Olá!

Somos o Timbre. Um espaço de opinião sobre música vibrando em novas frequências.

7 - Beach House

7 - Beach House

WhatsApp Image 2018-05-17 at 21.42.11.jpeg

7

 

Beach House
Sub Pop
Maio / 2018
Dream Pop, Shoegaze
O que achamos: Excelente
Timbre Recomenda

Objetivamente, 7, o novo álbum do Beach House, é uma grande conquista para banda, que se consolida como mestre da redescoberta de sua própria identidade. Musicalmente, é uma incrível demonstração da capacidade da banda de provocar uma imersão absoluta do ouvinte no universo de suas obras. Emocionalmente, é o triunfo da delicadeza sobre o brutal. Politicamente, é uma reação a tempos confusos, uma dança de resistência. O 7 do Beach House é muitas coisas, mas antes de ser qualquer uma, ele é lindo.

Como uma paisagem em constante transformação, mas sempre dentro da mesma paleta de cores, Victoria Legrand e Alex Scally, apoiados na produção por Sonic Boom, compõem um trabalho de muitas facetas dentro de seu prisma iluminado. É o disco mais competente da banda no que diz respeito a imergir suavemente o ouvinte na sua sonoridade séria, mágica e sempre íntima, mesmo nos momentos em que o perigo e a tensão parecem estar à espreita nessas canções.

A abertura em "Dark Spring" remete à melancolia turbulenta de lendas do shoegaze como My Bloody Valentine. Nela, Legrand contempla a grandiosidade e agressividade inerente dos astros no espaço escuro, e expressa sua vontade de se distanciar deste planeta para se deitar no meio do caos, das colisões e da escuridão. Seus vocais abafados e o instrumental à lá vacuum só reforçam isso. Surpreendentemente, a faixa é seguida pela balada lindíssima de "Pay No Mind", mais suave e terna, com letras sobre um amor que se vai dolorosamente, como um cometa que se lança a integrar a sinfonia de explosões e colisões da faixa anterior.

Os membros da banda afirmaram, ao lançar o álbum, que 7 foi fortemente influenciado pelos acontecimentos políticos de 2016 e 2017 e, mais especificamente, pela "beleza que se ergue quando se lida com a escuridão" e "o lugar que ao qual se chega quando aceitamos ao invés de negar". É daí, concluo, que vem a força descomunal apresentada em "Lemon Glow", primeiro single divulgado para a obra. A faixa é de uma tensão absurda, desafiadora por natureza, e meio debochada, eu diria, com seus sintetizadores em loop exigindo que se dê uma reboladinha. "This game I play / I do it everyday / Then promise I'll be fine / Bear it everytime", Legrand canta, e sabemos que, mesmo no breu, um brilho verde-limão permanece presente. Ninguém consegue apagar esse, e ai de quem tentar.

De certa maneira, "Black Car" funciona da mesma forma, desafiando o perigo ou ansiando por ele. A produção lembra a época Reflektor do Arcade Fire, com um minimalismo de crescente tensão. Já o refrão poderoso da música, remete imediatamente à fase Treasure do Cocteau Twins. Essa semelhança também aparece na ótima "L'inconnue", outra faixa que parece lidar com o distanciamento de si próprio. No entanto, tudo é feito à maneira única do Beach House, em que o mistério, de alguma forma, se torna muito íntimo.

Como a capa de 7 parece indicar, existe uma fragmentação identitária que governa silenciosamente o álbum. Essa fragmentação se relaciona mais a todos nós, penso eu, como sociedade passando por tempos de frequentes traumas coletivos, o que talvez seja o que move essa busca por desconexão e o porquê de, em algumas canções, estarem presentes mais de uma "voz". 

Em "Dive", Legrand representa alguma comunicação falha e marcada por hesitações. "Tell her something / Tell her nothing / Tell her that you're fading". A canção alcança o equilíbrio entre seu início espaçado e lento, com a guitarra de Scally quase que acenando ao fundo, e a sua segunda metade elétrica e explosiva. Como se começássemos na superfície de um lago de intenções e então mergulhássemos no que poderia ser a realidade da comunicação sem tropeços. Assim, "Dive" se faz a peça central de 7, dando à personalidade do disco contornos familiares e brincando com suas próprias referências.

Quando eu digo que 7 é, antes de tudo, lindo, é porque ele se constrói justamente enxergando e extraindo a beleza do caos. Da vontade de se isolar, que aqui se manifesta nos vocais mais retraídos da excelente vocalista que é Victoria Legrand e na guitarra introspectiva de Alex Scally, ao impulso de explodir como estrelas em mil pedaços cintilantes, cuja energia é mais presente nas últimas faixas do registro. A lição que se aprende é que, com um pouquinho de catarse, é possível achar o equilíbrio dentro de si em meio à bagunça. 

E assim segue Beach House, mudando muito pouco, mas na medida exatamente certa para se manter revolucionária a cada disco, na sua própria quietude.

Follow The Leader - Eric B. & Rakim

Follow The Leader - Eric B. & Rakim

Where We Were Together - Say Sue Me

Where We Were Together - Say Sue Me