sombrias, letra mórbida e uma Hayley Williams no auge de sua potência vocal, é uma das maiores conquistas do Paramore. Inteligentemente, eles recusaram o convite para figurar na trilha do segundo filme, afirmando que não queriam ser conhecidos como a “banda do vampiro”. Ambas as faixas da banda que integram a trilha de “Crepúsculo” capturam muito bem o suspense dramático que o filme buscou alcançar (“I Caught Myself” é menos conhecida, mas tão boa quanto “Decode”), e mostram a capacidade que a banda sempre teve de escrever letras maduras demais para o seu público na época e, hoje sei, para o filme também.

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Com 10 anos de distanciamento histórico do primeiro filme e 5 anos do último, hoje posso dizer tudo isso que disse aí em cima. No fim das contas, toda a saga é algo que seria melhor se não existisse, com todos os defeitos grosseiros e ambições por gordas bilheterias, foi sobrevivendo graças à romantização de situações ridículas da sua narrativa pobre e da espetacularização da vida dos atores que protagonizaram a franquia. No entanto, meu coração é grande e me permite olhar além disso tudo para o elemento musical do filme que, sem saber, iniciou o pesadelo em 2008. Sim, acredito que “Crepúsculo” , em sua trilha sonora consistente, teve algo a oferecer, não só para mim, que gosto do filme, mas para qualquer um que curta música, entendendo que houve uma preocupação na curadoria da trilha em amarrar a atmosfera do filme ao seu complemento musical sem apelar para o extremamente popular em detrimento da coerência.

O ano é 2018. Já sem acne, eu dou play em “Decode” e, sem inibições, faço um joinha de aprovação.

Rifles and Rosary Beads - Mary Gauthier

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SEMICIRCLE - The Go! Team

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