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Lush - Snail Mail

Lush - Snail Mail

Lush

Snail Mail
Matador
Junho / 2018
Indie Rock, Pop Rock
O que achamos: Muito Bom

Por mais óbvios, perdidos e convencidos que adolescentes sejam, existe um certo mistério envolvendo essa fase da vida. Mesmo superando a adolescência, cada indivíduo só consegue, se é que consegue, desvendar seu próprio mistério. E eu acho que o que me deixa tão perplexo diante do trabalho de Snail Mail, a.k.a. Lindsay Jordan, desde o seu curioso EP Habit (2016), é a sua capacidade de ser toda essa energia, essa transparência agressiva que só olha pra frente e, além disso, ter consciência da efemeridade e inconstância das experiências adolescentes e, mesmo assim, dar toda importância do mundo a isso. Porque é importante. Ela envolve esse mistério urgente com delicadeza e um estilo de composição que é tão irônico quanto devastador. Em Lush, seu álbum de estreia, Jordan não tem medo de mostrar que é todo esse drama contido num globo de neve.

"I know myself / and I'll never love anyone else", ela canta em "Pristine", afirmando que nunca amará outra pessoa como se estivesse puxando palavras de ordem a serem entoadas num protesto. E como se estivesse colando cartazes na parede de seu quarto, Lindsay Jordan vai montando o mosaico agridoce de descobrir o amor na juventude, integrando suas partes com uma delicada atmosfera veraneia (presente também no forte azul e vermelho do material promocional de Lush). "Pristine" expressa também uma mudança em relação ao trabalho anterior no que diz respeito ao quão aberta Jordan é em relação à sua identidade gay e, consequentemente, a como ela se dirige aos objetos de suas canções. "Out of everyone / who's your type of girl?" é o tipo de verso capaz de consolidar esses traços identitários da cantora, especialmente considerando como ela o canta: com uma honestidade séria e devastadora que se mostra através de riffs de guitarra apaixonantes.

O paradoxo presente em se conhecer bem o suficiente para admitir a dificuldade em compreender a si próprio é uma das conquistas no estilo de composição de Jordan. "I'm so tired of moving on / Spending every weekend so far gone", ela canta em "Heat Wave", um dos destaques de Lush, deixando exposta fraquezas sensíveis aos jovens. A canção é uma ótima demonstração da capacidade de Snail Mail em fazer músicas simples que contam sempre com um gancho em termos de instrumentação, melodia e letra.

Simplicidade, aliás, é o que move "Let's Find An out", minha faixa favorita no disco. Apesar de bem curta e de arranjos simples, a faixa é imponente e essencial para o disco. Ela consolida a atmosfera veraneia de pôr-do-sol e coração partido do álbum, apesar de soar fria e calma. Existe algo de interessante quando grandes bandas se propõem a se despir e deixar claro que, mesmo na simplicidade, conseguem criar algo poderoso e especial, e essa faixa carrega um peso emocional muito forte, funcionando como um momento de maturidade e parcimônia, um vislumbre da realidade na desilusão. Como saber que o adeus é a escolha correta, mesmo quando queremos ficar.

No fim das contas, Lush é um grito de liberdade. Bem, guardadas as proporções para alguém de 19 anos. A liberdade, ao menos, reside no fato de Jordan saber que pode ser o que quer, e de saber até o que a impede de chegar lá. Ela sabe de suas escolhas e de suas dores e isso é a mágica da sensibilidade falando através de suas músicas. E quando ela está lá, segurando sua guitarra num uniforme de hóquei e sendo o mais lésbica que ela possivelmente poderia ser, o mundo fica sabendo também. Esse tipo de atitude vindo de prodígios redefine o que é ser um jovem artista na indústria da música e já foi mostrado por deuses do ramo, como Fiona Apple e Liz Phair, cujos trabalhos iniciais podem ser comparados com a música do Snail Mail aqui. Com apenas isso, Lush já se consagra como uma das obras mais importantes do ano.

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