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Follow The Leader - Eric B. & Rakim

Follow The Leader - Eric B. & Rakim

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Follow The Leader

Eric B. & Rakim
Uni Records
Julho/1988
Hip-hop
O que achamos: Excelente

Escrever sobre algo que se conhece muito pouco - ou, no caso, quase nada - é um grande desafio, que se mostrou empolgante de enfrentar. Ao menos em termos de escrita, é explorar, como um estrangeiro em outro país, um território gigantesco, complexo e majoritariamente desconhecido. Esse é o hip-hop para mim que, por qualquer motivo que seja, é uma parte da música na qual nunca me aprofundei. Que belo jeito de começar então, com o álbum sorteado para o clubinho desta semana, Follow The Leader. E que este parágrafo inicial sirva para alertar o leitor atento: falo deste lugar, de alguém que, sendo o mais honesta possível, não é uma ouvinte habitual do gênero.

O álbum, dos nova-iorquinos Eric B. & Rakim, foi lançado em 1988, seguindo a obra de estreia, Paid in Full, de dois anos antes.  Formado em Long Island, o duo se tornou uma das mais consagradas duplas de MC/DJ do hip-hop, com reconhecimento universal por sua grande importância para o gênero como um todo. Eric B. tocou trompete e bateria quando adolescente, mas eventualmente passou a experimentar com mesas de mixagem, tornando-se futuramente um consagrado DJ. Rakim escrevia rimas desde sua adolescência, habilidade esta que o tornou um dos grandes MCs de todos os tempos. Os dois se conheceram no porão da casa de Rakim, cujo irmão costumava emprestar discos para Eric B. Com Follow The Leader, foram aclamados pela crítica como gigantes do hip-hop, título que pertence a eles até hoje. Chamados de “formalistas do hip-hop” e “inovadores formais” por Marc Coleman (Rolling Stone), ambos são considerados, por muitos, absolutamente impecáveis, cada qual com suas habilidades e técnicas, e unidos por uma química inegável.

Follow The Leader traz uma sonoridade bastante característica dos anos 80/90 e, simultaneamente, revela a influência que a obra teve em trabalhos posteriores. Com batidas eletrônicas consistentes e forte presença de graves, o álbum contém também elementos de funk e jazz, que compõem a esfera instrumental. Quanto aos vocais, a precisão e suavidade de Rakim passam a sensação de que é algo extremamente natural para o artista. Assim, as letras, encaixadas e harmonizadas perfeitamente com o beat, compõem a outra esfera que, na realidade, é uma só, com pequenos detalhes, loops de aspecto bastante clean e uma meticulosidade notável no produto final.

A primeira faixa, que dá o nome ao álbum, é talvez uma das mais interessantes, com uma melodia de tom orquestral presente ao fundo, graves que abrem a música e marcam o ritmo, e uma série de outros elementos, incluindo as rimas. A experiência de ler os versos da faixa é absolutamente magnífica, já que não só a organização métrica é impecável, mas há uso de variados recursos linguísticos para a construção do produto final (como a aliteração em “Music mix, mellow maintains to make/ Melodies for MCs motivates the breaks”). Isso ocorre não só em “Follow The Leader”, mas ao longo de todo o álbum.

“Lyrics Of Fury”, a terceira faixa, também se destaca por suas qualidades, que incluem os versos, ainda que não se limitem a eles. Entretanto, tratando-se das letras, o comediante Chris Rock afirmou categoricamente que é “o melhor rap que alguém já fez”. “Lyrics Of Fury” contém uma série de referências a filmes como Apocalypse Now (1979), Sexta-Feira 13 (1980), A Hora do Pesadelo (1984) e O Exorcista (1973). A temática, que explora o universo do terror como recurso, aborda principalmente a habilidade de Rakim - repetindo-se “fearified freestyle” ao longo da música - para escrever rimas, algo que pode ser exemplificado no trecho “Music’s the clue, when I come you’re warned/ Apocalypse Now, when I’m done, you’re gone!/ Haven’t you ever heard of a MC murderer?/ This is the death penalty and I’m serving a/ Death wish, so come on, step to this/ Hysterical idea for a lyrical professionist”.

Em “Just a Beat”, uma batida se junta a samples de instrumentos de cordas e um vocal que repete as palavras “the beat”, tudo remixado de modo a formar uma faixa dançante e bastante agradável. O piano introdutório em “Put Your Hands Together”, com cara (estrutura e melodia também) de música erudita, dá lugar rapidamente a uma batida agitada e dançante - algo que se mostra presente em todo o álbum -, atrelada a uma letra ritmicamente precisa, que trata de fama e sucesso, dirigindo-se à plateia: “Put your hands together, clap your hands/ This is for thousands of people who came /A show/ from road to road you're entertained / I don't even have to say my name/ 'Cause when the place is ripped in half I'm to blame”.

Outras faixas de Follow The Leader também merecem destaque. “The R” traz um beat e um baixo com sonoridade funk, junto de um som de sintetizador com cara de abdução alienígena. Tudo isso em conjunto com os versos, que abordam o próprio lançamento do álbum (“You wondered how come the album was late/ I was giving you time to get the last one straight”) e seu efeito no público, sendo que o “R” do título, que se repete ao longo da música, é provavelmente o próprio Rakim. Em “Musical Massacre”, são usadas diversas metáforas que aludem à habilidade de Rakim para fazer rap, incluindo uma comparação de uma arma sendo disparada com o efeito que suas rimas têm na mente do ouvinte (“When I let off, make a wish and blow the smoke off my piece/ Unloading, unfold and the rhymes are exploding”) e o fato de que ele usa um microfone sem fio, pois o fio “pega fogo” com suas palavras (“And the mic that I’m holding’s golden/ Cordless ‘cause the wire caught fire like a fuse”).

Follow The Leader é, enfim, um belíssimo representante do gênero, levando-se em conta a época em que foi lançado e seu efeito em trabalhos posteriores. Eric B. & Rakim, em um trabalho tecnicamente impressionante, transmitem as sensações e pensamentos que surgiram ao se tornarem internacionalmente conhecidos e admirados.

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