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Ray Of Light - Madonna

Ray Of Light - Madonna

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Ray Of Light

Madonna
Maverick/Warner Bros.
Março/1998
Pop, Eletrônica
O que achamos: Obra-prima

Há 20 anos atrás, em 1998, a humanidade recebia um novo presente, com tom azulado, cheio de elevação espiritual e 13 faixas complexas que mudaram a noção do que era música pop ao final do século XX. Recebemos clipes maravilhosos, e a carreira da maior artista feminina mainstream de todos os tempos entrava triunfalmente em um território adulto e contemplativo. Como a fama extrema afeta sua vida? No que isso te transforma? Sempre pensamos no dinheiro ganho e no status, mas o que é perdido?

Madonna (até a década passada pelo menos) é um símbolo de relevância, de artista que levou sua falta de óbvios talentos musicais para outro patamar, inserindo sua visão de marketing pessoal, moda e análise de mercado para a construção de uma carreira sólida o suficiente para nos fazer acreditar que jamais teremos alguém como ela na música. Cada álbum lançado foi uma era, cada turnê um evento diferente, cada clipe um momento que parava o mundo, sempre ávido para acompanhar.

Depois de 15 anos nessa vida de fama, e se aproximando dos 40 anos, a cantora conheceu a Kaballah, uma doutrina religiosa que tem suas raízes no judaísmo e estudou o hinduísmo e o budismo. Isso trouxe à tona uma transformação na artista, que tinha acabado de se tornar mãe e fazer o papel de Eva Perón no musical Evita, ambas ocorrências que expandiram muito seus horizontes. Fazendo o que fez de melhor em todos os seus anos de trabalho anteriores, Madonna foi buscar no underground um tipo de produção que ela pudesse moldar para tornar atrativa para seu público poder consumir em escala e conseguir sonorizar todo esse processo de espiritualização e auto-conhecimento recém adquirido.

William Orbit foi o produtor escolhido. O inglês, com uma carreira de DJ e produtor eletrônico razoavelmente desconhecida deu um toque extremamente contemporâneo ao Ray Of Light, que veio cheio de um eletrônico com toques experimentais, tangendo desde o ambient ao trip-hop. Somando a isso todos os samples perfeitos selecionados, a experiência quase tântrica de se ouvir esse álbum se deve ao casamento entre o pensamento exposto nas letras e como elas se envolvem na aura de mistério e meditação construída pelos sons computadorizados criados por Orbit.

O disco tem momentos inesquecíveis. Sua faixa inicial “Drowned World/Substitue For Love” dá o tom para o resto do registro, com sua batida ambient minimalista, e conta como Madonna acredita que suas prioridades como alguém famosa e sempre na mídia estavam invertidas, e termina dizendo: “Now I find/I´ve change my mind/This is my religion”. “Swim” vem em seguida. “Put your head on my shoulders baby/Things get any worse”, e entendemos que para a cantora, o mundo está em caos, e sem amor.

Um dos momentos mais brilhantes de sua carreira, a faixa título do Ray Of Light é um ataque sônico, que te pega por todos os lados, assim que o início calmo, que lembra o pôr do sol dá espaço a toda a loucura do eletrônico dançante. A música é uma ode à velocidade com que levamos a vida no mundo contemporâneo e como ao pararmos para refletir, somos muito pequenos relativo ao tamanho do universo que nos cobre.

Apenas esse trio de abertura seria suficiente para causar um bom impacto nos fãs e no público no geral, mas a obra de arte se estende por pouco mais de 1 hora, com músicas que tocam o esotérico e o aprendizado mais importante de qualquer religião: o amor é o que precisamos (“Nothing really matters/Love is all we need/Everything I give you/ all comes back to me”, ouvimos em “Nothing Really Matters, num ensinamento sobre amor e karma feito para as pistas de dança”).

Mais para o seu final (a minha parte favorita do registro), o hit “Frozen”, que tem a letra mais pop do Ray Of Light mesmo sem sair da linha lírica que a artista queria, fala de alguém que não está com o coração aberto para nada que fuja ao seu controle, incluindo o amor e afeto de um outro ser humano. “The Power Of Goodbye”, também uma das músicas famosas dessa era, é uma faixa desarmada, sobre a importância de saber quando devemos sair de uma situação que nos faz mal. “Learn to say goodbye”. Potente, certo?

Na última faixa, após refletir sobre o milagre que foi o nascimento de sua filha em “Little Star”, “Mer Girl” fecha de forma assombrosa o disco, e junto com a faixa inicial esta tem a letra mais confessional das 13 composições do Ray Of Light. “I ran and I ran/ I was looking for me”, diz Madonna, que se abre em como os eventos da sua vida a levaram a ser essa pessoa multi-facetada, mas que nunca de fato se encontrou.

Um dos álbuns mais vendidos de todos os tempos (16 milhões de cópias até hoje), Ray Of Light foi um olhar do futuro para a música mainstream, e uma redenção do passado de uma das grandes artistas do século XX. Depois dele, explodiram arranjos eletrônicos nas músicas das divas femininas da época, o álbum conceitual confessional virou uma realidade e algo que, se feito com coração e uma visão de marketing, pode conectar a audiência ainda mais ao artista e às causas e lições que este defende e deseja transmitir. Um experiência fascinante e necessária para qualquer fã de música.

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