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Room Inside The World - Ought

Room Inside The World - Ought

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Room Inside the World

Ought
Merge Records
Fevereiro/2018
Rock, Post-Punk
O que achamos: Excelente

Timbre Recomenda

O post-punk contemporâneo encontra-se vivo e passando muito bem graças a bandas como Ought. Depois do status de revelação nas epifanias de More Than Any Other Day (2014) e na odisseia incisiva Sun Coming Down (2015), o quarteto de Montreal formado em 2011 continua se provando a cada lançamento. 

Aqui, no terceiro álbum em quatro anos, seguem como um destaque dentro de um gênero às vezes tido como um microcosmo de fáceis limitações e armadilhas — ou se perde ou se restringe ou se frustra. Enfim. Talhar o próprio som, tanto como músicos e principalmente como músicos de post-punk, onde as comparações mais básicas e rasas aos maiores nomes do gênero vivem a espreita, é uma tarefa no mínimo complicada. Mas nisso o Ought não tem com o que se preocupar; eles também passam muito bem.

Produzido pelo produtor francês Nicolas Vernhes (Animal Collective, Deerhunter, The War on Drugs) e gravado no Brooklyn, A Room Inside the World traz como característica principal um som mais limpo, um pouco mais limpo do que os outros dois lançamentos. Mais sofisticado e sem muitos riscos além dessa escolha de produção, intrigante por si só, flerta com o new wave ao mesmo tempo que explora mais a fundo a paleta de sons que definem a banda no que tange ao que criam e ao que os inspiraram. É óbvio e batido invocar os nomes como The Fall, Joy Division e Gang of Four, até o Turn On The Bright Lights mas eles pairam sobre o ar — distantes o suficiente para não asfixiar a singularidade da instrumentação — quando as poderosas e demarcadas linhas de baixo se sobressaem a todos os outros instrumentos e os tons ficam ainda mais graves. É vagamente nostálgico, se esse é o foco do ouvinte, e tipicamente soturno, como um post-punk deve e deveria ser.

O que mais chama atenção no Ought são as letras. É nelas que eles se diferenciam da maioria dos seus contemporâneos. Os versos densos e poéticos veêm beleza na banalidade da vida humana e decoram a rotina com uma prosa rica. O Ought se maravilha com o mundano. Porém, deixam espaço para vislumbres mais complexos: são políticos em “Disgraced in America” (I was like a dentist rooting for pain / (...) Cover me in blankets, cover me in paint / I'll dance like a child again,  I'll die like a marine / (...) Here comes the saint In the red again…), subvertem gêneros em “Brief Shield” (“The shadow on the land, it creeps on patient / The ugly years of violent men, to creep on”) e questionam a própria existência entre os sintetizadores tímidos de “These 3 Things (“Will I hear my soul, will I hear my soul?”). 

As músicas feitas com e sobre o efeito de ansiedade e alienação de uma cidade grande, cinza e superpopulada, ecoando o sentimento de solidão apertado entre grandes grupos de pessoas no metrô, no ônibus, no elevador do escritório, etc. Guitarras certeiras geralmente pontuam essa angústia existencial, uma certa afetação no vocal resguardado ao passo de um som que varia entre o elétrico e opaco. É por isso que o momento onde causam arrepios são justamente aqueles sobre o monótono, nas músicas mais agridoces e contidas e logo, os pontos mais altos do álbum: “Desire”, um crescendo que termina com um tenro coro feminino e trompetes, e “Disaffection”, que resume os temas de “Room In the World” — "These city streets keep me hold up in my mind / Well here's some liberation, you can order it online / Disaffection is holy / It makes me feel alive."  Mais uma vez, é tudo que um post-punk deve e deveria ser.

Em Ritmo de Aventura - Roberto Carlos

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Of Montreal -  White Is Relic/Irrealis Mood

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