Olá!

Somos o Timbre. Um espaço de opinião sobre música vibrando em novas frequências.

Transangelic Exodus - Ezra Furman

Transangelic Exodus - Ezra Furman

ezra furman.jpg

Transangelic Exodus

Ezra Furman
Bella Union
Fevereiro/2018
Singer/Songwriter, Rock
O Que Achamos: Excelente

Alguns álbuns são como filmes. É muito difícil de se alcançar uma sonoridade penetrante o suficiente para sentir que além dos seus ouvidos, aquelas faixas estão enviando mensagens visuais para o seu cérebro, a ponto da sua experiência ser parte Spotify, parte Netflix. Ter o nível de sensibilidade artística para tecer algo complexo nesse nível é louvável.

Isso é o que o Ezra Furman nos oferece com seu Transangelic Exodus. Esse é seu segundo álbum completamente solo, mas ele já foi acompanhado de outras duas bandas (The Harpoons e The Boy-Friends) nos seus outros 5 álbuns, totalizando uma discografia muito interessante, iniciada a mais de dez anos atrás. Com o percorrer do tempo, aos poucos, os críticos especializados foram percebendo o talento de Furman. Sua voz ampla e áspera está pronta para fascinar ouvintes em qualquer arena pelo mundo, e sua mistura de sons é amplamente diversificada. Para mim, ouvir o trabalho dele é experimentar uma mistura refrescante e contemporânea de Bruce Springsteen, Elton John e uma pitada de glam rock oitentista, mas com um charme indie pós-00 que apenas millenials entendem como engrenar. Além disso, o artista é genderfluid e bissexual, e obviamente tem uma vivência fascinante para dividir.

Nesse contexto, o álbum é absurdamente fascinante, pois é uma experiência ultra-sensorial ouvir todas essas influências encaixadas de uma maneira tão fluida. As faixas do Transangelic Exodus têm vida, têm personagens, têm um imaginário que vai além do que um álbum bom deve ir. As letras nos levam pelas cenas, e nos encontramos em um mundo onde pessoas se transformam em anjos, porque elas se sentem assim, e isso é contra as leis do local em que a “trama” se passa. O personagem principal se envolve com um desses anjos, e a partir desse momento, se torna um fugitivo da lei junto com seu amor. Ouvimos essa fuga em cada nota do álbum, essa sensação de estar encapsulado a muito tempo em um local ou condição e correr disso. Mesmo que a fuga seja quase impossível, liberta a nossa alma, nos faz voar. Exatamente como anjos.

Já por agora provavelmente já deu para entender que anjos são uma metáfora para pessoas trans/não-binárias/genderqueer. E uma metáfora linda e poética, afinal na mitologia religiosa anjos não só voam, mas também são seres puros, sem sexo biológico definido. Incrível essa sacada, não? Estabelecendo esses links, conseguimos embarcar na trajetória do disco, e logo de cara temos um par de faixas elevadas, para abrir esse hinário de composições belíssimas. “Suck The Blood From My Wound” tem um riff de guitarra e uma cadência de bateria que nos transportam às melhores músicas de Springsteen, e é tão instantânea que é parte hit, parte pilar do álbum. É o momento em que queremos dançar, gritar e aplaudir enquanto entendemos a luta dos personagens. E “Driving Down To L.A.”, que vem em seguida, é outra pérola, e é ridícula de tão catchy. O sintetizador é super cool e parece uma transmissão de rádio alienígena, em contraste com os arranjos de corda e com os vocais, que remetem a um fim de tarde em uma estrada no meio do deserto. E tudo que queremos é estar ali com o anjo e o humano, fugindo, experimentando aquele furor, aquela paixão. “Don’t tell my mom, don’t tell my dad/I’ve been driving down to L.A. with my baby”…

Uma particularidade do disco é que ele funciona mesmo sem essa análise mais profunda das letras, ficando apenas o mistério do que está sendo dito, como um filme noir cult que amamos pela estética. Mas levando em conta o todo, no final não temos uma resposta definitiva do destino dos amantes, apenas que eles continuam juntos, desafiando o regime. No percurso até o final, vemos também que a figura do anjo foi escolhida pela religião ser parte muito visceral do Ezra Furman, que tem uma raiz familiar judia. Um exemplo disso aparece na incrível “Maraschino Red Dress $8.99 at Goodwill”, uma ode à como vivenciar de forma secreta o seu eu interior quando este não está em conformidade com a sociedade, quando Ezra diz: “I don't think I'll be showing up/At synagogue at quarter past seven”.

Cravada no cerne da obra, a questão de, mais do que qualquer outro tipo de aceitação, a própria ser a mais complicada e difícil nos traz de presente “Compulsive Liar”. Eu poderia citar a letra inteirinha desse momento intensamente confessional, mas o trecho essencial é: “And I can trace the habit/ To when I was eleven/ And I thought boys were pretty/ And I couldn't tell no one”. Esse momento vem como a explicação do porquê o personagem (e o próprio artista) adquiriu o hábito de negociar com a verdade diariamente, e isso vem do seu trauma de infância, da sua não aceitação. É tão dolorido de ouvir, que mesmo quem não se relaciona sente um amargo no fundo da garganta. Essa dor é acompanhada de uma batida eletrônica e um arranjo de guitarra que estão apenas ali, guiando-a como o pulsar de um coração acostumado às mazelas da vida.

 O álbum fecha com uma música que eu acredito ser um bônus além da trama. “I Lost My Innocence” é um relato divertido e fanfarrão sobre perda da virgindade (física ou emocional). A do locutor da canção foi perdida com um rapaz chamado Vincent. E isso remete ao fato de que Transangelic Exodus não é um álbum que veio para revolucionar a música, mas de forma singela nos fazer nos apaixonar por uma realidade romantizada de uma situação real no nosso dia a dia. Um álbum de visibilidade para minorias nunca é demais, e quando ele solta pelos poros uma musicalidade tão cheia de sentimentos e propósito, é apenas para nosso próprio benefício mergulhar nessas 13 faixas.  

Ao final de “Suck The Blood From My Wound”, o anjo bate suas asas enquanto grita “a plague on both your houses!!!” a plenos pulmões. Esse para mim é o ápice do álbum, um momento em que a música cede espaço para a emoção pura, em sua forma mais crua. Um grito de desespero, um choro desconsolado, uma gargalhada obsessiva. A juventude, a descoberta de si mesmo como “fora dos padrões” são uma grande (e por muitas vezes eterna) montanha-russa, cheia de curvas e quedas repentinas. Transangelic Exodus traz tudo isso à tona, e é um registro que merece ficar guardado para sempre na sua coleção musical, próxima ao coração.

Incendeia - Caio Prado

Incendeia - Caio Prado

Cocoa Sugar - Young Fathers

Cocoa Sugar - Young Fathers