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Lost & Found - Jorja Smith

Lost & Found - Jorja Smith

Lost & Found

Jorja Smith
Famm Limited
Junho / 2018
R&B, Soul
O que achamos: Muito bom

O R&B tem tanta história que é complicado encontrar um ângulo para falar dele hoje em dia que não seja raso demais e, mais importante, pretensioso demais ao tentar dar conta de sua magnitude. É uma história de cantoras e cantores que descobriram maneiras de traduzir sentimentos gigantes através de suas vozes poderosas e emotivas, artistas por quem nós todos aprendemos a nos apaixonar. Nos últimos anos, o R&B vem ganhando um novo fôlego com uma leva de jovens artistas talentosos que vêm ocupando seu espaço na cena do gênero e lançando trabalhos marcantes, como Amber Mark, Ravyn Lenae e Steve Lacy. O que mais marca essa nova geração de talentos no R&B é o fato de que eles têm décadas de referência e história a reverenciar e nas quais se inspirar e, ainda assim, conseguem adicionar sua juventude e inovação à música, sendo a marca e o reflexo de seu próprio tempo.

Se alguém nessa "nova onda" de artistas do R&B consegue representá-la muito bem, é a Jorja Smith, cantora inglesa de apenas 21 anos que acaba de lançar o ótimo Lost & Found, primeiro álbum cheio de sua carreira. Emergida da cena independente de artistas do soundcloud, o trabalho de estreia de Jorja é mais que uma compilação das canções que a levaram até o presente momento, é um trabalho de identidade definida, novidades, um carisma impressionante e belos vocais, que nos fazem querer encostar para trás e relaxar, apreciando a obra.

Lost & Found é um álbum romântico, mas, como estamos em 2018 e a juventude se preocupa cada vez mais com sua consciência emocional, Jorja não dedica tanto tempo a dilemas simples quanto o faz a investigações catárticas sobre seus sentimentos. "So tell me how am I ever gonna find love in you / If I do not even know what I want from you?", ela canta na abertura e faixa título do disco, escolhendo um tema pouco explorado por canções de amor ao se questionar sobre suas próprias expectativas do outro: "I'm in love with the thought of you", ela encerra a faixa num falsete lindo de morrer pra combinar com toda essa maturidade emocional.

Em "Where did I go?", Jorja abusa do seu lado relaxado numa faixa que puxa pro sophistipop de artistas como Sade e Rhye. É uma música de composição impressionante, com a cantora fazendo perguntas sobre o caminho que ela percorreu em um relacionamento cujo fim ela não avistou chegando. A excelente "February 3rd" é um dos momentos "chill but kinda sad" do disco, com um refrão doce e lindamente chiclete, "why don't you lose yourself to me?", conversando com o título do álbum e seu tema sobre como as pessoas podem ir se perdendo e se encontrando (por conta própria ou por alguém, quem sabe?).

No que tange a sonoridade, o disco é bastante diversificado dentro do arcabouço do R&B e Soul. Smith e sua equipe produtiva experimentam batidas mais tradicionais, apoiando os belos vocais de Jorja, que nunca são exagerados, e sons mais alternativos, seguindo pra linha do já mencionado sophistipop e um lo-fi hip hop ("Lost & Found", "February 3rd"). Tudo é feito de maneira que os vocais se destaquem, assim como a interpretação das músicas da cantora. Em "Blue Lights", um grande destaque em Lost & Found, ela arrisca um rap de versos acelerados que cai muito bem no disco. É, com certeza, a faixa mais intensa da obra, com a tensão pesando sobre toda a faixa, que trata da culpa que podemos sentir, mesmo quando não fizemos nada de errado: "You better not run 'cause the sirens not coming for you / What have you done?". A faixa completa a composição vasta pretendida por Jorja no disco e exibe toda sua versatilidade e alcance, como se isso já não estivesse claro.

Lost & Found é um dos trabalhos mais marcantes do ano, apresentando uma cantora na qual eu aposto para trazer belas novidades nos anos que estão por vir. Com esse trabalho, Jorja Smith traça referências a todo mundo, de Erykah Badu à Lauryn Hill, Corinne Bailey Rae e até Fiona Apple (não tem como olhar para essa capa e não lembrar de Tidal). Acima de tudo isso, é uma obra onde uma artista tão jovem consegue se mostrar para o mundo como uma gigante com um potencial inestimável. É o triunfo do sentimento, da sensibilidade e da busca por algum autoconhecimento. É o tipo de coisa que me deixa muito feliz com a música.

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