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Cocoa Sugar - Young Fathers

Cocoa Sugar - Young Fathers

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Cocoa Sugar

Young Fathers
Ninja Tune
Março / 2018
Rap, Experimental
O que achamos: Excelente
Timbre Recomenda

Young Fathers é, em teoria, um trio de rap e hip-hop com um pé no pop e ritmos africanos como um todo. Formado em Edimburgo em 2008 por Alloysious Massaquoi, Kayus Bankole e G. Hastings, lançaram duas mixtapes (Tape One, de 2011 e Tape Two, de 2013) antes de ganharem o prestigiado Mercury Prize com Dead (2014), seu debut. White Men Are Black Men Too (2015) veio em seguida, uma turnê com o Massive Attack (talvez a única banda mais ou menos similar e uma influência óbvia), músicas da trilha de T2: Trainspotting e enfim, retornam com o terceiro álbum.

Cocoa Sugar (2018) é uma jornada desses gêneros unidos a subrótulos do indie, krautrock e misturas até então inimagináveis, com os típicos momentos dançantes justapostos à uma nova introspecção e maturidade. Tentaram construir algo mais “regular e aberto” e de certa forma conseguiram. Renovados e aperfeiçoados, estão ainda melhores.

A dissonância e a incandescência sonora sempre foram a marca registrada do trio vanguardista. A fórmula base é essa: graves destacados, baixos distorcidos, percussões obsessivamente frenéticas que desafiam a inércia e os três vocais distribuídos em texturas densas. Esse movimento persiste em Cocoa Sugar tendo o diferencial de uma produção mais limpa e um eixo na voz utilizada como um instrumento a mais a lá Medúlla da Björk. Além de duetos, partes distribuídas entre os membros e acobertadas em duplicidades, ecos e camadas, e coros de maior alcance vocal.

Entre sopranos, contraltos e os tons barítonos do grupo, as letras são esparsas e repetitivas. Simples e eficazes, comunicando suas críticas à ideais tóxicos de masculinidade (“In My View”, “Holy Ghost”), o caos político e social (“Turn”, “Border Girl”, “Lord”), auto superação (“Tremolo”) e relacionamentos e sexualidade (“See How”) sem precisar de palavras. Quando são tímidos, são quase meditativos e dão um vislumbre de como é ser uma minoria em um país como a Escócia: “Strangers to ourselves / They take your money / but they hate your kind” da faixa “Picking You”.

No auge do frenesi, é impossível ficar parado (“Wire”, “Toy”). Em geral, a impressão que fica é que existe um experimento e melodia para cada verso e principalmente para cada emoção por trás dos mesmos. A catarse emocional está na junção dos diversos jeitos de invocar sentimentos e passar exatamente o que se quer dizer — tarefa rara e complicada, e por ser feito tão bem, maestral.

É correto afirmar que não existe nada no mundo parecido com o som do Young Fathers. Ouvi-los é uma experiência única. Não requer paciência mas sim atenção — e mesmo que ela se esvaeça por algum motivo, eles prendem o foco mais uma vez. A sua sonoridade é caracterizada pela imprevisibilidade e riscos. Quando se acha que os tons e notas seguem um único rumo, ou aquele que o cérebro tolamente presume ser a evolução certa, vem uma nova mudança, seja sutil ou tectônica. É como perseguir algo inalcançável, só que sem a frustração. A graça é ser surpreendido e se maravilhar.

 

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