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There's a Riot Going On - Yo La Tengo

There's a Riot Going On - Yo La Tengo

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There's a Riot Going On

Yo La Tengo
Matador
Março/2018
Indie Rock
O que achamos: Bom

O décimo quinto álbum do Yo La Tengo demonstra a facilidade com que o grupo, cujo centro gravitacional é o casal Ira Kaplan e Georgia Hubley, flutua pela habilidade de costurar elementos de noise rock, indie rock e pop para compor um som sutilmente incômodo, inegavelmente cativante e totalmente característico. Formada em 1984, em Nova Jersey, a banda se fortaleceu afastada do mainstream, sendo inclusive comparados ao Velvet Underground, tanto por suas experimentações que unem o estranho ao melódico, quanto pelo discreto mas representativo culto que os acompanha.

Consagrado por suas composições originais, o Yo La Tengo também é notável por seu grande repertório de covers, dos quais pode-se citar uma incrível versão de “It's All Right (The Way That You Live)” (The Velvet Underground) e o álbum de 2006, Yo La Tengo is Murdering the Classics, que conta com 30 faixas de covers de Stooges, The Who, Yoko Ono, Eurythmics (sim, “Sweet Dreams”) e outros, todos modelados com o toque particular do conjunto. Tudo isso é importante para reunir pedaços da trajetória da banda, que parece ter encontrado em cada grande referência, em cada grande banda, elementos de si mesmos, que foram pouco a pouco se juntando, para enfim compor tudo aquilo que é hoje o Yo La Tengo.

Em There’s a Riot Going On, percebe-se a maturidade de uma banda que sabe o que faz de melhor. Melodias peculiares que grudam na cabeça, letras pontualmente sarcásticas e reflexivas, misturas inusitadas de humor com niilismo, faixas curtas e dançantes que se alternam com faixas instrumentais - tudo isso e mais um pouco está presente no álbum. Por vezes com cara de música para ouvir em um dia frio logo antes de dormir, por vezes quase cansativo, There’s a Riot não é um álbum fácil, mas é um álbum leve e é, certamente, memorável.

O título do álbum remete ao influente e denso There’s a Riot Goin’ On, de 1971, do Sly and the Family Stone, considerado por muitos um dos melhores álbuns de todos os tempos. Em entrevista à Stereogum, quando questionado sobre essa referência, Ira Kaplan exibe uma das grandes qualidades do Yo La Tengo, respondendo: “Para fugir da sua pergunta o mais rápido possível, eu acho que muitas das coisas que fazemos apenas parecem certas e não se articulam. O título é obviamente tão carregado, e eu acho que ele tem isso em comum com outros dos nossos títulos, é evocativo, e espero que encoraje as pessoas a pensar no porquê de ter esse nome. E estamos sempre extremamente relutantes em falar muito especificamente sobre ele porque isso impede esse processo de acontecer”. Nesse fala, Kaplan transmite a aura de mistério existente nos projetos da banda, e a importância de que algumas coisas fiquem sem explicação. Combinada a isso, há uma grande dose de ironia, e assim, em um mundo em que tudo é instantâneo, tudo é meticulosamente desconstruído e mastigado, o Yo La Tengo resiste, deixando que cada um dê asas à imaginação, impulsionados, assim eles esperam, pela sua música.

O álbum é composto por 15 faixas, nitidamente interligadas, que totalizam pouco mais de uma hora. “You Are Here”, que abre o disco, é totalmente instrumental, misturando batuques, melodias desaceleradas de guitarra e guizos natalinos. Em seguida, há “Shades of Blue”, que une uma letra melancólica (“Staring at walls when I’m feeling down/ Staying indoors ‘cause you’re not around”) a uma mescla de folkcountry e indie rock. Há uma alternância entre faixas curtas e longas, instrumentais e com vocal presente, que se repete ao longo de todo o álbum. “She May, She Might”, que soa como uma versão Yo La Tengo de “The Murder Mystery” (The Velvet Underground), vem em seguida, com versos secos imersos em uma sobreposição de sons.

Algumas outras faixas se destacam, como “For You Too”, um clássico instantâneo, com guitarra e voz em paralelo, um acompanhando o outro, ou “Polynesia #1”, mais seca e centrada nos vocais. Também é importante falar dos momentos poderosos de faixas instrumentais ou predominantemente instrumentais, com clima de trilha sonora, como é o caso da bela “Shortwave”. “Esportes Casual”, na reta final de There’s a Riot, é um suspiro de um minuto e meio, com uma melodia divertida, entre a música de videogame antigo e a música ambiente de elevador. “You Are Here”, que fecha o álbum, traz um clima bucólico, com sons que parecem ser de pássaros ao fundo, e um violão que ecoa e se repete.  A impressão é de que a faixa transporta para um quarto empoeirado e bagunçado, mas que guarda boas memórias. Um final com uma calma melancólica e uma espécie de conforto desconfortável, sensações tão presentes e marcantes não só em There’s a Riot Going On, mas também no longo percurso percorrido pelo Yo La Tengo desde o seu início até agora.

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