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Vessel - Frankie Cosmos

Vessel - Frankie Cosmos

Vessel

Frankie Cosmos
Março/2018
Sub Pop
Indie Pop, Indie Rock
O que achamos: Excelente

Sabe aqueles quadros que, vez ou outra, em uma visita ao museu ou em uma mesa de bar, alguém fala: “eu poderia fazer isso”? Talvez pela simplicidade, alguns acreditem que a obra poderia ser feita por qualquer um. Na verdade, não é bem assim: muitas dessas obras são pura genialidade. E a verdade? É preciso ser muito talentoso e muito criativo para pensar num conceito que, aos olhos de alguns, seja “simples demais”. Eu não entendo muito de artes plásticas, mas sei que Vessel, novo álbum da Frankie Cosmos, é exatamente assim. Ouvindo pela primeira vez, pode até parecer pouco. Faixas curtas, letras descomplicadas, rimas fáceis, guitarras secas. O vocal, concentrado em Greta Kline - mais conhecida como Frankie Cosmos - se alterna ocasionalmente entre seus companheiros de banda, David Maine (baixo) e Lauren Martin (teclado/guitarra), todos com vozes roucas e parecendo cantar despretensiosamente, como um ensaio de banda no fim de uma terça feira. Entretanto, a simplicidade é só aparente: as letras são fantasiosas e profundas; os ritmos, quebrados e incomuns. E o conjunto final é quase inacreditável: um indie pop extremamente peculiar e cativante, com uma doçura não de caramelo, mas de chocolate meio amargo, digamos assim.

Kline iniciou sua carreira com gravações caseiras no Bandcamp, usando o pseudônimo “Ingrid Superstar”. Em 2011, passou a ser Frankie Cosmos e, por algum tempo, tocou baixo na banda Porches. Três anos depois, lançou seu álbum de estreia, Zentropy (2014), e Next Thing, seu segundo álbum, foi lançado dois anos depois. No meio destes, em 2015, foi lançado o EP Fit Me. Em todas as suas composições, Kline esbanja honestidade, ironia e delicadeza, tudo ao mesmo tempo, formando uma mistura bastante característica. É como Moldy Peaches, mas melhor. As letras, umas quase como roteiros de filmes indies e outras como reflexões duras sobre a vida, são fáceis de se identificar e mais fáceis ainda de grudar na cabeça - quando você menos percebe, está cantarolando “Being alive/ Matters quite a bit/ Even when you/ Feel like shit”, refrão da linda “Being Alive”, uma das faixas mais incríveis de Vessel.

Entre risadas bonitinhas em gravações de 30 segundos, sussurros que murmuram palavras sobre um coração partido e guitarras aceleradíssimas, é difícil escolher por onde começar a falar de Vessel. A primeira faixa, “Caramelize”, segundo a própria Greta, tem uma linguagem religiosa, usada para falar de várias partes da vida da artista, e também de vários tipos de relacionamentos. Em entrevista à Pitchfork, Kine também disse: “eu sempre gostei de linguagem religiosa, e eu li a Bíblia como literatura na escola. É tão grande, mas também tão específico. Palavras espirituais são usadas várias e várias vezes, então elas se tornam maiores do que só uma palavra, e essa música tem um pouco disso.”  Já “As Often As I Can”, com pouco mais de um minuto, tem as palavras “I love you so/ I let you know/ As often as I can”, que se repetem na faixa e, segundo Kline, são em parte para seus fãs, com quem ela ama interagir durante suas apresentações. “Jesse”, o primeiro single do álbum, tem uma guitarra a mais do que o usual, e fala de dúvidas, medos, e sonhos inspiradores sobre escorpiões.

Logo em seguida, vem “Duet” que foi originalmente lançada em 2014 e, segundo Kline, adquire outros significados ao ser regravada, como “ler seu antigo diário, e se surpreender ao ver quão específico ele era”. Em “I’m Fried”, Kline fala sobre precisar cuidar de si mesma: “I just wanna know that I would walk away from wrong”. Em “Ballad of R & J”, conta-se uma história triste de amor, a partir de dois personagens fictícios, Ricky e Julie, com os vocais alternando-se entre Kline e os outros membros da banda. “Ur Up” é um pequeno presente, sendo uma espécie de erro de gravação no meio do álbum. Em “Bus Bus Train Train”, Kline fala de seu cachorro, JoJo, que ela descreve ver em um museu de taxidermia.

Em “Cafeteria”, Greta fala de suas inseguranças a respeito de si, em trechos como “Sometimes I am weird and wrong” e “I wasn’t built for this world”. “The End”, gravada um dia depois de um término, transborda melancolia, da forma como se espera nessa situação: “And you tried/ To close your eyes/ But you still saw me cry”. A última faixa, que dá nome ao álbum, é também uma das mais longas, tendo curiosamente a exata mesma duração de “Caramelize”: cada uma tem exatamente 3 minutos e 28 segundos. “Vessel” é uma mistura de pensamentos sobre fazer música, fazer arte, e também sobre quem a artista sente que é e o que não é.

As reflexões e os sentimentos de Greta Kline, traduzidas muitas vezes em impressões desajeitadas sobre si mesma, aparecem claras como água em Vessel. Falando sobre vazio, amor, incerteza e a morte de animais de estimação queridos de um jeito inusitadamente leve, as faixas trazem uma carga muito grande de emoção, tornando o álbum um daqueles nos quais é possível sentir que a artista depositou experiências muito, muito pessoais, quase sem se importar com como isso iria soar. Acaba soando muito bem, por sinal. Tão bem que, por curtos 33 minutos, é quase como se Kline falasse por cada um de nós, traduzindo tristezas compartilhadas em melodias simples e extremamente poderosas.

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