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Ys - Joanna Newsom

Ys - Joanna Newsom

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Ys

Joanna Newsom
Drag City
Novembro/2006
Chamber Folk
O que achamos: Excelente

2006 foi um ano tão bom, gente. Foi o ano que eu descobri tanta música além do rádio e da MTV. Foi o ano que eu descobri sites maravilhosos, descobri os 1001 Discos Para Ouvir Antes de Morrer, foi o ano que eu comecei a me interessar em ler sobre e me expressar criticamente quando o assunto é música. Na minha memória, um dos primeiros momentos que marcaram essa fase foi ouvir Joanna Newsom. Eu estava na casa dos meus avós, perto do ano novo, e lembro do meu avô comparar a voz dela com alguma cantora dos anos 50 que ele gostava. Isso me marcou também, porque era um momento onde tudo era tão novo, e entender através desse álbum que a música atual estava intimamente conectada com as obras de outros tempos foi muito formativo para mim. 

Eu não posso dizer que sou o maior fã de Joanna Newsom, mas é inegável o poder da sua arte. E eu acredito que foi nesse segundo álbum que o público conseguiu entender isso de vez. The Milk-Eyed Mender, em 2004, é uma introdução ao talento dessa mulher, e no Ys, dois anos depois, eu sinto que tudo se condensou perfeitamente no sentido de trazer à tona o que Newsom tem de mais único para oferecer. A voz aguda e rouca e instrumental (tocar harpa no século XXI não é para qualquer um) são um convite envolvente para relaxar e escapar um pouco da realidade, de forma vespertina e invernosa. A música da Joanna em Yscombina com a natureza, com o retorno à simplicidade de uma era pré tecnologia, justamente por ser o veículo onde a mitologia criada nas letras literárias do álbum consegue expressar filosoficamente noções sobre os seres humanos e sobre a própria artista.

Ys vem com 5 faixas de longa duração, com identidade medieval e renascentista (não à toa a capa do álbum lembra uma tapeçaria da época). Não podemos ignorar que é uma obra complexa e pouco acessível. Requer atenção, um bom conhecimento de inglês e um dicionário próximo para nenhum detalhe se perder, e o exercício de foco para não deixar as longas melodias saírem da nossa mente. Dito isso, que maravilha é mergulhar nesse disco. Com seu vocal singular, Newsom nos leva à um mundo a laTolkien, rico em detalhes e referências ambientais para nos localizar precisamente no ponto de vista que a cantora quer, sem nos dar imediatamente respostas ou interpretações óbvias. É difícil pensar em alguém com melhor poder de escrita na música contemporânea que a Joanna.

“Emily” abre o álbum, e a baixa frequência vocal empregada pela Joanna para começar é tão potente que é lindo de ouvir, justamente por ser uma surpresa para o ouvinte ter uma voz distinta como a dela começando baixa e manhosamente te levar com ela. São 12 minutos de uma saga ambientada em um lugar fantástico, que no seu refrão sobre meteoros fala sobre a percepção humana do que acontece ao nosso redor e sobre como podemos colocar nos envolvidos nos acontecimentos culpas ou incumbências que não cabem analiticamente. “Monkey and Bear” é uma canção envolvente sobre preconceito do ponto de vista de quem sofre, e como sobreviver numa sociedade que não te quer como igual. A harpa em “Sawdust and Diamonds” é o momento instrumental mais intenso de um trabalho que se estende por quase uma hora numa linda ciranda de cores antigas e temas atuais.

Ao final, Ys é como uma Bíblia. Você pode se envolver nas histórias, mas cada uma delas é como uma fábula e tem uma moral, ou uma metáfora para o autoconhecimento como um humano. É um álbum único, atemporal mesmo claramente tendo uma alma velha, poético, essencial para qualquer coleção de música que se preze. Um clássico que respira e tem vida própria, e que cumpre seu papel humano de arte com perfeição e de forma jamais feita antes de sua existência.

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