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Memórias do Fogo - El Efecto

Memórias do Fogo - El Efecto

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Memórias do Fogo

El Efecto
Sagitta Records
Março/2018
Prog Rock, MPB
O Que Achamos: Obra-Prima
Timbre Recomenda

Eu gostaria de começar essa resenha celebrando. Celebro porque é muito incrível quando temos o prazer de encher a boca sobre um novo lançamento significativo, que compete em produção, criatividade, frescor e relevância com o que temos nos EUA e Reino Unido. Seja por ter mais investimento ou por ter mais atos musicais lançando novos trabalhos, a concorrência pelos nossos ouvidos chega a ser desleal. Por isso, parabéns ao grupo por nos dar esse presentão que é o Memórias do Fogo. Nós do Timbre ficamos muito emocionados, cada um de nós, ao ouvi-lo e todo brasileiro deveria fazer o mesmo. Meu orgulho com a música nacional vem de momentos como esses, como esses pouco mais de 40 minutos, como essas 7 faixas perfeitas.

A banda carioca El Efecto, iniciada em 2002, lançou esse ano seu quinto álbum de estúdio. Já famosos de forma modesta no circuito do Rio de Janeiro, com indicações a prêmios pela sua obra e um círculo de fãs, a banda traz nesse novo disco a pavimentação da fórmula que chamou a atenção para o trabalho deles em primeiro lugar. Memórias do Fogo é uma mistura única de influências e estilos que cativam o ouvinte, com as longas, intricadas e complexas melodias do rock progressivo, criando canções cheias de mudanças melódicas e instrumentais dentro do mesmo universo contextual e dando uma abrasileirada deliciosa, com influências de arranjos vindos da MPB e do samba. É uma mistura muito gostosa, que talvez não seja nova, mas nunca ouvi feita de forma tão concreta, tão conjugada, quase como se os dois gêneros fossem parte da mesma cultura.

A primeira música do registro, “Café”, é essencial em já prender a atenção do ouvinte e fazer com que a gente entre no álbum. “COLÔÔÔÔÔÔÔÔÔÔÔNIA!!!”, grita a canção, como um brado às armas para os brasileiros. A faixa é uma descrição perfeita de onde o Brasil vem e porque é o que é até hoje. Mas além disso, é uma crítica, como em quase todas as faixas, à luta diária do povo para sobreviver enquanto a sua força de trabalho, retirada dele mesmo, é gasta pelos que tem muito em luxos, fazendo um contraponto com os trabalhadores das lavouras de café e os consumidores do produto final nos cafés de Paris. A canção é essencial em ditar o ritmo do que vem a seguir: política, história, memória e protesto.

O grande momento de Memórias do Fogo, “O Drama da Humana Manada” é colossal. É uma das faixas mais significativas que eu ouvi em alguns anos. Tem um início heavy metal que é logo interpolado com uma melodia de samba, incluindo cuíca e cavaquinho. Cada virada de som é uma delícia. A letra é mais um recorte grandioso da mais valia, dessa vez de forma mais urbana que a faixa anterior, incluindo momentos falados, quebrando ainda mais o ritmo da música, que é totalmente composta de momentos inesperados. A reflexão é do trabalhador contemporâneo, de estar alienado de seu próprio trabalho e de sua vida se resumir apenas aquelas horas do dia para dar uma vida confortável a quem possui o capital para comprar essa força de produção. Já depois desses dois tiros, é impossível não estar completamente apaixonado pelo sexteto, querendo saber ansiosamente o que vem pela frente.

E o que vem depois não decepciona. Em especial, “O Monge e o Executivo” é mais um destaque de um disco que é tão cheio de coisas positivas, que suas 3 faixas mais relevantes todas poderiam ser citadas em debates de melhores músicas brasileiras da atualidade. A faixa tem uma percussão no instrumental que remete imediatamente à música oriental, em conexão com o tema. A letra talvez seja a melhor do álbum, provocando a tendência “namastê” no mundo ocidental, ao mesmo tempo em que o ritmo de vida é completamente acelerado. Versos como “Jornadas de 14 horas ao som de mantras do Tibet” e “Ritual ocidental de apropriação da cultura, larga a bomba em Nagasaki, depois faz acupuntura” são exemplos da ironia que a faixa traz à tona.

Ao final do álbum, “Incêndios” dá tons escarlates para o álbum, um fim assim como o Apocalipse é para a Bíblia. “Desce até a origem das coisas, encara a ferida que liga a desgraça a você/Tece, com raiva e paciência, as tramas da fuga pra além dos pulmões do poder/Jura vingança ao massacre, cultiva a recusa e abraça aqueles que estão sempre a contravento em contramão” termina a música em seu verso final, criando um imaginário árduo como quando Frodo subiu o vulcão para queimar o Anel n’O Senhor dos Anéis.

O final é intenso e finda de forma hiperventilada um registro histórico para o Brasil (mesmo que nem 1% da população vá saber disso). Toda essa pintura da situação mundial e especificamente do Brasil é um alerta, um chamado para afastar a inércia, de uma forma talvez utópica, mas sempre inflamada e relevante. Ouvindo o Memórias do Fogo, as ironias da vida em um país capitalista e tão cheio de injustiças e contradições chegam em forma de música e caos para socar as carinhas dos ouvintes. Além de ser lindo e tecnicamente impecável, toca em pontos mais que essenciais em 2018. Muitos ainda fingem demência ao debater sobre as questões expostas nesse discão. Mais uma vez, obrigado El Efecto.

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