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Somos o Timbre. Um espaço de opinião sobre música vibrando em novas frequências.

Nossa relação com a música triste - um devaneio.

Nossa relação com a música triste - um devaneio.

Estou ouvindo essa música porque estou triste ou estou triste por que estou ouvindo essa música? 

 "Ophelia", de John Everett Millais

"Ophelia", de John Everett Millais

Era julho de 2016. Ou agosto. Acho que era outubro. Eu não sei mais, porque, na memória, aqueles meses todos se misturaram numa densa névoa escura. Em um fim de tarde daqueles eu lembro de pensar "eu vou viver assim até morrer assim". Algumas lágrimas caíam, mas ainda é choro se o rosto permanece imóvel? Eu estava voltando de ônibus para casa do estágio, eu estava querendo sumir. Precisamente nada do que estava acontecendo na minha vida me causava algum ânimo de fazer qualquer coisa, exceto, é claro, por ouvir música igual um maluco e escrever sobre o que eu estava ouvindo. Em geral, eu flutuava através dos dias. Estava lá e não estava, não queria estar. Talvez eu esteja juntando partes diferentes de dias diferentes, mas acho que, naquele tempo, todo dia era igual, então não faz diferença. Cheguei em casa, me joguei na cama ouvindo Carrie & Lowell e pensei que aquilo devia ser o mais vazio e desconectado que já me sentira.

Bem, eu me mexi aqui e ali para fazer com que essa fase passasse e, desde então, as coisas mudaram muito e eu também. Mas a névoa densa e escura permanece no fundo da minha memória e, de vez em quando, não tão no fundo assim. Especialmente quando eu ouço as músicas que estava ouvindo em julho ou agosto ou outubro de 2016, o Carrie & Lowell... Ou o Ys ou o In the Aeroplane Over the Sea ou a maioria dos álbuns e faixas lançados em 2016.

Sim, claro, eu estava na bad (o eufemismo da geração) e fui procurar música que, pelo menos, correspondesse a esse estado de espírito. Mas qual era o papel da música na minha vida emocional então? Qual é hoje? Porque, ainda hoje, eu trago à superfície a tristeza e a memória do fundo da minha mente quando eu ouço Cranes in the Sky ou qualquer coisa da Joni Mitchell? Dias bons, dias ruins, em qualquer dia eu sei que posso acessar certas vibes (que não são necessariamente bad vibes, porque não são necessariamente ruins), e isso me deixa com a pergunta: estou ouvindo essa música por que eu estou triste ou estou triste por que estou ouvindo essa música? E, seja o caso qual for, eu deveria estar ouvindo algo que me leva a esse estado emocional ou que potencializa a emoção em questão?

Eu nem sempre tenho certeza. A psicologia diz que procuramos músicas tristes quando estamos tristes, porque são obras que expressam emoções parecidas com as que estamos sentindo, e sentir essa conexão é uma percepção de que o sentimento é real, de que é possível expressar ao menos uma pontinha dele. A música nos ajuda não a espantar o sentimento, pois não é isso o que queremos, mas a entendê-lo. Eu provavelmente estaria muito aquém da minha maturidade emocional atual se não fosse a Fiona Apple me acompanhando na minha primeira desilusão amorosa, cantando que "tudo bem se uma canção termina em nota menor".

Nos momentos da minha vida em que me encontrei pra baixo assim, eu não conseguiria me conectar emocionalmente a nada além do que trouxesse à tona certos sentimentos íntimos, que provocasse a catarse necessária ao momento. E isso poderia tanto ser os sussurros de Sufjan Stevens quanto o caos industrial de Death Grips, não necessariamente triste, mas definitivamente uma confusão que muito me contempla. A melancolia pede companhia, e a música é a melhor.

Mas "até quando o Sol nasce, eu estou em apuros", diz Sharon Van Etten. Entendo que para o mood da solidão não há tempo ruim. Quantas vezes não ouvimos uma música que nos deixa tristinho, mesmo quando estamos de boas, mas sem que isso necessariamente estrague o dia?Quantas vezes, nesse verão, eu ouvi Inverno da Adriana Calcanhotto? Quantas canções que nada têm a ver com experiências nossas nos afetam como se tivessem? Eu nunca senti e nunca sentirei o doloroso lamento materno cantado por Joanna Newsom em Baby Birch. Nunca pesará em mim a culpa e a mágoa de pertencer a um país colonizador como canta PJ Harvey em England. Ainda assim, essas obras têm em mim efeitos poderosos. E talvez seja a melancolia que habita em mim sempre se fazendo presente, mas talvez seja nossa condição humana nos tornando suscetíveis a qualquer sentimento a qualquer momento. Provavelmente ambos.

Eu sou curioso o suficiente para me questionar sobre o que estou sentindo e acabar me deparando com a pergunta do ovo e da galinha. Algo em buscar algum controle sobre mim mesmo, suspeito que todos nós tenhamos um pouco disso. No fim das contas, vejo que não importa tanto saber o que veio primeiro. Ao menos, não tanto quanto simplesmente aceitar o sentimento, deixar que o fogo arda, mesmo que seja apenas para si próprio.

Sentimos e ponto. Vagar muito nesse devaneio parece não levar a lugar nenhum, mas o caminho, por mais circular que seja, pelo menos serve como um atestado à força que a música tem de se projetar sobre a vida emocional de qualquer um que a ouça com atenção. Funciona não como uma muleta, mas como uma lente através da qual é um tantinho mais fácil de enxergar a própria realidade. Mais que isso, é como um espelho que reflete essa realidade em certa medida. O último refúgio. Por outro lado, é uma forma de refletir e meditar sobre temas e situações que podemos nunca viver, da guerra ao luxo, da solidão ao sexo, passando por milhões de outras possibilidades. Um canal que ativa nossos neurônios-espelho para criar um sentimento muito forte em nossas mentes com apenas o som: empatia. Seja ouvindo música por estarmos tristes, seja estando tristes por ouvirmos música. So it goes.

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Now Only - Mount Eerie

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