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Consolation E.P. - Protomartyr

Consolation E.P. - Protomartyr

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Consolation E.P.

Protomartyr
Domino Records
Junho/2018
Pós-punk, Rock alternativo
O que achamos: Muito bom

 

Formada em Detroit (EUA), no ano de 2010, a banda Protomartyr, composta por Joe Casey, Greg Ahee, Alex Leonard e Scott Davidson, mistura noise rock, pós-punk e influências como Nick Cave e Joy Division para fazer um som deliciosamente peculiar. Josh Terry, da Consequence of Sound, em artigo escrito em 2014, descreve a banda como uma mistura da “sonoridade temperamental e atmosférica do pós-punk do Reino Unido dos anos 1970 com a sensibilidade crua do garage rock de seus antepassados de Detroit”. Com quatro álbuns já lançados - sendo o primeiro, No Passion All Technique, de 2012 -, o quarteto constrói uma trajetória interessante, misturando poesia beat, críticas ácidas e rock alternativo. Este último lançamento, Consolation E.P., é como uma amostra da qualidade dos músicos e de suas personalidades marcantes; composto por quatro faixas, conta com a participação de Kelley Deal (The Breeders) e Mike Montgomery (Ampline), além dos músicos Jocelyn Hatch, Evan Ziporyn e Lori Goldston, tocando instrumentos inusitados para o gênero - respectivamente, viola, clarinete e cello.

A primeira faixa, “Wait”, abre o EP de modo sombrio, com uma agressividade quase refinada. O instrumental, que lembra - e muito - Tropical Fuck Storm, é atravessado por chiados, riffs e versos sarcásticos e fortes, que oscilam entre o cantado e o falado: “Ironic t-shirts wet with blood/ An argument over aesthetics/ That would be my guess”. Em seguida, vem “Same Face in a Different Mirror”. O vocal, que parece ter saído diretamente de uma Londres de 1977, combina-se a outros elementos, como uma percussão interessantíssima, quebrada, e uma guitarra puxada para a psicodelia da cena alternativa do rock atual.

A terceira faixa, “Wheel Of Fortune”, abre com riffs que trazem uma estranha mistura de noise, rock clássico e indie. Com uma qualidade macabra - o que faz com que se pense em punk, sim, mas em Dead Kennedys, não Ramones -, a faixa tem uma sutil e marcante participação de Kelley Deal (guitarrista do The Breeders e irmã gêmea de Kim Deal). “Wheel Of Fortune”, quanto à sua temática, desenvolve-se como uma crítica densa à contemporaneidade, incluindo palavras ácidas para falar do porte de armas de fogo e da segurança pública, equilibrando-se em curtos versos, igualmente poéticos e desconcertantes: “A man with a gun and a deluded sense of purpose/ A good guy with a gun who missed/ A police state desperate to reach quota/ The insurance company's ad budget went over/ I decide who lives and who dies”. A faixa, de duração de pouco mais de cinco minutos, constrói um cenário de desordem, ruína e caos, enquanto a frase “I decide who lives and who dies” se repete ao fim de cada estrofe.

A faixa final, “You Always Win”, que conta também com a participação de Kelley Deal, é, como as outras três, poderosa, sombria e maravilhosamente bem escrita. Dirigindo-se a um interlocutor que “sempre ganha”, a temática é particularmente imprecisa, mas percorre um caminho de perda de vontade e perda de controle sobre si mesmo. A mistura dos instrumentos forma um cenário que é simultaneamente orquestral e caótico. É essa sensação confusa, um tornado de independência e sincronia, que remete ao Pixies, antes mesmo de ler o nome de Kelley Deal como colaboradora. Consolation E.P. é portanto, apesar de curto, inegavelmente denso e crítico. Sem poupar palavras, sejam elas rudes ou ásperas, o vocal obscuro e grave de Joe Casey se une perfeitamente ao instrumental aparentemente desordenado, mas que se mostra em sintonia perfeita conforme as faixas avançam. É punk, mas é também melancólico. Uma rápida e agradável surpresa, que transborda emoções e causa um reflexivo desconforto.

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