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Coração Louco - Laure Briard

Coração Louco - Laure Briard

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Coração Louco

Laure Briard
Midnight Special Records
Junho/ 2018
Experimental, Indie
O que achamos: Muito bom

Coração Louco, de Laure Briard, é uma linda e particular viagem de uma estrangeira pelo Brasil. Primeiro em contato com a bossa nova, a musicista francesa foi pouco a pouco conhecendo e se encantando pela música brasileira, indo de Tom Jobim a Giovani Cidreira. O EP, que conta com seis faixas, existe graças a um encontro, em 2017, em um festival de música - South by Southwest - de Laure Briard com o Boogarins, banda de rock psicodélico e experimental de Goiânia. Desse encontro, foi possível concretizar esse intercâmbio de idiomas, ritmos e melodias, que soa como resultado de muita sensibilidade e muito amor - pela França e pelo Brasil. Briard, aliás, fala poucas palavras em português, mas graças ao seu esforço, um gravador e o tradutor do Google, conseguiu escrever as canções de Coração Louco, transmitindo uma sinceridade que se torna evidente. O EP, gravado no Estúdio Mestre Felino (Mogi das Cruzes - SP), contou com os músicos Benke Ferraz (também o produtor), Dinho Almeida e Ynaiã Benthroldo, do Boogarins, além de Danilo Sevalli, da banda Hierofante Púrpura.

A faixa-título abre o EP, alegre e leve, em uma perfeita mistura de psicodelia atual e Françoise Hardy. A voz doce de Briard aparece em conjunto com uma série de sons e percussões, criando um cenário dançante e ocasionalmente confuso (confuso aqui como sendo algo maravilhosamente positivo). Em “Jorge”, o jeito de cantora francesa de antigamente permanece, mas a ele pode se acrescentar um beat com um quê de música eletrônica - lembra, talvez, Céu. O piano permanece constante, assim como em “Coração Louco”, mas a faixa é mais intensa que a anterior, trazendo como temática, em poucas e simples palavras, uma conexão profunda com um certo Jorge:  “Jorge meu coração treme por você/ Sinto uma união cósmica por você/ Oh meu deus/ Quando ouço a tua voz/ Eu voo para o céu”. Este Jorge é nada mais, nada menos que Jorge Ben Jor, por quem Briard nutre profunda admiração, considerando que suas músicas têm efeito de cura.

“Tomada de Decisão” apresenta um tom onírico, talvez pelo instrumental, que traz a sensação de mergulhar em um riacho no meio do mato. Há também um delicioso som de acordeon e as palavras singelas e cheias de sotaque de Briard: “Um dia será preciso decidir escolher saber/ Do fundo do mar/ Do meio das estrelas/ E a tua vida/ Mais ninguém o fará”. Em seguida, “Numa Fria Noite” continua com essa cara de música-sonho: com oito minutos e meio, parece uma versão bossa de gravações obscuras do Velvet Underground. Com as palavras “numa fria noite” se repetindo, alternam-se efeitos, pedais, sons, conversas e ruídos, aparecendo, às vezes em destaque e às vezes bem sutilmente, a voz de Briard, recitando algumas frases, como “encontrar um significado” e “não quero mais ter frio”. Tudo parece espontâneo, uma criação conjunta que resulta de um bonito encontro, que se expressa em uma fala divertida ao fim da faixa: “tá valendo tudo, até esse conversê”.

“Janela” mistura um violão e uma batida de MPB com um instrumental com aspecto de trilha sonora de filme experimental de ficção científica (acho que nunca assisti um desses, mas vamos fazer valer o poder da imaginação). As palavras são melancólicas, quase como suspiros: “já não sei o que magoa o coração”. A última faixa, “Cravado”, traz uma fortíssima influência de bossa nova, que se une à também fortíssima influência das cantoras francesas dos anos 1960, fechando o EP com ritmo e melodia amáveis e uma letra encantadora: “Está gravado em mim/ Cravado bem no peito/ Do começo ao fim/ Deixou-me como sacola no vendaval, coisa e tal/ Mosca em volta da lâmpada/ Porta sem tranca/ Eu fiquei mal”. E assim, com simplicidade nas palavras e doçura no ritmo, “Coração Louco” é, ao mesmo tempo, querido e misterioso. A carga de complexidade no instrumental se revela como um resultado de criações espontâneas e entrosamento natural dos músicos, e tudo isso, por sua vez, é transmitido no som, que parece perfeito para um desses dias de inverno sem nenhuma nuvem no céu.

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