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Now That I'm a River - Charles Watson

Now That I'm a River - Charles Watson

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Now That I'm a River

Charles Watson
Moshi Moshi Records
Maio / 2018
Folk Rock, Pop
O que achamos: Excelente
Timbre Recomenda

"Agora que sou um rio". Acho que é um título formidável pra uma obra quando ele nos faz procurar seu significado na obra em questão. E acho que é uma obra formidável quando os significados estão lá, escondidinhos e enfeitados, ou até abertos pra que nós projetemos nossas próprias questões neles. Por exemplo, eu penso no processo de se tornar um rio como a jornada que se percorre até aceitar a própria impermanência. Mas eu devo estar projetando: "estou quase totalmente livre", é frase que completa o título do álbum na música homônima de Charles Watson. E acho que quase quase totalmente livre é o mais livre que podemos ser, porque há sempre aquela fração de nós que não muda, e um rio, mesmo com suas transformações heráclitas, acaba tendo seu curso pra seguir.

Now That I'm a River, o álbum solo de estreia de Charles Watson (metade da dupla Slow Club), é recheado de confissões de incoerências e vulnerabilidades. No entanto, o álbum soa como uma afirmação de si próprio. "I still feel like me", ouvimos na abertura do álbum, a onírica "Voices Carry Through the Mist", e algo no baixo que vai ganhando espaço, nos órgãos que preenchem o plano de fundo, na guitarra sombria fortalecem a ideia de que há muita força em reconhecer suas próprias fraquezas. A já mencionada faixa título vem em seguida, com a voz de Charles Watson já muito mais vulnerável, apoiada pela produção encantadora, que conta com vozes de apoio num estilo gospel / musical da Disney. Lindo.

Folk rockretro popsinger-songwriter, há muitas maneiras de rotular a sonoridade da obra, mas é melhor apenas ouvi-la. Na balada "You've Got Your Way of Leaving", o ouvinte é desafiado a não se apaixonar pela doçura grave nos vocais de Watson, muito valorizada pela produção do disco, proeza assinada pelo próprio artista. Assim como as outras faixas em Now That I'm a River, ela reforça a impressão que o álbum passa de ser atemporal, como se pudesse ter sido escrito e lançado em qualquer época por alguém com o coração sensível o suficiente.

"Abandoned Buick", com uma pegada de jazz é um dos singles do álbum. É um momento de equilíbrio à tensão emocional da obra, com um certo senso de humor e uma pose cool na interpretação da música. O outro single "Everything Goes Right", fecha o álbum em um ponto altíssimo. Com uma melodia cativante e uma percussão bem marcada, a faixa cresce entre arranjos de violão e transições na melodia que fazem o coração bater forte. "I'd only be lying if I said you hadn't left your mark. You left your mark", ele canta num dos momentos mais confessionais da obra e que talvez seja um dos meus momentos favoritos na música recente, logo antes de a música atingir seu clímax com uma harmonia de instrumentos orquestrando-se magicamente para conduzir a obra ao seu fim.

Now That I'm a River é uma obra surpreendente em vários sentidos. Ela simplesmente traz de volta à vida um tipo de delicadeza e romantismo pro folk que, mesmo soando clássico, é moderno e autêntico. Acima de tudo, ela surpreende por apresentar um cantor expondo sua sensibilidade e emoções num tempo em que outros músicos parecem conseguir escapar da masculinidade tóxica apenas através de algum cinismo. Nesse sentido, eu dou boas-vindas a Charles Watson e seu jeito de ser um rio de águas cristalinas, calmas e, por vezes, frias.

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