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Violator - Depeche Mode

Violator - Depeche Mode

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Violator

Depeche Mode
Mute Records
Março 1990
Rock, New Wave, Synth-pop
O que achamos: Excelente

O magnum opus de todos os seus magnum opus, talvez o magnum opus do romanticismo como um todo; o mais conhecido, o mais reverenciado, a fusão perfeita entre as marcas sonoras absolutas das décadas de 80 e 90 por circular entre as duas instrumentações com segurança, a consolidação e validação de anos de trabalho, o percurso final da trajetória bandinha boba de pop condenada a cair no esquecimento-underground-mainstream-músicos de respeito e o nascimento de um clássico moderno. É o tipo de projeto que representa mudanças.

Violator completou vinte e oito anos na segunda passada (19 de março). O oitavo álbum da banda inglesa é o álbum Depeche Mode. O álbum que definiu o som da banda tanto para os membros tanto para o público — o modo como imaginamos e pensamos em Depeche Mode, nas suas temáticas e peculiaridades musicais, foi construído a partir desse lançamento. É lógico que todos os ingredientes marcantes e característicos não só já existiam como já estavam presentes nos outros lançamentos, principalmente Music for the Masses (1987), Black Celebration (1986) e Some Great Reward (1984) mas aqui, depois de uma década, eles chegam ao seu apogeu. Depois de anos a sensação de experienciar algo exótico e extraordinário enfim tornou-se praticamente tangível com Violator.

Gravado e produzido por Mark Ellis e pela própria banda (o líder Dave Gahan nos vocais, Martin Gore, Andy Fletcher e Alan Walker — até 1995 — responsáveis pelos teclados, pianos, sintetizadores, guitarras, baixos e backing vocals) no final dos anos 80, todas as letras compostas por Gore exploram o lado complexo e torturado do ser humano, explorando tópicos como religião, culpa, misantropia, fetishes, niilismo e sexualidade obsessivamente através de nove faixas. Eles falam o que não se gosta de discutir em público com elegância e destreza. São excêntricos, melancólicos e torturados e ao mesmo tempo arrebatadores, libertinos. São únicos.

É essa habilidade que transformou o Violator em um clássico instantâneo e um hit massificado em março de 1990. Não havia nada parecido.  Uma batalha de sintetizadores e efeitos eletrônicos pairando sobre linhas de baixo lúgubres e guitarras de riffs sinistros. A voz barítona de Gahan e o alcance vocal de Gore dando cobertura. Texturas e tons crescentes e decrescentes, graves e imprevisíveis, hooks melódicos e hooks vocais viciantes que se complementam. Coesivo e em perfeita harmonia nos mínimos detalhes, inclusive na ordem das faixas, arranjos pulsantes e lascivos num nível quasi teatral com uma produção impecável e eletrizante que soa atual e tão original quanto antes.

Sentimos isso desde os primeiros segundos de “World in My Eyes”, a faixa de abertura dançante, sensual e mesmo assim introspectiva. A única maneira possível apresentar esse álbum para o mundo. “Sweetest Perfection” vem logo em seguida, tão reclusa e misteriosa quanto, com a junção de violinos, baterias eletrônicas e um riff distorcido aparecendo quando  a audição acha que o minimalismo basta. A música mais popular em toda a discografia da banda, “Personal Jesus”, quebra a calmaria com o riff de blues marcado e pesado, a percussão e graves repetitivos e igualmente territoriais, cru e selvagem, usando o evangelismo barato como uma metáfora sobre paixão incontrolável. “Halo”, talvez a faixa definitiva da banda, condensa tudo no arrepiante murmúrio inicial: “You wear guilt… like shackles on your feet, like a halo in reverse” e sintetizadores latejam e florescem.  

A segunda metade do álbum começa com “Enjoy the Silence”, a segunda música mais popular da banda. Um exercício em autocontrole e produção inigualável, fixado no imaginário no momento em que se ouve o refrão tocante sobre o poder de sentimentos. Leves toques de New Order e Kraftwerk, fluído e dançante, e o uso de inteligentíssimo do fade out. Uma obra prima. “Policy of Truth” retoma o ar misterioso e noturno com um foco maior na guitarra, “Blue Dress” é o momento mais próximo de uma balada hedonista e terminamos com “Clean”, um dueto desolador entre os vocalistas (”The cleanest I’ve been / ...sometimes…”) em um final apropriado para uma obra-prima insenta de falhas.

O Depeche Mode foi transgressor ao produzir música pop que não tinha o mínimo interesse em dançar e se divertir; seu pop é barulhento, sombrio, blasfemo e barroco. Mas por algum motivo, seu status como vanguardistas nem sempre é reconhecido. Se o seu DNA tem muito de Kraftwerk, toda banda com um tecladista que veio depois deles os deve e muito. Sem eles não teríamos uma plenitude de coisas, do metal ao eletro. A influência se espalha em diversas ramificações  Marilyn Manson, Rammstein, Muse, Arcade Fire, The Killers, Linkin Park, Placebo, Nine Inch Nails, The Smashing Pumpkins, Lady Gaga, Chvrches, Royksopp, o Blackout da Britney e um cover maravilhoso do RuPaul  Se o seu DNA tem muito de Kraftwerk, toda banda com um tecladista que veio depois deles os deve e muito.

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