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Viagem Ao Coração do Sol - Cordel do Fogo Encantado

Viagem Ao Coração do Sol - Cordel do Fogo Encantado

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Viagem Ao Coração do Sol

Cordel do Fogo Encantado
Independente
Abril/2018
Cordel, MPB
O Que Achamos: Muito Bom
 

A história do Cordel do Fogo Encantado é linda. Viagem Ao Coração do Sol, seu mais novo álbum, retrata isso em toda a sua duração. Iniciando em 1997 como uma trupe de teatral que ganhou nome rapidamente pelos seus espetáculos de poesia musicada, iniciados na cidade de Arcoverde, em Pernambuco. Em 2001, sentindo a necessidade de expressar sua arte de forma mais direcionada à música, e também devido à entrada dos percussionistas Nego Henrique e Rafa Almeida na trupe, o primeiro álbum homônimo do Cordel foi lançado. Apesar de não terem um nome massificado, o grupo alcançou status dentro da música com seus 3 discos na década passada, tornando-se sinônimo de música brasileira nordestina de qualidade, feita de forma única, devido ao seu envolvimento com o teatro e folclore regionais desde o nascimento do projeto.

Em 2010, Lirinha, um dos fundadores do Cordel, anunciou sua saída e hiato sem previsão de retorno da trupe. 8 anos se passaram, e Viagem Ao Coração do Sol é o rito de passagem desse retorno delicioso de um projeto tão importante para o Brasil. Mais uma vez, dentro de um novo contexto e roupagem, temos a chance de nos encharcar de cultura e magia na música desses pernambucanos talentosíssimos. A ideia do álbum é folclórica e mística. Nunca sabemos ao certo o que tirar totalmente das letras, mas o tema, como anunciado na pequena faixa de introdução “O Sonho Acabou”, é a liberdade. O tema é tratado de forma tão peculiar, eu não consigo pensar em um álbum com essa carinha. A sensação ao ouvir o disco é de se estar no meio do sertão, participando de uma leitura de Cordel encenada.

Isso é causado pelo uso do instrumental da região a quase todos os momentos, o que torna as percussões mágicas. Os arranjos de cordas são tão melódicos que não sei como o efeito de teatro poderia ser mais bem construído. Vem à minha mente as cordas e os batuques da fenomenal “Raiar ou o Vingador da Solidão”, uma música rica em citações folclóricas e tem repetições da palavra “raiar” como uma ordem, como se ouvir o disco te levasse à agir em busca do seu melhor, de ser livre. As letras, ora cantadas, ora faladas com um molejo específico de trupes teatrais do Nordeste, são muito bem escritas. É gostoso se deixar levar por esse mundo fantástico.

Acredito que “Liberdade, a Filha do Vento” (inegavelmente o momento ápice do álbum) é o ponto nevrálgico do trabalho. Com uma pegada mais animada, guitarras divertidas, as letras clamam pela Filha do Vento, que traz a liberdade, o amor e à livre expressão. Essa faixa é um sopro de vento nos ouvidos, parece que vem diretamente de uma tribo indígena antiga, nos trazendo seus ensinamentos. A capa do álbum também me diz muito, que dentro de um cânion profundo, uma irradiação de luz, em todos os seus espectros, é a demonstração da liberdade, quase como uma reformulação do Mito da Caverna de forma mais geológica e brasileira.

No geral, apesar de não ser nada que já não tenhamos ouvido em músicas tradicionais do sertão nordestino, a música do Cordel mistura esses sons com estruturas da MPB contemporânea, vinda dos grandes centros, dando uma identidade mais urbana ao som, o que é eficaz em trazer mais interesse de um público maior. Viagem Ao Coração do Sol é um grito delicado, que traz em sua poesia musicada uma celebração pela busca incessante do povo brasileiro de sua identidade como seres livres e multi-culturais. Um retorno muito bem vindo do grande Cordel Do Fogo Encantado.

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