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A Laughing Death in Meatspace - Tropical Fuck Storm

A Laughing Death in Meatspace - Tropical Fuck Storm

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A Laughing Death in Meatspace

Tropical Fuck Storm
Mistletone/ TFS Records
Maio/2018
Rock psicodélico, Noise Rock
O que achamos: Excelente

A união dos australianos Gareth Liddiard (The Drones), Fiona Kitschin (The Drones), Lauren Hammel (High Tension) e Erica Dunn (Harmony/ MOD CON/ Palm Springs) resultou em um dos mais impressionantes projetos do rock alternativo atual: a banda Tropical Fuck Storm, que, em seu álbum de estreia, escancara sua sonoridade absolutamente única. Uma espécie de imersão em uma confusão punk com (um pouco mais do que) pitadas de psicodelia, A Laughing Death in Meatspace é repleto de críticas duras, sarcasmo e dadaísmo. E é claro, é também cheio de barulhos espaciais, percussões pesadas e backing vocals angelicais.

A estreia nos palcos da banda foi em uma turnê em setembro do ano passado, nos Estados Unidos, junto a Band of Horses e King Gizzard and The Lizard Wizard. Em entrevista à Noisey, Erica Dunn relata que foi chamada para entrar na banda por Gareth, que disse a ela, por telefone, algo como “nós só vamos fazer umas merdas estranhas”. Essa junção entre personalidades bastante fortes e uma aura de despretensão dão o colorido (sem tons pastéis) que une os membros da banda, formando um conjunto onde tudo parece se alinhar de maneira assombrosamente natural.

Por mais brega que isso possa soar, é simplesmente preciso atestar que não se encontra músicos com tanta atitude e tanto estilo hoje em dia como estes australianos. Ainda na entrevista para a Noisey, Dunn e Liddiard relembraram a vez em que foram expulsos de um strip club, em meio a palavrões que são ditos sem absolutamente nenhuma censura. Além disso, ao serem questionados sobre o que pensavam enquanto faziam o álbum, Gareth respondeu: “nós estávamos pensando sobre o que não iríamos fazer”. E é esse jeito blasé-punk de ser que contamina as faixas de A Laughing Death, assim como as apresentações da banda ao vivo e seus sinistros clipes.

O álbum abre com “You Let My Tyres Down”, com guitarras tortas e características, o vocal fatigado-raivoso de Liddiard e uma letra potente, que aborda uma Austrália decadente vista de um olhar bastante decepcionado. Em seguida, há a maravilhosa “Antimatter Animals”, que traz uma bagunça organizada, um aparente caos, que de alguma maneira se ordena perfeitamente, algo que é inclusive marcante em todo o álbum. Essa característica é o que simultaneamente aproxima a banda à gigantes como Pixies e Nick Cave e dá um tom extremamente particular à sonoridade do TFS. A faixa traz um clima macabro, com reflexões que alternam entre o melancólico e o colérico: “Everywhere and nowhere like a needle in a haystack/ Everywhere and nowhere like an aeon or a curse/ If you wanna be remembered/ You’re only making everything much worse”.

“The Future Of History”, quarta faixa do álbum, começa soando bastante como The Kills, com uma bateria seca e backing vocals que repetem em tom robótico a frase “walking in the valley of death”. Entretanto, o que é realmente sedutor na música é a sua temática: a letra narra, de modo estranhamente épico, as partidas de xadrez disputadas entre Garry Kasparov e o computador Deep Blue, nos anos de 1996 e 1997.  Já “Soft Power”, uma crítica política elegantemente ácida à sociedade contemporânea - e bastante direcionada aos Estados Unidos -, traz referências ao que certamente é Donald Trump (“here comes the Oompa Loompa with the nukes”), além de Elon Musk (“the plan’s we’re either going to Mars or war”) e Mágico de Oz (“Scarecrow I’m gonna miss you most”).

“Shellfish Toxin”, um sopro de ar (deliciosamente sujo) antes do fim do álbum, é uma faixa instrumental, que inclui sons macabros de sintetizador, barulhos de gaivotas, notas soltas de guitarra e sussurros sobrenaturais. Em seguida, vem a faixa-título, uma narrativa desacelerada e mais calma em comparação às outras, que envolve autorreflexão, questionamentos existenciais e uma conversa sombria (com algum interlocutor). Encerrando o álbum, “Rubber Bullies” é animada, com um riff contagiante e uma letra que segue o tema do álbum: uma dura desaprovação repleta de niilismo à modernidade.

Essa temática, aliás, é o que costura A Laughing Death, misturando-se a outros temas, inclusive dilemas e questionamentos pessoais, e dando um ritmo próprio ao álbum. E é dessa forma, com um som incômodo e difícil, elegante e poluído, que os músicos do TFS conceberam um álbum de estreia terrivelmente entusiasmante, fazendo com que esperemos ansiosamente por seus próximos passos, já que nove faixas parecem muito, muito pouco perto do que os aguarda pela frente.

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Tracyanne & Danny - Tracyanne & Danny

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