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O Menino Que Queria Ser Deus - Djonga

O Menino Que Queria Ser Deus - Djonga

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O Menino Que Queria Ser Deus

Djonga
CEIA Ent.
Março/2018
Hip-hop
O que achamos: Muito Bom
Timbre Recomenda

Se você é uma pessoa minimamente antenada, está percebendo o momento do Brasil. Nossa economia está uma tragédia, existe uma polarização venenosa entre direita e esquerda e principalmente, ser negro em 2018 no nosso país, especialmente se você for pobre e morador de comunidades carentes, é uma sentença de morte. Quem deveria proteger, ameaça, mata. Quem elegemos rouba, não cumpre, não liga. O descaso com a população negra, histórico e injusto, se mostra cada vez mais, pois felizmente cada vez mais a militância de cor está se articulando. Até quando vamos ter Claudias e Marielles? Quantas mortes mais serão necessárias? Falta o ar nos pulmões do país para gritar, para compreender e agir. Mas mesmo rouco e fanho, o grito inteiro de uma população não pode ser calado. Esse é um momento crucial na nossa história, e não podemos deixar passar em vão.

Por isso obras como O Menino Que Queria Ser Deus são tão importantes. Exemplos de superação e de sucesso vindo de um homem negro, usando sua mente para construir versos inusitados e de confronto, são mais que bem vindos. Djonga vem de Belo Horizonte, e sua família tem a cultura negra muito enraizada, o que se manifestou no rapper através do gosto pelo samba e funk, suas maiores inspirações além do hip-hop. Isso se reflete muito na sua obra. Seu imaculado álbum Heresia, lançado ano passado, é um tapa na cara em forma de versos. O álbum desafia o status quo, questiona, evidencia problemas e não exime ninguém de culpa. Não à toa, foi o melhor álbum de hip-hop brasileiro em 2017, e um dos melhores discos nacionais do período.

De forma mais rápida do que o esperado, Djonga nos traz seu segundo álbum de estúdio. Mais um apanhado de 10 faixas, O Menino Que Queria Ser Deus difere do seu antecessor por ser um álbum mais pessoal. As músicas e ideias de confronto ainda estão presentes, mas de forma a narrar episódios e momentos importantes da vida passada e do presente do artista, que formam um alicerce para um olhar do futuro do mesmo e da população negra no geral. A capa, de gosto duvidoso porém divertida, é a exaltação do negro, com Djonga pisando em um homem branco, de terno e gravata. No rosto, uma apatia de quem já vivenciou de tudo por causa da cor da sua pele. E a capa traduz muito bem o que é sua música, apesar de ser feia se comparada com a homenagem ao Clube da Esquina apresentada como estampa do trabalho anterior.

Já na primeira faixa (“Atípico”), vemos também a introdução de refrãos mais radiofônicos, cantados e com melodia. Foram mantidas as rimas impecáveis, com referências hilárias da cultura pop e do que é tendência na internet no mundo atual. “Meninas de gêmeos, me liguem”, diz Djonga, navegando na onda de astrologia da juventude. “Tão chato nas ideia/Que o racista me chama de macaco prego”, evidenciando que na mesma música, pode se misturar o humor e a crítica social. Logo após, em “Junho de 94”, a reflexão da trajetória do rapper é misturada com confronto às autoridades. “Chegar aqui de onde eu vim/É desafiar a lei da gravidade/Pobre morre ou é preso nessa idade”, e temos a ideia clara dos motivos atrás dessa faixa, onde o título do álbum é repetido várias vezes no refrão. É revigorante saber que a nossa juventude negra tem ambição e sonha alto, mas a dificuldade para alcançar esses sonhos é muito grande.

No meio do álbum, temos “1010”, uma música sobre um relacionamento com uma mulher branca, que tem no seu final uma tradução da carta de Tupac Shakur à Madonna, exemplificando todo o estigma da comunidade negra quando um homem alcança o sucesso e se envolve com alguém de pele clara. Essa faixa é mais importante do que parece à primeira vista, pois é um assunto corrente e um tabu a ser explorado, mesmo que a letra da música seja revestida de tiradas sexistas para mascarar sua seriedade. Logo após, “Solto” fala sobre a relação de Djonga com as mulheres no geral, mas mais especificamente com a mãe do seu filho. O artista se mostra um cara que “não quer se prender”, e acho essa música uma bola fora, apesar de ser boa. Ainda bem que logo em seguida a linda “Canção Pro Meu Filho” chega, e o rapper apresenta para seu filho, que ainda é um neném, como o ama e como quer fazer a diferença no mundo para que ele não sofra o mesmo que ele.

“Corra” prossegue o álbum, em uma letra baseada no terror do filme de mesmo nome, evidenciando o pensamento genocida, escravista e descartável das pessoas no poder para com os negros. “Estouro” é um ponto altíssimo, o momento mais pronto para a festa e para as rádios do disco, e conta com a participação da Carol Conká, em um lindo empoderamento da pele negra, uma celebração de uma cultura marginalizada, que definitivamente é um estouro.

Ao fim do álbum, fica a sensação de se estar em contato com uma obra muito rica, de um artista completo e que sabe muito bem seus pontos fortes. Não existe um flow como o do Djonga, ele é um artista muito único. Algo que poderia contribuir para o sucesso e não estagnação dos seus projetos futuros é dar uma mudada nos beats das faixas. Os versos do rapper são tão bons e diferenciados que a música poderia ser a capella, mas as batidas e as produções instrumentais estão começando a não casar tanto com a genialidade lírica e vocal das composições, e por isso O Menino Que Queria Ser Deus não é tão refrescante e criativo quanto o Heresia. Ainda assim, é um disco necessário para o nosso momento e uma delícia de ouvir. Viva a cultura negra!

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