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Freedom - Amen Dunes

Freedom - Amen Dunes

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Freedom

Amen Dunes
Sacred Bones Records
Março/2018
Indie rock, rock alternativo
O que achamos: Muito Bom
Timbre Recomenda

“This is your time/Their time is done, it's over”. Assim começa o Freedom, quinto álbum do Amen Dunes. Um áudio retirado de um vídeo do youtube, onde uma criança recita o discurso motivacional do técnico americano de hockey antes da final contra a União Soviética nas olimpíadas de 1980. O tempo de tristeza, de sofrimento, acabou. Esse é o tempo do Damon McMahon brilhar, de se abrir, de deixar a luz entrar na sua vida, iluminando os seus problemas. A potência dessa introdução é ampliada com um áudio feminino ao final dela dizendo “I don't have any ideas myself/I have a vacant mind”, demonstrando que o artista se abriu totalmente a um novo horizonte, a novos paradigmas e que as ideias pré-concebidas dele não fazem parte deste novo trabalho, que o Freedom foi criado em uma tela totalmente em branco.

Isso é demonstrado completamente no álbum. McMahon sempre foi uma pessoa de experimentar, e seu som evoluiu bastante desde D.I.A., seu primeiro disco, que foi um experimento muito mais lo-fi e DIY. Já seu último álbum, Love, foi uma mistura de folk com drones. É interessante perceber a reinvenção sonora acontecendo mais uma vez, e chama a atenção que essa nova paleta de cores (mais claras e solares) acentua o som do músico, evidenciando mais suas qualidades e sua potência. Logo, a princípio, para quem não ouviu seus trabalhos anteriores e escuta o Freedom despretensiosamente, absorve um registro positivo e que afirma a vida de forma prazerosa.

E de certa maneira, a intenção até é essa sim. Trazer mais luz e cor às melodias foi proposital. Mas ouvindo o disco com atenção, nota-se toda a sua genialidade, e porque este não é apenas mais um “novo álbum indie”. Freedom tem uma carga emocional nas suas letras muito forte. Damon explora seu passado e seu presente, através de figuras masculinas históricas e do seu passado, como na linda “Blue Rose”, totalmente dedicada a sua relação conturbada com seu pai, e como isso definiu a ele mesmo e afetou sua trajetória. É muito presente no álbum o peso da expectativa e do que é ser homem na vida do artista, o que torna a audição do álbum uma experiência por vezes brutal.

Talvez essa análise profunda do masculino seja um contraponto ao diagnóstico de câncer terminal da mãe de McMahon. A perda do referencial feminino da vida do artista é sentida junto com todo esse peso, em uma grande reflexão sobre o papel dos gêneros, que tolhe a todos nós. Mas, pela primeira vez na discografia do Amen Dunes, tudo parece ter uma solução, justamente pela excelente produção descrita acima. É engraçado que para cada cenário descrito em cada um dos versos das músicas, uma melodia positiva aparece. As melodias acolhem a alma, como ouvir um álbum de rock clássico numa estrada deserta no fim da tarde, e o Freedom é levado por essa vibração: um álbum de solução, de redenção. A contemplação de que o negativo tem jeito e convive simultaneamente com o positivo, com a luz. Aliás, não apenas convive, como é impulsionado pelo claro, a positividade dita o ritmo de tudo.

Outra faceta marcante é a construção de cada uma das faixas. A grande maioria não tem refrão, e sim apenas versos diferentes. Mas em alguns deles, os arranjos aumentam junto com o compasso, criando refrãos apenas sonoros, o que é uma ideia genial para dar um toque mais pop a um som tão complexo. Não à toa, este é o álbum mais acessível de toda a discografia do Amen Dunes. Ainda assim, em mais um contraponto, as letras são construídas de uma maneira contrastante ao que se ouve normalmente. Cada linha é um mundo em si, formando estrofes inteiras que à primeira ouvida não se conectam. Porém as músicas no Freedom valorizam mais esse contraste, esse “não entender”, do que algo mais pronto e palatável. O sentido é criado na forma como as palavras são ditas, dando muito mais peso para a forma do que para o conteúdo.

Tudo isso nos traz alguns momentos clássicos, como a já mencionada “Blue Rose”, “Calling Paul The Suffering” e “Believe”. Além dessas, o momento máximo do álbum, em que tudo que foi descrito aqui é mais bem evidenciado é na incrível “Miki Dora”, que tem seu nome por conta de um famoso surfista dos anos 60 que cometeu uma fraude financeira, ficando marcado por isso. Essa é a música com a melodia mais gostosa, a mais memorável, e que usa um símbolo de masculinidade tão forte e frágil ao mesmo tempo, e por isso se encontra no meio do registro, como se segurasse o resto do Freedom de forma comandante, dominando toda a contradição.

Freedom é um álbum de contrastes. É um álbum humano, pulsante. Um clássico sem ser antigo. Nostálgico sem ser piegas. Abrasivo, intenso. É necessário uma entrega para compreender o porque ele é tão especial, mas o pulo é sem volta.

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