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Sex & Food - Unknown Mortal Orchestra

Sex & Food - Unknown Mortal Orchestra

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Sex & Food

Unknown Mortal Orchestra
Jagjaguwar
Abril/2018
Indie rock, Rock psicodélico
O que achamos: Bom

O quarto álbum do Unknown Mortal Orchestra, projeto do neozelandês Ruban Nielson, permanece no contínuo movimento de junção de elementos de rock clássico e música eletrônica, criando uma atmosfera de introspecção e niilismo que acaba sendo poderosamente ilustrativa dos tempos modernos. A banda, cujo núcleo é composto por Nielson e pelo baixista Jake Portrait, obteve sucesso a partir de um lançamento totalmente anônimo da faixa “Ffunny Ffrends” no Bandcamp. A partir dela, houve reconhecimento de diversos canais de música e, posteriormente, a autoria da faixa foi dada ao Unknown Mortal Orchestra. Após o lançamento do álbum de estreia, em 2010, auto-intitulado, e de II, em 2012, foi o terceiro álbum, Multi-Love (2015), que concedeu maior sucesso à banda. Multi-Love tem, como temática organizadora, um relacionamento poliamoroso vivido por Nielson, sua esposa e uma fã. O tema é vivido e revivido em várias faixas, podendo ser ilustrado por aquela que dá o nome ao álbum: “Multi-love has got me on my knee / We were one, then become three”.

Em Sex & Food, elementos das profundezas de reflexões pessoais de Nielson tornam a aparecer, quase como se não houvesse outra opção além de expressá-los pela música. As letras, muitas vezes repletas de referências bastante ousadas, alternam entre a confissão e o exageradamente ambicioso. O som, que vai do pop ao rock psicodélico, do eletrônico ao progressivo, do Tame Impala ao Pink Floyd (mais Tame Impala do que Pink Floyd, mas ainda assim), engloba barulhos de todos os tipos, beats, sopros e violões. Quase como uma conversão de imagens inconscientes a sons bem mixados e produzidos, o álbum não é um salto desde Multi-Love; pelo contrário, é consideravelmente mais difícil e certamente mais sinistro. Mas vem em boa hora: com críticas duras à contemporaneidade nas composições, o que por vezes soa confuso. O álbum reflete sensações, pensamentos e realidades compactadas em forma de músicas que ecoam e grudam na cabeça.

A primeira faixa do álbum, “A God Called Hubris”, tem, junto ao característico rock-pop-psicodélico-eletrônico do UMO, teclas setentistas, que conferem à faixa uma aura vintage, nostálgica, e que se prolonga por todo o álbum. Em “Ministry of Alienation”, o beat calmo, junto com os falsetes sussurrados de Ruban Nielson, constroem uma atmosfera de indignação com questões políticas, sociedades hipócritas e tecnologia, além de conter em sua letra referências religiosas. Os últimos momentos da faixa, uma aparente desorganização de sons, conferem um final deslumbrante, digno de filmes de catástrofes. A faixa seguinte, “Hunnybee”, inicia-se com sopros e beats oitentistas, quase como um arco-íris após uma tempestade. Quase calma demais, quase baixa demais, a música aborda ambivalências de sentimentos, fazendo uma reflexão em metáforas que, como basicamente tudo que o UMO faz, adquire uma carga considerável de mistério. O solo de guitarra, que combina com essa aura com aspecto de antiguidade, encaixa-se entre as batidas eletrônicas quadradas e o refrão, repetido várias vezes. Segundo Nielson, em entrevista à GQ, a faixa é dedicada a sua filha - cujo nome do meio inspirou o título -, e foi gravada a partir de uma jam realizada em um Airbnb na Nova Zelândia.

“Chronos Feasts on His Children”, com pouco mais de 1 minuto e meio de duração, é uma faixa que, apesar de ser instrumentalmente delicada, com o conjunto de voz e violão como principal, tem um tema obscuro. Ao invés de interpretar o conteúdo de sua letra, vale explicar o título. Chronos, deus grego mitológico do tempo, se alimentava de seus filhos, por ter medo de que eles crescessem e se tornassem mais poderosos do que ele. “Everyone Acts Crazy Nowadays” relembra bastante, em termos de qualidade de som e instrumental, o último álbum do UMO, Multi-Love (2015). O ritmo dançante e levemente melancólico se une a letras que refletem existencialmente sobre a sociedade moderna e o uso de drogas, temas perceptíveis em trechos como “I'm caught beyond the feeling I won't live far beyond this/ I'm caught beyond the feeling I won't live far beyond these years” e “Everyone acts crazy now/ But we are taking all kinds of shit”.

“Not In Love We’re Just High” tem uma atmosfera onírica, abordando melancolicamente um amor que só existe enquanto os amantes estão chapados. A última faixa, “If You’re Going To Break Yourself”, fala de saudades de uma pessoa destrutiva: “You’re an asshole you know, but I miss you”. Essa frase, inclusive, serve, por quê não, para falar da banda: com um jeito único e impressionante de fazer um novo rock psicodélico, o UMO aborda temas profundos muitas vezes com ceticismo e desdém. É inegável, porém, que a qualidade das faixas e dos álbuns da carreira dos músicos advenha de uma tristeza muito bem compreendida e de uma inteligência inusitada e criativa. Em Sex & Food, vemos um pouco de tudo isso, com confusão, melancolia, dor e raiva transformando-se em hits que provocam sentimentos opostos no ouvinte: são dançantes, fáceis de cantar, mas carregados de descontentamento, provocando o surgimento de uma pulga atrás da orelha e uma dor no peito, que também pode ser chamada de desconforto.

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