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Transa - Caetano Veloso

Transa - Caetano Veloso

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Transa

Caetano Veloso
Phillips Records
Fevereiro/1972
MPB
O que achamos: Muito Bom

A primeira metade da década de 70 pode ser considerada um dos períodos mais criativos da música popular moderna. Com o formato de álbum já cimentado como um documento artístico ressoante, que falava mais do que apenas uma faixa sobre a obra de um artista, de 1970 a 1975 tivemos grande parte dos registros que são ovacionados até hoje por fãs de música e pelos críticos da mesma lançados. Não foi diferente no Brasil, mas por razões muito distintas. Enquanto nos EUA e Reino Unido, os músicos vivam um momento de expansão devido ao verão do amor de 68 e ao movimento hippie, transformando suas composições em filosofias e elevação espiritual, os brasileiros ouviam esses ecos distantes da liberdade na arte estrangeira, mas eram negados de criar sua própria arte moderna por conta da ditadura, que especificamente nesse período estava no seu ápice em nosso país.

Imagine como devia ser complicado para os artistas brasileiros desse período? Como bem sabemos, para tudo se deu um jeito e para passar no crivo da “inquisição” da época, as mensagens eram codificadas em metáforas, e músicas que pareciam simples a princípio era muito maiores em significado por trás. O importante era conseguir juntar as canções ao público no país sem que essas fossem barradas pelo governo. E nesse contexto, Caetano Veloso, que tinha iniciado sua carreira com o movimento Tropicália ao final dos anos 60, junto com outros nomes importantes da história da música brasileira, foi considerado pelo governo da época um incitador de causas divergentes às que estavam no poder. Com isso, em 1970, junto com Gilberto Gil, ele foi exilado, e viveu em Londres por dois anos.

Para um agitador político, nascido na Bahia, com uma grande gama de conhecimento e sucesso no seu país de origem, esse exílio forçado foi uma fonte de muita tristeza e saudade para o músico. A Londres setentista era muito distante da realidade do Brasil e Caetano perdeu contato com um pedaço grande da sua essência não só como artista, mas como ser humano, como pessoa com raízes fortes. Apesar disso, foi um período de aprendizado, em que o próprio declara que conheceu coisas novas e fez novos contatos, e que isso foi incorporado para sempre na evolução do seu som, que já era riquíssimo antes mesmo de toda a experiência inglesa. Transa, de 1972, veio quase ao final desses dois anos de exílio, e o impacto do disco e seu mérito estão totalmente conectados ao seu contexto.

Transa é um álbum forte, mas sua força se esconde por trás da sua simplicidade. O registro tem mais de 70% das suas letras em inglês, tanto um artifício contra a censura quanto uma forma de expor em um som com melodias tipicamente brasileiras o seu momento de vida. As músicas se baseiam em voz e violão, arranjos singelos e low key, e na repetição de letras, transformando cada faixa em pequenos mantras, que por debaixo são uivos de descontentamento pelo afastamento, pelo isolamento e pela situação política do Brasil da época. Ouvir o disco sem estar atento às nuances e às minúcias é perder o seu encanto, é perder sua importância artística e histórica.

E são apenas 7 faixas, mas cada uma envolvente de um jeitinho único. “You Don’t Know Me”, a abertura e melhor faixa do álbum, com sua melodia clássica e memorável, traz em seu refrão a verdade universal por trás do exílio: “You don't know me/Bet you'll never get to know me/You don't know me at all/Feel so lonely/The world is spinning round slowly/There's nothing you can show me/From behind the wall”. Em “Nine Out Of Ten”, a mistura do inglês com português como construção de identidade é incrível. “Pé dentro, pé fora/quem tiver pé pequeno vai embora”, fala Caetano em “Triste Bahia”, uma faixa de 9 minutos, toda em português, sobre a sensação de estar longe de quem se ama, e de si mesmo, à força.

Transa, apesar de não ser inovador nos arranjos, inova no tema. O álbum é a mais pura forma de arte, aquela que marca um período do tempo de uma cultura, que pode ser analisada em anos futuros para fazer a história humana mais compreensível. Esse momento de dor, alienação e confusão, muito bem explícito também no brilhante aumento da intensidade melódica ao final de “Neolithic Man” talvez não tenha sido mais bem representado em nenhuma outra arte auditiva. Fica na mente o horror da Ditadura e como, mesmo tendo sido duro, Veloso teve o privilégio de ser exilado, e não morto pelos seus captores, que o consideravam subversivo demais para o próprio bem. Então, cantemos bem alto para relembrar o passado, ainda tão presente em 2018: “laia ladaia sabatana Ave Maria!”

Consertos em Geral - Manoel Magalhães

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