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Bark Your Head Off, Dog - Hop Along

Bark Your Head Off, Dog - Hop Along

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Bark Your Head Off, Dog

Hop Along
Saddle Creek
Abril/2018
Indie Rock, Alternativo
O que achamos: Muito bom (mas muito perto de excelente, viu?)
 

Hop Along é uma banda de indie rock que se situa entre os mais irreverentes e potentes grupos a emergirem na década de 2010. Alcançando aclamação crítica com seu excelente álbum de estreia (Get Disowned, 2012), foram mantendo o nível de autenticidade e versatilidade que caracterizou o estouro da popularidade do indie rock do início do século. Muito dessa excelência se deve à vocalista Frances Quinlan e seu talento inesgotável para a construção de canções tão complexas e reais quanto os sentimentos que elas expressam. 

Vale muito a pena visitar os trabalho anteriores do Hop Along, mas se você estiver sem tempo, Bark Your Head Off, Dog, o novo registro da banda, vai servir muito bem como porta de entrada para curiosos e qualquer bom apreciador de um rock feito com originalidade. Na obra, Frances e companhia oferecem um emaranhado de canções tão atraentes na superfície quanto profundas se olhadas mais de perto, mas comecemos pelo mais imediato.

A voz de Quinlan desempenha um papel fundamental aqui. Ela se torce e se estica, indomável e em constante ânsia por contar a próxima história. Isso permite que Quinlan traga para si diversos pontos de vista e situações e as expresse com muita poesia, tornando-nos próximos delas. "How Simple", o excelente primeiro single de Bark Your Head Off, Dod encontra a vocalista alternando entre semissussuros e berros que impedem que sequer nos ocorra que a banda esteja desperdiçando seu tempo com mensagens vazias. Tudo o que é dito é significativo, complexo e, ao mesmo tempo, simples, algo que o eu-lírico parece concluir após muitas voltas na própria cabeça. A música engata um pop rock animado com um refrão bem deliciosamente chiclete ("DoOoOoOon't worry, we will both find out, just not together!"), que engancha caso o ouvinte não esteja prestando na letra maravilhosa.

Engraçado essa ser a abertura do álbum: uma descoberta pessoal sobre a simplicidade de seus sentimentos, sobre "avançar na estrada" e dar adeus a relacionamentos que não dão mais certo: "How simple my heart can be... Frightens me". É engraçado, porque a partir da música seguinte, os temas trabalhados são bem mais amplos e filosóficos. "Somewhere a Judge", bem mais excêntrica que a anterior, é uma faixa que questiona nossa suscetibilidade às decisões de pessoas em posição de poder, invocando um curioso caso de um juiz que adiantou a execução de 8 condenados à pena de morte baseado na proximidade da data de validade de injeções letais que seriam usadas. A situação escolhida introduz o tema centra do álbum: a frequência com que nossos destinos são determinados por (homens) poderosos aleatórios.

A gloriosa "Not Abel" prossegue com o tema, mas abandona, a princípio, a sonoridade indie rock do álbum até o momento para seguir com uma atmosfera medieval devidamente acompanhada pela melodia, letra e instrumental. Quase soa como uma música de Joanna Newsom. Os questionamentos sobre a relação entre Caim e Abel e a ironia apontada pela canção de que foi Caim, e não Abel, a ouvir a voz de Deus é um dos momentos temáticos e literários mais surpreendentes que já ouvi num álbum. A canção revela uma estrutura dicotômica ao atingir sua outro, ganhando guitarras e percussões mais contemporâneas enquanto novos versos enigmáticos pintam imagens que aumentam o mistério. O tipo de emoção que só consegue ser expressada na música.

"So strange, so strange to be shaped by such strange men" é o verso que conecta "Not Abel" a outra faixa excepcional do disco, "What the Writer Meant". Com seu tempo mais acelerado e percussão mais evidente, aprofunda-se no tema central, meditando sobre como a brutalidade de um acontecimento pode significar muito para uns e nada para outros, contornando o tema dos papéis de gênero, já que geralmente são os "homens estranhos" que costuma tomar decisões que impactam diretamente na vida daqueles mais à margem da sociedade.

A forma como esses temas vão à tona em todo o disco são tão inteligente e sutis que é como um baque repentino notá-los. Bark your head acaba se tornando um desses álbuns que nos causa a vontade de ruminar cada um de seus enigmáticos versos. E com toda essa tensão temática crescendo ao longo de faixas liricamente densas, imaginaríamos que a conclusão do disco tentaria de alguma forma refletir isso ou amarrar mastigadinho pra não termos dúvidas sobre a mensagem do disco... Mas será que é necessário? Alguns sentimentos são melhor expressados sem tanta explicação.

Por esse motivo, eu digo que é GENIAL a maneira como Bark Your Head Off, Dog se dirige ao seu fim. "Prior Things" resgata a maturidade romântica da primeira faixa e maravilhosamente inclui nela um pouquinho de honestidade sobre as decisões erradas que tomamos até no auge de nossa sabedoria. "When you choose to go, I'll resume my little lower road", Quinlan canta, passando a impressão de que, seja qual for o tempo dedicado à essa relação instável, ela permanece inabalada. No entanto, o refrão segue em "Nobody needs to know that I ever meant to leave my little lower road". Hahahaha. É uma coisa engraçada, o amor, e o que ele faz com a gente. Mas é mais engraçado ainda quando percebemos que nos bastamos, com ou sem amor, e que temos a nossa própria estradazinha para seguir. Nos resta levantar os escudos contra os homens estranhos que aos montes estão por aí, sabotando a poesia de nossa modéstia.

 

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