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Care For Me - Saba

Care For Me - Saba

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Care For Me

Saba
Saba Pivot
Abril/2018
Rap
O que achamos: Muito Bom

O luto é uma força violenta. Consome em sua totalidade o ser que possui, infectando a percepção de tudo que o cerca. Em seu último trabalho, Care For Me, o rapper de Chicago, Saba, de 23 anos, expressa ideias sobre a sua vida e as experiências que já viveu, sobre o véu do luto pela perda do seu primo, Walt Long Jr, que foi esfaqueado saindo de um trem em Chicago, em fevereiro de 2017. Misturando influências de jazz, R&B e evocando a cena de rap de Chicago, inclusive pela participação do conterrâneo Chance The Rapper, Saba produz um álbum maduro, reflexivo e emocionalmente impactante.

Na capa do seu disco, Saba está sozinho, em uma postura depressiva em preto e branco. Está fechado em uma cozinha que parece apertada, como se fosse o engolir. Muito diferente do seu trabalho anterior, Bucket List Project, em que está solto em um espaço aberto e colorido, em movimento de exploração. No entanto, curiosamente, Bucket List Project também possuía um elo com a morte. O conceito da expressão em inglês, 'Bucket List', é de uma lista de coisas que você gostaria de fazer antes de morrer. Mas Saba nunca esteve tão próximo da figura da morte quanto em Care For Me, que constrói de forma habilidosa a narrativa de Saba encarando essa figura de frente.

"I'm so alone", diz Saba na primeira faixa do disco, "Busy/Sirens". A solidão caminha naturalmente de mãos dadas com a morte, sendo tema presente por todo o disco. Mencionada logo em seguida, está a perda do seu primo: "Jesus got killed for our sins, Walter got killed for a coat". A dor é palpável. Saba confessa que é deprimido (o que é mencionado também na faixa "Grey") desde não sabe quando, sentindo o peso da perda de Walt como a perda de parte de si ("I'm tryna' cope, but it's a part of me gone and apparently I'm alone"), e esse peso como uma punição pelos seus atos ruins, como quando ignorou as ligações dos seus amigos e dispensou mulheres que gostava por motivos torpes.

A partir de "Broken Girls", entramos em uma sequência de três faixas quase perfeita. "Broken Girls" elabora um pouco mais sobre o relacionamento de Saba com as mulheres na sua vida, ao som de acordes dedilhados em uma guitarra solitária, de postura caída. A incrível "Life" , se destaca pelo contrabaixo jazzístico suave que o anuncia, contraposto de forma muito interessante a um Saba mais agressivo, com flow acelerado e repleto de verdadeiras porradas, desde o desabafo sobre como a morte o persegue (já tendo levado seu tio e seu primo), até a pressão institucionalizada do racismo na sua comunidade, citando o sistema carcerário e a violência.

Em "Calligraphy", as influências de jazz suave passam a se aflorar mais. O piano leve e melancólico que introduz a faixa, junto aos instrumentos de sopro que ocasionalmente a visitam, constroem uma faixa que une perfeitamente a suavidade de jazz com o apelo pulsante do baixo e batida tradicionais do rap. Saba confessa que está cansado de fugir ("I got tired of runnin' way, runnin' away"), reforçando a ideia de que Care For Me é um confronto do que lhe aflige.

A mistura de influências sonoras de Saba em Care For Me, construindo uma narrativa em torno do rap, remete bastante ao trabalho de Kendrick Lamar, especialmente em faixas como "Prom/King", em que conta uma história tensa sobre sua formatura da escola. E embora seja algo que já vimos bastante, inclusive executada de forma mais aprofundada e ousada por rappers como o próprio Kendrick, há valor e prazer em ouví-la sendo interpretada por Saba, que apresenta um trabalho sensível e cuidadoso, em um confronto emocional criativo e de maturidade musical impressionante.

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