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American Utopia - David Byrne

American Utopia - David Byrne

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American Utopia

David Byrne
Todomundo, Nonesuch
Março/2018
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O que achamos: Bom

Em qual momento dos últimos anos você desejou profundamente viver em uma utopia? Um mundo mais seguro, menos avassalador e mais justo. (O que seria um mundo mais seguro, menos avassalador e mais justo?) Quando você sentiu um medo profundo de sair de casa, abrir qualquer rede social ou ler as notícias? O futuro te dá ansiedade? Ainda existe algum propósito no otimismo? Pois saiba que David Byrne, um homem branco e rico de 65 anos, é igual a você. Digo, pelo menos ele também se sente assim, o que já é um começo.
    
American Utopia surge das cinzas de novembro de 2016. Um divisor de águas para a humanidade, e, conforme vozes mais esperançosas e geralmente mais privilegiadas dentro da sociedade previram, para a cultura e a arte. Trump foi eleito, e o mundo se conscientizou porque é impossível permanecer apolítico — a não ser que se queira. O ano de 2017 já nos trouxe alguns filmes e álbuns que ilustram a Nova Vida Pós-Moderna. A maioria são críticas ou sátiras de um cinismo mordaz. David Byrne, por ser David Byrne, fez diferente. A utopia é a esperança. Não é à toa que a mesma começa com “In another dimension…

Produzido pelo próprio em parceria com Brian Eno e Rodaidh McDonald, American Utopia é parte do projeto multimídia “Reasons to be Cheerful” (Razões Para Ser Otimista, em tradução livre) cuja nobre e necessária ideia é espalhar felicidade e focar nas coisas boas diante de tensões políticas, sociais e ambientais. É o primeiro álbum solo do músico depois de 14 anos e colaborações com St. Vincent, Caetano Veloso, Fatboy Slim (etc…), e best-sellers do New York Times. Engajado de um jeito refrescante e leve, o lirismo único de Byrne possibilita enxergar o mundo pelo ponto de vista da personificação da felicidade (cachorros em “Dog’s Mind’) e do objeto mais americano de todos (uma bala em “Bullet”). 

Sob seu  olhar aguçado, suas crônicas da vida contemporânea giram em torno de imigração e dos perigos do consumismo desenfreado que nos rege por tanto tempo. Apesar de promover o positivismo, ainda há espaço para cinismo e momentos ácidos. Quando, por exemplo, resume o individualismo americano de um jeito desdenhoso porém cortante em “Gasoline and Dirty Sheets”: She says that freedom costs too much / she says the mind is not place. Por mais que seja delicioso presenciar uma alternativa à realidade de uma mente tão mais evoluída do que a nossa, essas observações por vezes andam em círculos e acabam se confundindo. O propósito da jornada é o caminho e não o destino, mas a dissonância entre os tons é palpável. Acabam se contradizendo. Mesmo assim, diz ao que veio na melhor faixa do álbum (e candidata a melhor faixa do ano até agora), “Everybody’s Coming to My House”: We're only tourists in this life / Only tourists but the view is nice.

  Quanto a produção, é possível que Eno e Byrne sejam capazes de cometer erros? Bem, não. A genialidade do duo se repete de novo na faixa álbum mencionada acima com truques que façam com que os sons pareçam ser mais altos. A cada faixa é possível entender o quão especiais os dois são, tanto separados quanto juntos. Não há espaço para um único gênero ou ritmo. Tudo se converge. Se as letras por vezes são desordenadas, a produção compensa com muita harmonia.

A experimentação sempre regeu o mundo de David Byrne, a exploração sonora e instrumental carregando a audição a novas estradas e patamares. Em seus momentos mais calmos nos apresentam cordas e sintetizadores (“Doing the Right Thing”), juntados à percussões e loops de voz (“Here”). Ademais, a zona de conforto fica na junção do inesperado. Cítaras e instrumentos de sopro (“Gasoline and Dirty Sheets”), piano melódico e eletrizante (“I Dance Like This”), bongos e baixos (“Everybody’s Coming to My House”), cuícas! flautas! e um delicioso groove de guitarra ("It's Not Dark Up Here", outro destaque) podem e de fato criam algo admirável. Porém, por mais honrável que seja ideia fica a impressão de que poderia ter sido melhor.
 

Francis Trouble - Albert Hammond Jr.

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The Neighbourhood - The Neighbourhood

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