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Tônus - Carne Doce

Tônus - Carne Doce

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Tônus

Carne Doce
Natura Musical
Julho / 2018
Indie Rock, Alternativo
O que achamos: Excelente

Carne Doce é uma banda que sabe que não tem que provar nada para ninguém. Sem querer, já o fizeram. Primeiro, meio sem querer em seu lindo álbum de estreia em 2014. Depois, de maneira majestosa no excelente Princesa de 2016. Provaram despretensiosamente ao Brasil pretensioso dos críticos de música e circuitos indie de festivais e rodas de conversa da praça São Salvador ou da Roosevelt que a música "alternativa" de excelência também se alcança sendo cru, sendo carne viva e sofrendo sem chorar. Como resultado de toda essa demonstração de força, talento e rebeldia, o Carne Doce saiu de Goiânia para figurar line ups de festivais por todo o Brasil e desafiar a si mesma enquanto desafiava o mundo.

Após alguns meses do celebrado lançamento de Princesa, Salma Jô (vocalista) declarou que algumas das ideias presentes em suas canções já não refletiam da mesma forma o seu pensamento. Embora eu goste muito da maneira desbocada e ameaçadora com que Salma cantava seus versos nos trabalhos anteriores da banda, eu vejo muito sentido nisso. Talvez a agressividade canse e dê espaço pra outras formas de expressar a raiva e a revolta, a brutalização é um ótimo modo de expurgar certos sentimentos, mas nem sempre é exaustiva. E em Tônus, Salma e companhia encontram novas vozes, por vezes sem palavras, para gritar.

O terceiro disco do Carne Doce compõe uma atmosfera fria, seca e densa (mesmo que isso não faça sentido em termos físicos). As primeiras notas de "Comida Amarga", a faixa de abertura da obra, deixam isso bem claro ao entrarem graves e espaçadas só após uma introdução um tanto quanto longa de percussão. A banda de Goiás se utiliza de muitos artifícios novos nas suas composições, mas mesmo sem a forma "na lata" de transmitir suas mensagens, eles soam mais claros e expressivos do que nunca. "Irmãs", uma das melhores faixas de Tônus, eleva o padrão de qualidade lírica da banda e mostra que, mesmo mais introspectivo e obscuro, Carne Doce ainda está falando dos problemas reais do mundo, dos sofrimentos reais das mulheres e dos brasileiros: "Rival e heroína / Dos diários que eu roubei pra ler / Pra aprender as femininas invenções / Pra feminina ser / Como você / Blush nas bochechas e na zona T".

Isolada como a única faixa "animada" do disco, "Amor Distrai (Durin)" é uma das melhores composições de Salma até hoje. Composta em parceira com Dinho Almeida (do Boogarins), a faixa é uma poesia libidinosa onde os prazeres do corpo ocupam o centro de tudo. Aqui, Salma canta pura e simplesmente sobre sexo. Atenção: não confundir com amor, ela está falando de trepada, putaria e metelança. A faixa é divertida, com letras rápidas e uma melodia que prende. No contexto do álbum, no entanto, eu acabo a interpretando de maneira mais melancólica, mas não quero pesar o clima com minhas perspectivas pessimistas. "Brincadeira", que vem logo após, é ácida e queima devagar. Ela é mais atmosférica e dá um tom mais espaçado pro álbum, mas é impossível não ouvir os versos e se perguntar se eles significam realmente o que parecem: "Brincadeira, eu no meio / Sangrando / São desejos óbvios". O fato de versos tão simples e tão profundos me provocarem a reflexão sobre suas raízes é o maior atestado de amadurecimento artístico do Carne Doce, que está aí escrevendo e tocando algumas das melhores músicas nacionais dos últimos tempos.

O álbum mantém o ritmo potente e a alta qualidade de suas letras por toda sua duração. Ele contém espaços instrumentais mais longos e que expressam de forma muito contundente e complexa as ideias que formam Tônus em sua essência: uma obra de sentimentos feridos, de pele nua no frio. É um registro que me deixou triste, pois ele dá muitos detalhes de uma solidão que é difícil de alcançar, mas que uma vez revelada, corta. Aqui, o Carne Doce não traz um álbum com faixas para serem cantadas por plateias empolgadas nos seus maravilhosos shows. Mas elas irão. Eu, certamente, irei, porque é tudo tão bonito. É bonito o sofrimento, apesar de que eu queria que ele não existisse. Acho que Carne Doce sabe disso.

É importante destacar "Nova Nova", o primeiro single do trabalho e uma das faixas mais sóbrias do grupo, com um tema de guitarra e percussão muito bem definidos que são infalíveis em acompanhar a gélida história de uma (qualquer) mulher em relação a um homem. O encerramento do álbum em "Golpista" é excelente. Perigoso, urgente e sério, é Salma Jô falando mais uma vez fazendo sua mistura lírica deliciosa para expressar uma dor que eu suspeito ser mais coletiva e intangível. Para quem ficou com saudade dos "gritos" da Salma, aqui está a compensação.

Eu quero parabenizar essa grande banda por ter tido a coragem de criar esse grande e desafiador trabalho.

 

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