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Sideral - Os Dentes

Sideral - Os Dentes

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Sideral

Os Dentes
Rock It!
Maio/2018
Rock alternativo
O que achamos: Muito bom

Com vibrações mutantescas, humor sarcástico e erotismo ríspido, Os Dentes lança seu terceiro álbum, Sideral. A banda carioca, composta por Gus Levy (guitarra e voz), Rudah Guedes (guitarra e voz), Kayan Guter (baixo e voz) e Pedro Fonte (bateria), formou-se em 2008, lançando seu primeiro trabalho, o álbum Desvendar, em 2012. Após diversas atividades, incluindo o lançamento de clipes (transmitidos inclusive na MTV Brasil), foi lançado o segundo disco, Todo Mundo Morre, em 2015. Três anos depois, nasce Sideral, uma divertidíssima reflexão sobre uma cultura jovem, educada e intelectual, com direito a auto-críticas recheadas de ironia, além de um belíssimo trabalho instrumental que dá liga à obra dos músicos.

O álbum abre com a faixa que nomeia o álbum, com uma intro de violão e vozes em coro. Ela soa como uma abertura de minissérie, sendo possível visualizar um sol nascente, pessoas felizes e uma linda paisagem campestre. A letra, curta, expressa uma mensagem de coletividade, sendo feita na primeira pessoa do plural. A aposta é de que ela é uma caricatura de um temperamento meio “mais-amor-por-favor”, já que a segunda faixa, a maravilhosa “Família Errejota”, é repleta de sarcasmo. Com uma alternância entre a calmaria do pop e a bagunça do rock, o vocalista entoa, de modo propositalmente cansado, críticas a “todo mundo”, que é muito provavelmente não todo mundo, mas um grupo seleto de pessoas: “Todo mundo tem algum amigo meio famoso/ Todo mundo morre/ Todo mundo estava nervoso/ Nessa quarta-feira vai ter festa merda na praça/ Vai ter purpurina e liberdade meio de farsa/ E nessa quinta-feira vai ter banda merda de graça/ E todo mundo gosta porque é amigo de alguém”.

“Lama no Céu do Caos” tem um embalo lisérgico, com ritmo, melodia e instrumental bastante psicodélicos - o que inclusive traz bandas como Bike e Boogarins à mente. A voz, mais adocicada, canta palavras que fazem jus a essa descrição: “Delírio, estratosfera/ Espaço sideral/ Matéria para exumar/ Escorre lama no céu do caos/ Renascer”. Em seus últimos momentos, ela acelera, com a bateria ganhando notavelmente mais peso, mas a voz, que continua suave, mistura palavras que se referem aos seres humanos a um vocabulário tecnológico (“vírus da humanidade”, “sonho reprogramado”). A faixa seguinte, “Profano e Saboroso”, também segue essa linha de som, com um início encantador, meio torto, talvez propositalmente incômodo, e com uma construção lírica bastante interessante: com palavras que remetem à sexualidade e ao erotismo, são feitas críticas ao mercado financeiro e aos bancos, que são tratados como vilões terríveis de uma narrativa quase mitológica.

“Birds and Flowers” é uma balada de amor, em inglês, mas um amor leve, divertido e despretensioso. Cantada em falsete, a letra deixa a critério do ouvinte encontrar ou não uma ironia - já que, assim como a faixa de abertura, ela parece quase feliz demais para um disco recheado de deboche. Logo em seguida, vem a oitava faixa, “Nuggets”, que é, começando pela nome, uma crítica a um certo grupo de jovens (burgueses, intelectuais e cults). A vontade é colocar a letra inteira, mas deixo só um trecho, dos tantos que valem a pena: “Mamãe não gosta de me ver fumar/ Mas fumo quando ela vai viajar/ E na despensa deixa refeição/ Macarrão, salsicha, Cheetos, cheddar e nuggets”.

“Malditos Répteis” traz uma belo instrumental, um rock pervertido e revertido (com direito a lembranças de rock clássico, metal e rock psicodélico), com notas de guitarra que inicialmente acompanham a melodia da voz, mas aceleram progressivamente com a bateria, crescendo até acabar num estouro. Interessante é observar que esta faixa está localizada entre duas outras que são mais doces e tranquilas: antes dela, vem “Pensando Uh Uh Uh”, e após, “Keep The Fire On”, que, apesar de instrumentalmente calmas, trazem reflexões difíceis (por exemplo, a repetição das palavras “‘cause there’s no harmony/ into the darkness” em “Keep The Fire On”).

As três faixas finais, a psicodélica “Namastê Cigarrin” (“Namastê cigarrin/ Publicidade/ Ritalina/ Gratidão/ Coração de galinha/ Nova Iorque”), a ácida “Iluminolirus”, e a transcendental “Girando em Espiral (Perfeita Ordem Confusa e Caótica)”, entregam os recados finais de uma banda que tem muito o que declarar. Críticas e auto-críticas dirigidas aos jovens ricos do Rio de Janeiro, do Brasil (e do mundo?) são encaixadas em meio a reflexões, sentimentos, dúvidas e incertezas pessoais. São músicas feitas para e contra um público que prega despretensão de nariz empinado. São faixas que embalam, que ardem e amaciam, para rir dos outros e de si mesmo. Tudo isso misturado faz com que Sideral seja um álbum impressionantemente peculiar do gênero, uma espécie de rock alternativo com um “algo a mais”, que pode ser traduzido como um incômodo honesto e bem-humorado.

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