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Freedom's Goblin - Ty Segall

Freedom's Goblin - Ty Segall

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Freedom's Goblin

Ty Segall
Drag City
Janeiro / 2018
Rock, Folk, Punk
O que achamos: Excelente
Timbre Recomenda

Ty Segall faz música que soa, ao mesmo tempo, épica e íntima. Diante de sua discografia, iniciada em 2008, que conta com nove álbuns de estúdio em carreira solo e um com a Ty Segall Band, é fácil pensar que o multi-instrumentista californiano de 30 anos poderia acabar caindo na armadilha de lançar trabalhos mais vagos, diluídos no volume de obras em sua carreira prolífica. No entanto, aqui temos Freedom’s Goblin, um álbum de 19 faixas que parece ter sido feito com a devoção de fazer amor com a pessoa amada. Nunca descuidado, sempre atencioso dentro de uma paixão que queima e que afaga.

 Ty e Fanny

Ty e Fanny

“I’m sick of the sunshine / I wish I could make it blue / for you”. Os versos cantados em “Rain”, segunda faixa do registro, expressam essa devoção desesperada que, por sua vez, parte de uma dormência em relação ao mundo. “I’m waiting for the sky to die”, Ty canta, colocando todo o restante de sua disposição para habitar esse planeta nessa pessoa, a qual é capaz de fazer chuva. É uma canção tão calma quanto sombria, com notas graves de piano precedendo um refrão elevado por uma marcha com percussão, trompetes e guitarras. Ela curiosamente se distingue muito da primeira faixa do álbum, “Fanny Dog”, em sua sonoridade. Se “Rain” se abre só um pouquinho ao longo de seus 4 minutos, “Fanny” já começa solar, com Ty cantando num tom mais alto e por cima de instrumentos mais claros sobre sua cadelinha, a quem parece amar muito. Que fofo <3

É um contraste que se estende pelo restante da obra. Fica, na verdade, muito difícil de encaixar Freedom's Goblin em algum rótulo específico, pois Ty passeia por alguns gêneros sem muita dificuldade, mas apresentando domínio total de todos. Se as primeiras faixas se jogam no rock clássico, e isso se repete em outras pelo álbum, “Every 1’s a Winner” tem sua base roqueira misturada com um funk sensual que muito lembra momentos de Prince. “Despoiler of Cadaver” mantém o mergulho mais dançante, flertando com o eletrônico e contrastando com sua composição mórbida.

Com as faixas iniciais do disco mostrando tanta consistência e variedade, me vi esperando, na primeira vez em que ouvi, que Freedom’s Goblin perdesse o rumo e se tornasse enfadonho em algum momento. Fiquei bem feliz de estar errado: qualquer pensamento do tipo é logo afastado pela capacidade que Ty apresenta de criar novos impulsos para suas músicas. Depois das 5 primeiras faixas onde o barulho predomina, o disco apresenta a belíssima “My Lady’s On Fire”. É uma incrível canção country-folk, que começa com violões e vocais calmos construindo alguma tensão nos primeiros versos e se torna uma grande entrega emocional ao ganhar outras camadas de instrumentos.

E aí Freedom’s Goblin passa de muito bom para excepcional, pois o que vem a seguir só adiciona ao emaranhado de belas composições líricas e instrumentais do álbum, ao verdadeiro mosaico de texturas, cores e atmosferas que o cantor e compositor costura com sua excelente versatilidade. Chega a emocionar, pois é como uma homenagem à música em si. O caldeirão de referências borbulha, mas cada elemento é trazido com muito respeito e compromisso à mistura. Se numa faixa há um bonito dedilhado de violão, na outra o ouvinte é apresentado com um solo de guitarra que nada deve às melhores faixas do Led Zeppelin. Sim, Freedom’s Goblin é bom nesse nível. Ele se permite a articulação de gêneros da atualidade, a intensidade emocional e introspectiva do grunge e post-punk dos anos 90, e a experimentação e excelência do rock progressivo e punk dos anos 70, mas sem se limitar a nenhuma dessas influências.

Ao longo dos seus 74 minutos, o trabalho de Ty Segall oferece sempre ao ouvinte algum lado seu para ser desvendado, há sempre motivo para prestar atenção. Até mesmo nos 12 minutos da faixa final, “And, Goodnight”, somos deixados em alvoroço a cada segundo com as guitarras que se sobrepõem umas às outras e se alternam com os belos vocais que resgatam a devoção do início da obra. Mais do que nunca, os sons, texturas e letras remetem a um amor feito com um altruísmo extremo (“I want to sleep all day with you”).

A excelência do trabalho de Ty Segall em Freedom’s Goblin acaba por sendo, como o título do álbum indica, um trabalho de liberdade. Segundo que outro princípio o artista poderia caminhar por tantos diferentes espaços e criar tantas diferentes sonoridades num trabalho só? E a excelência reside no fato de o registro manter a coerência entre suas muitas partes, criando um presente para os livres, para os goblins, para a música.

SEMICIRCLE - The Go! Team

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