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El Rapto - Cora

El Rapto - Cora

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El Rapto

Cora
PWR records
Abril/2018
Dream Pop
O que achamos: Excelente

A banda Cora, projeto das curitibanas Kaíla Pelisser (sintetizador e voz) e Katherine Zander (guitarra e voz), lança seu álbum de estreia, El Rapto, pouco depois de lançar um EP, Não Vai Ter Cora, no ano passado. Além do duo, o álbum conta com os músicos Leonardo Gumiero que, além de produtor, toca baixo, sintetizador, beats digitais e cítara; Lui Bueno, na guitarra e voz, e Lorenzo Molossi, na bateria e drum machine. Com clima onírico, El Rapto condensa referências múltiplas, tanto em termos conceituais quanto em sonoridade, explorando não só o universo da feminilidade e a vastidão de ser mulher, mas também a complexidade da psique humana. Dream pop, shoegaze e eletrônica se misturam a tantos outros estilos e a diversos idiomas, transformando angústias do existir, mitologia e reflexões introspectivas em poesia musicada brutalmente honesta. Desde sua formação, em 2013, Cora carrega uma infinidade de significados, que se entrelaçam com a vida de suas idealizadoras e suas jornadas. Segundo a página da banda, Cora nasceu de vivências psíquicas comuns a Kaíla e Katherine, assim como de suas contradições. A guitarrista Katherine explica: “Manifestamos aspectos diferentes de um mesmo ser, Koré e Perséfone. Cora precisa desse mutualismo: hora Kaíla ‘é’ Koré e eu sou ‘Perséfone’, hora acontece o contrário. São dois comportamentos arquetípicos do mesmo ambiente psíquico. No fim da história, somos o mesmo ser”.

A densidade do discurso não se limita a ele: ela aparece com naturalidade na música, desde as letras, que abordam sem medo a tristeza e a melancolia, até o instrumental, que caminha entre o pós-rock e o dream pop, com melodias suaves que se alternam com momentos intensos e enigmáticos. O álbum gira em torno do mito grego de Perséfone, filha de Zeus e Deméter, deusa da agricultura e das estações do ano. Perséfone, após ser raptada por Hades, passou a viver no Olimpo durante o verão e a primavera, e no mundo dos mortos durante o outono e inverno, sendo lá chamada de Cora.

O disco abre com “Milonga”, uma faixa com cara de filme de suspense (uma milonga obscura, digamos), com vocais inicialmente em espanhol (“te quiero hacer una propuesta…”) e instrumental desacelerado, crescendo conforme o peso que a bateria ganha ao longo da música. Os vocais alternam entre o espanhol e o inglês, sendo que nos momentos em inglês a voz se torna mais abafada, repleta de efeitos, sendo por vezes difícil de se compreender o que é dito - algo que, inevitavelmente, contribui para uma atmosfera nebulosa, misteriosa, que marca o álbum do início ao fim. Em seguida, vem “Kόρη”, com o que talvez sejam os versos mais simbólicos do álbum, recitados por uma voz simultaneamente doce e potente: “Pela primeira vez/ Eu desejei ter menos do que dez dedos nas mãos pra roer/ E mais espaço de memória pra não esquecer/ Que eu sempre posso encontrar o amor verdadeiro refletido no espelho/ E quando chacoalham os galhos do pensamento/ A ordem do silêncio virá de dentro/ Quem eu desejo ser nessa constelação?/ É a metástase da vida em geração”.

“Tulpa” se inicia com batidas eletrônicas, que aos poucos se integram com guitarras e bateria. Essa mescla vem de experimentações da banda, que brinca com ritmos e sons diversos, criando uma atmosfera extremamente intimista e particular. “Eye Booger” traz com maestria a união de influências de pop/rock alternativo de diferentes sonoridades. A faixa lembra muito Warpaint em seu começo, os vocais agudos e sobrepostos, encaixados com notas soltas de guitarra e um ritmo quebrado, para depois trazer Chelsea Wolfe à mente. “Santa Fé” dá cor ao álbum, sendo uma faixa sutilmente mais leve, dançante, com teclas com cara de anos oitenta e letras em espanhol. Depois da densa “Ada”, que escancara as influências de shoegaze e pós-rock, o álbum termina com “Περσεφόνη”, uma faixa bastante eletrônica, cujo destaque são os vocais arrepiantes e sombrios.

Apesar das palavras complicadas, possivelmente necessárias para delinear o emaranhado de temáticas, inspirações e referências da banda, há algo poderosamente visceral no som. Ele toca nas profundezas de nosso ser, traduzindo muitas vezes angústias vividas, pensadas e sentidas. É, portanto, identificável e particular, mas é também transcendental e multifacetado. E é “nosso ser”, na medida em que são temas compartilhados, dando a impressão de partir muitas vezes de imagens inconscientes múltiplas e comuns a todos nós. As faixas ultrapassam a barreira da racionalidade e da linguagem, restando, assim, sentir na pele o impacto da dedicação notável do duo de corpo, mente e alma à música.

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