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Clean - Soccer Mommy

Clean - Soccer Mommy

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Clean

Soccer Mommy
Fat Possum
Março/2018
Indie Rock
O que achamos: Muito Bom
Timbre Recomenda

Sophie Allison, uma garota de 20 anos nascida na Suíça e criada em Nashville, lança Clean, uma deliciosa e plenamente identificável aventura pelo coração de uma jovem (aparentemente) comum. O álbum, apesar do nome, é um consistente indie rock com muito pop e algum punk, além de uma pitada de metáforas que beiram o gore - mas tudo em nome do amor, da força estrondosa da paixão e da urgência de falar sobre sentimentos.

Em entrevista à Billboard, em agosto do ano passado, Allison citou alguns de seus artistas preferidos: Jeff Buckley, The Smiths, The Strokes. Em seguida, disse não pensar que seu som se parecia com o de seus ídolos, mas que havia “escutando secretamente” Taylor Swift por algum tempo quando criança, então fazia sentido que comparassem sua música com a dela. Se há algo em comum, são os temas da desilusão amorosa e da paixão, que aparecem de um modo confessional e brutalmente honesto, de forma similar ao início da carreira de Taylor Swift (eu também escutei secretamente quando era criança). Entretanto, Allison e a música do Soccer Mommy se parecem muito mais com uma mistura de Mitski, Scott Pilgrim e Juno do que com um cruzamento entre Billy Ray Cyrus e Britney Spears.

Clean é repleto de melodias simples, cuidadosamente recheadas com guitarras distorcidas e baixos sujos, dando ao álbum uma ambiguidade que paira sob a cabeça de Sophie Allison: vulnerabilidade e força, lágrimas de amor e gritos raivosos, enfim, vivências sofridas e inesquecíveis.

A tradução de todos esses sentimentos para música é, sem dúvida, memorável: vocais roucos cantam letras igualmente duras e sensíveis, amparados por uma constante sensação de banda de garagem e embalados, por vezes, por ritmos desacelerados e melancólicos. Já nos primeiros instantes da faixa de abertura, “Still Clean”, Allison canta: “In the summer/ You said you loved me like an animal/ Stayed beside me/ Just enough to keep your belly full/ Then you took me down to the water/ Got your mouth all clean/ Left me drowning/ Once you picked me out your bloody teeth”. A força das palavras honestas, no caso expressas por meio de metáforas fantasiosas, cheias de ódio e sofrimento, é uma constante em todo o álbum.

Em seguida, em “Cool”, que mistura guitarras barulhentas e indie açucarado, Allison fala sobre uma garota que ela admira, com um refrão que alterna repetidamente as frases “I wanna know like you” e “I wanna be that cool”. A garota em questão, chamada Mary, trata garotos como brinquedos e gosta de passar seus fins de semana ficando chapada com os amigos - nada mais 2018 do que isso.

Já “Flaw”, notavelmente mais melancólica, aborda dificuldades em um relacionamento, sentimentos de culpa e arrependimento. “Blossom (Wasting All My Time)” também entra nessa categoria, na qual Allison expressa sua dor em versos como “Wasting all my time wondering if you really loved me/ I was wasting all my time thinking 'bout the way you treat me/ Wasting all my time on someone who didn't know me”.

Clean é fantástico por sua simplicidade: é possível ter certeza de que suas melodias cativantes e, principalmente, suas letras poderosas, saíram diretamente da cabeça e do diário de uma jovem mais ou menos normal, certamente brilhante e indiscutivelmente sensível. Não há dúvidas de que é um trabalho cru, e talvez seja esse o grande trunfo do álbum: ele é, ao mesmo tempo, extremamente profundo e extremamente despretensioso. Poderia escrever detalhadamente sobre cada uma das faixas, como a deliciosa “Your Dog” ou a encantadora “Wildflowers”, mas deixo o que resta para quem tiver curiosidade, porque em um mundo de Taylor Swifts, é sempre bom lembrar que existem algumas Soccer Mommys por aí.

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