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Grid of Points - Grouper

Grid of Points - Grouper

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Grid of Points

Grouper
Kranky
Abril/2018
Experimental
O que achamos: Muito bom

A música de Liz Harris, ou Grouper, é uma mistura de sensações, sentimentos e emoções, simultaneamente íntimas e distantes, leves como o ar. Nascida na Califórnia, Harris encontrou seu nome artístico em sua infância: a comunidade onde morava era denominada "The Group", e as crianças que lá moravam, "groupers". Esse retorno ao passado parece compor a essência de sua arte, já que seus álbuns acessam memórias, partes antigas e imagens bastante pessoais. Harris tem lançado álbuns desde 2005, incluindo sendo esta sua 11ª obra.

Se a música é um jogo entre som e silêncio, em Grid of Points percebe-se o cuidado no balanço e na brincadeira com esses dois elementos. As faixas, que alternam momentos de puro silêncio com outros repletos de melodias angelicais, reverb e notas delicadas de piano, têm uma qualidade etérea em si. Apesar da lentidão do álbum, que caminha muito devagar, ele tem um quê melancólico, mas o que prevalece é a sua profundidade. Pouco a pouco, em breves 22 minutos, constrói-se um cenário instrospectivo, no qual vozes, instrumentos e efeitos formam uma coisa só, difícil de discernir.

No blog da Love Lion (selo de Emily Elhaj), há uma rara entrevista de Liz Harris, de setembro de 2017. Uma das perguntas era qual seria seu emprego dos sonhos, sem ser algo relacionado a música. Harris começa sua resposta da seguinte maneira: “Meu emprego dos sonhos é não fazer música. A maioria das minhas ideias de emprego são mais aventuras não-pagas do que carreiras. Eu fiz um teste vocacional por volta dos vinte anos e me lembro de “relacionado a espiritualidade ou líder do oculto/religioso” e “marinheira”. Eu segui o “marinheira” - eu amo estar na água.” Esses elementos combinam bastante, ironicamente, com sua música: a ideia de estar mergulhado, submerso, flutuando, como num transe. Imagino, ao ouvir Grid of Points, um grande lago, frio, no qual a solidão parece mais uma bênção do que um fardo.

As sete faixas de Grid of Points são como pedaços de um mesmo todo, e muitas vezes pouco se compreende, mas muito se sente. Sussurros e pianos formam uma base extremamente emotiva, como se fossem trechos diretamente retirados do diário de Liz Harris. Talvez isso até faça algum sentido, já que o álbum foi escrito em uma semana e meia, até que uma febre repentina interrompeu o processo. O álbum abre com “The Races”, que dura 50 segundos, contendo harmonias de voz poderosas e nada mais. Em seguida, “Parking Lot”, no qual as notas no piano são sutis, pausadas e muito bem escolhidas, enquanto o pedal é potente durante toda a faixa. “Driving” abre com as palavras “I am mature/ It is a gift that my mother gave me”, e tem uma melodia forte, que inclusive parece invadir outras faixas, como a seguinte, “Thanksgiving Song”, que inclui vozes que ecoam junto ao piano constante.

“Birthday Song” marca um segundo momento do disco, adquirindo um tom mais sombrio e obscuro. A última faixa, “Breathing”, inicia de forma similar ao resto do álbum: calma e etérea. Progressivamente, torna-se quase confusa, com uma mescla de vozes que se sobrepõem junto a outros sons - incluindo o que é possivelmente um avião decolando -, que exibem e provocam desconforto. Grid of Points soa exatamente como uma reflexão de uma noite que, por insônia ou por vontade, foi passada em claro. É como uma produção da madrugada, com um frio de início de dia de inverno, no qual os sussurros inclusive fazem parte do cenário. É como um gosto amargo que no fim, de alguma forma, fica doce. E é tudo isso que Liz Harris faz com maestria, naturalidade e sensibilidade, que se transmitem com clareza ao longo de Grid of Points.

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