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As forças da natureza colidindo em Mitski

As forças da natureza colidindo em Mitski

Um olhar sobre a imagética da natureza trágica em erupção na obra de Mitski.

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Reconhecer-se na natureza é um exercício tão redentor quanto revelador. Aliás, a natureza e seus fenômenos dizem muito sobre nós, nossas fraquezas, nossas tendências obscuras que preferimos esconder. A natureza cria, mas destrói. Afoga, queima, seca e envenena. Destrói, mas renasce, lá do topo de sua magnificência. Faz com que se reconhecer nela seja reconhecer tudo isso em si mesmo, a beleza e essa inescapável capacidade de se destruir.

Talvez seja por isso que Mitski, em suas poderosas canções, se enxergue tanto nas forças da natureza. Flutuando em temas e sentimentos conflitantes sobre amor, depressão, insegurança e ansiedade sobre o futuro, ela sabe uma coisa ou outra a respeito da capacidade de sabotar a si própria e costuma desenvolver tais temas em torno de imagéticas construídas a partir de fenômenos naturais, que quando não explodem em suas músicas, são de um impacto silenciosamente pesado. 

Your mother wouldn’t approve of how my mother raised me
But I do, I finally do
— "Your Best American Girl", Mitski

Mitski, 27 anos, se descreve como "meio japonesa, meio americana, mas nenhum dos dois completamente". Ela já morou no Japão, República Democrática do Congo, China, Turquia e Malásia antes de sua família se assentar nos Estados Unidos. Lá, Mitski se formou em música na State University of New York, onde compôs, gravou e lançou por conta própria seus dois primeiros álbuns, Lush (2012) e Retired from Sad, New Career in Business (2013). Com a aclamação crítica de seu terceiro álbum Bury me at Make Out Creek (2014) e seu igualmente amado Puberty 2 (2016), a jovem artista se consolidou como um dos nomes de maior potencial e autenticidade na música independente desta geração. Com seu indie rock nunca limitado pelas próprias influências, Mitski entrega música que grita para o mundo e sussurra para a alma e, ao fazê-lo, entrega a si própria com tudo o que tem.

I will be maried to silence
The gentleman won’t say a word
But you know, in the silence he holds
Runs a river that will never find home
— "Fireworks", Mitski

Para o bem ou para o mal, essa difícil assimilação de sua própria identidade permitiu que a cantora e compositora nos oferecesse sua visão do mundo de forma crua, perspicaz e definitivamente agressiva. Mesmo quando sua voz passa vulnerabilidade, percebe-se a crueza na realidade por trás dos versos. É difícil manter vivos os seus sonhos quando crescer significa se lançar a um mundo cruel, e Mitski tenta se fazer ouvir do meio da multidão, embora em suas músicas ela esteja tão desesperadamente só.

Há o fogo que consome uma floresta, brisas soprando à espreita na noite escura, uma estrela cadente proferindo suas últimas palavras, poças na grama refletindo uma paisagem distante do mar, e tudo isso colide dentro de Mitski. Na fria "Fireworks", faixa de Puberty 2, a cantora canta sobre alguém tão soterrada em sua tristeza a ponto de ter desaprendido a chorar. Um rio corre sem rumo dentro dela, mas por fora nada é dito. Funciona como um lamento pela rotina e o pouquinho que morre a cada dia quando se lida com a depressão por muito tempo.

Se o rio perdido funciona como uma alegoria para a mudez da rotina, a floresta em chamas de "A Burning Hill" é o momento em que a "anti-heroína millennial" de Puberty 2 aceita o desgaste que é se segurar aos próprios sonhos. "Estou cansada de querer mais", confessa, e então ouvimos uma grande revelação no disco "Eu sou uma floresta em chamas. E sou o fogo e sou a floresta e sou uma testemunha assistindo". Admitir isso sendo um sonhador é algo tão triste, como reconhecer que sua própria força e vida está em desgaste.

Burry Me At Make Out Creek, antecedendo Puberty 2, é um trabalho mais conciso e rebelde se comparado ao seu irmão mais novo. Todos os sentimentos nele contidos são apresentados de forma mais crua, mais exposta. Na abertura em "Texas Reznikoff", a voz está verdadeiramente apaixonada, mas inquieta por estar num lugar ao qual não pertence, descrevendo Texas como um estado interior (apesar de, na verdade, o Texas ter um litoral). A distância entre a narradora e a "água" é motivo de aflição, mas o amor que ali está é um alívio para ela. "Você é a brisa em minhas noites de Austin", ela canta.

Há também a menção ao Lago Salton, na furiosa "Drunk Walk Home". O lago salobre e degradado, conhecido como Vale da Morte, é onde Mitski anuncia que irá se aposentar "aos 23 anos". A frustração profissional e a insegurança financeira se manifestam aqui como uma morte iminente, que também se manifesta na gloriosa "My Body's Made of Crushed Little Stars" do disco seguinte, onde ela associa o fracasso profissional à sua morte ou falta de medo de morrer. O tema aparece também na conclusão de Burry Me, "Last Words of a Shooting Star", uma triste cantiga apresentando o fim do mundo do ponto de vista de alguém aliviado por, ao menos, saber que será lembrada como limpa e organizada, como se fosse a consolação reservada a uma estrela cadente que não pôde ser vista brilhando. 

I work better under a deadline
I pick an age when I’m gonna disappear
Until then I can try again
— "My Body's Made of Crushed Little Stars", Mitski

Em 2018, ficamos à espera do recém anunciado 5º álbum da cantora, Be The Cowboy, com lançamento previsto para agosto. A primeira canção lançada, "Geyser", confirma a tendência de Mitski de se reimaginar como forças da natureza se manifestando no mundo. Mitski irrompe a quietude da canção, como um gêiser de fato, proferindo sua devoção a um ideal não definido e insubstituível. A associação com um gêiser indica a força subterrânea aguardando para explodir em pressões absurdas, as emoções que, em algum ponto, não conseguimos mais conter e só queremos libertar.

As forças da natureza estão furiosas dentro de Mitski Miyawaki, queimando e afogando e isolando e expondo o que não pode ser dito nas palavras. A poesia da natureza não esconde, não codifica, mas revela o que precisa ser revelado. Gosto de pensar nesse artifício como a maneira de Mitski de compensar a si própria por aquilo que a vida nega a ela ou a qualquer um de nós, jovens desanimados.

Acho que tem uma característica importantíssima da natureza que eu deixei de fora. A natureza, em seu ciclo eterno de vida e morte, se transforma. E da mesma forma, Mitski vai se adaptando, reciclando-se sempre, mas apenas na medida certa para manter intacta o melhor de si: a honestidade emocional de seu trabalho e seu talento inconfundível.

 

Conexão EP - Amber Mark

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