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Invasion of Privacy - Cardi B

Invasion of Privacy - Cardi B

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Invasion of Privacy

Cardi B
Atlantic
Abril, 2018
Hip-Hop
O que achamos: Excelente
Timbre Recomenda

 

Cardi B (ou Belcalis Almanzar, ou Bardi) do Bronx opera em um nível diferente de todos nós. É a história do Sonho Americano v. 2, da era milenial: de vendedora de supermercado em um relacionamento abusivo a stripper; de stripper a sensação viral; de sensação viral a integrante de elenco de reality show na VH1 a rapper, de rapper ao maior fenômeno do rap recente. Duas mixtapes precedem a música que mudou tudo tanto para ela quanto para nós (“Bodak Yellow”), “Gangsta Bitch Music Vol. 1” (2016) e  “Gangsta Bitch Music Vol. 2” onde todo o seu carisma e talento já emergiram em doses cavalares.

Mesmo assim, quando “Bodak Yellow” tornou-se a música #1 nos EUA porque as forças do universo às vezes colaboram, a subestimaram como One Hit Wonder (fato referenciado diretamente em algumas músicas, como “I Like It” e “They said by now that I'll be finished, hard to tell (I can tell) / My little 15 minutes lasting long as hell, huh?” de “I Do”) e atribuíram o seu sucesso ao acaso ou à sorte porque reconhecer talento, ainda mais em uma mulher, em um mar de rappers de Soundcloud aparentemente é muito difícil. E vieram os outros singles. Todos com a sua marca.

E eis que, Invasion of Privacy veio.

E eleva expectativas. Dá o que se espera e vai além, se aprofundando no mundo de Cardi e no que ela tem a dizer.

Porque Cardi B tem muito a dizer. Com a sua típica franqueza, sem pudor ou vergonha como um verdadeiro livro aberto e um humor único. Quando nomeia toda a sua trajetória de sucesso em “Get Up 10”, faz questão de ressaltar o seguinte: “Real bitch / only thing fake is the boobs”.  O que leva à única conclusão possível na colaboração com o Chance the Rapper, “Best Life”: “This some real-life fairy tale Binderella shit.” As suas famosas e hilárias idiossincrasias de comunicação aka OKURRRRRR, AEEEEEEEOOOOWWWWWW, SCHMONEY, SCHMOOD, etc infelizmente não fazem tantas aparições quanto necessárias mas o humor ainda existe nas letras.

A falta de rodeios e papas na língua é uma das marcas registradas da rapper. Sempre sincera, pomposa e descarada, quando alinhadas com a quantidade absurda de carisma de Cardi B, criam algo único. A sua confiança aparentemente inabalável é ainda mais notável nos seus momentos de vulnerabilidade vistos em “Be Careful” e “Thru Your Phone”. Quando mais humana, mais motivacional e inspiradora. É por isso que a bravata no hino “I Do”, com a SZA, ganha uma potência maior. É tão foda que merece um parágrafo a parte:

Leave his texts on read, leave his balls on blue / Put it on airplane mode so none of those calls come through / Here's a word to my ladies, don't you give these niggas none (give 'em none).

O flow poderoso é um instrumento por si só, que se destaca entre qualquer batida e qualquer featuring, pois o sotaque e a entoação são o que diferenciam a Cardi do resto. Isso é notável na diferença entre a sua energia e a do sonolento 21 Savage no hit “Bartier Cardi”. Cardi B é excepcional porque a sua voz é uma arma, e as rimas, munição.

A produção é coesa e alinhada, com uma ampla paleta de batidas que vão do pop (“Ring”), trap (“She Bad”, “Drip”, gangsta, baladas (“Be Careful”, “Thru Your Phone”), a vibe reggaeton na sua homenagem à sua raiz latina de “I Like It”, e na escolha perfeita de samples — notavelmente a de Lauryn Hill, a outra única rapper a conseguir o #1 na Billboard. Cardi B nos convida à imersão na sua vida e à sua privacidade de acordo com as suas próprias regras, como sempre fez nas redes sociais. Fez história e sobreviveu a expectativas e ao hype imensurável, sem marcas.

E esse é só o começo.

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