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God's Favorite Customer - Father John Misty

God's Favorite Customer - Father John Misty

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God's Favorite Customer

Father John Misty
Sub Pop
Folk Rock
O que achamos: Excelente

Father John Misty é o pseudônimo e alter ego de Josh Tillman, e muito como as personas que usamos no dia a dia para nos mantermos na tênue linha que não nos ostraciza completamente da sociedade e aliena todos os nossos relacionamentos, não se sabe onde uma pessoa começa e a outra termina. E não é pra saber mesmo. Nos últimos seis anos, Tillman/Misty conjurou uma mitologia própria e personificou um ego grandioso, narcisista, cáustico, autodestrutivo e cínico. Romântico e romanticista, mordaz e autocrítico, como poucos homens brancos barbudos têm a capacidade de ser, autorou honestidade brutal, humor autodepreciativo, luxúria, deboche, e críticas ao mundo pós-moderno de forma surrealista e enigmática (ou nebulosa, conforme o ‘Misty’ do apelido indica).

Seus trabalhos até aqui retrataram a vida contemporânea por viés lascivos e niilistas, tão exaustos quanto todos nós millenials, todas as críticas à nossa geração feitas por baby boomers, e tão conscientemente pretensioso como se imagina. “Fear Fun” (2012) é o início da jornada, uma crônica cômica sobre auto exploração  que levou ao casamento e ao ciclo infinito de paixão, insanidade e amor retratados na obra prima “I Love You Honeybear (2015)”. Por fim, o denso “Pure Comedy (2017)” investiga o homem pós-moderno vivendo no mundo de fake news e pós-verdade, bombardeado com entretenimento e escasso em empatia, ao mesmo tempo ansioso e entorpecido. Três conceitos que se alimentam como um oroboro. “God’s Favorite Customer” (2018) foge completamente de tudo isso.

Ou de tudo que se espera do artista.

O quarto álbum do Father John Misty é conciso, direto, menos filosófico, e despido de conceito ou narrativa metalinguística. As letras falam sobre o quê se ouve: são sentimentais e profundas, imersas numa crise existencial abismal e num sonho febril de quem questiona o seu papel como criativo, a amargura e a alienação causadas pela saúde mental destruída e um casamento em crise. Isso não é coincidência ou acidente. “God’s Favorite Customer” foi composto em um período de auto exílio de dois meses num quarto de hotel para tratar dos seus próprios demônios e traumas: a depressão, ansiedade, insônia, uso livre de drogas, fama, e o relacionamento em crise. As semanas de contemplação são refletidas diretamente em todas as 10 faixas do álbum. A prosa já não é mais tão ambígua mas ainda é cheia de nuance, um universo próprio onde o sarcasmo e a honestidade coabitam em paz.

Na maravilhosa faixa de abertura, “Hangout at the Gallows”, Misty pergunta: “Sun is rising / Black is turning blue / Look out, buddy, Noah's coming / Jesus, man, what did you do?” Uma melodia meio folk-meio glam e com alcance vocal poderosíssimo, transitando de imagens bíblicas para o século XXI, onde tudo realmente se repete e a nossa identidade é resumida em: “What's your politics? What's your religion? What's your intake? Your reason for living?”

“Mr. Tillman”, embalada por um piano, que poderia ter sido tocado por Elton John quarenta anos atrás e backing vocals quase celestiais, aborda Misty pelo ponto de vista de um recepcionista de hotel educado, eternamente paciente e preocupado com o estado mental de seu hóspede por meio de um diálogo burocrático e absurdo. Talvez seja a música mais aberta desde “Hollywood Forever Cemetery Sings” (2012, Fear Fun). “Just Dumb Enough to Try” é uma balada, um pedido de desculpas embalado na ambição de querer ser uma pessoa melhor (“And I'm insane enough to think I'm gonna get out with my skin / And start my life again”). “Date Night” é uma viagem psicodélica através da sua persona grandiosa de homem canalha, petulante e arrogante que poderia muito bem ser o lado B da próxima música.

“Please Don’t Die” é o seu lado mais honesto, doloroso e vulnerável, retratando o fundo de poço no qual vivia, sob a perspectiva da esposa Emma Tillman: “Oh, and honey, I'm worried 'bout you / You're too much to lose, you're all that I have / And honey, I'm worried 'bout you / Put yourself in my shoes / You're all that I have so please don't die / Wherever you are tonight.” O pedido desesperado de ajuda se estende até “The Palace”, de piano sombrio e tons angustiados. Ao invés de um simples “me perdoa, amor, por favor”, Tillman opta pelas metáforas monumentais que compõem “Disappointing Diamonds Are the Rarest of Them All”, o lado mais elétrico do álbum e um de seus pontos altos, que culmina na dose de realismo: “Sure we know our roles, and how it's supposed to go / Does everybody have to be the greatest story ever told?”

A faixa título é desolada e solitária, embora o instrumental seja efusivo, como se estivesse se resguardando para a introspecção da bela “The Songwriter” onde mais uma vez Tillman canta sobre o ponto de vista de Emma numa subversão de papeis musa/artista: “What would it sound like if you were the songwriter and you made your living off of me? / Would you detail your near-constant consternation? / Or the way my very presence makes your muses up and flee?” Até que, enfim, chega na conclusão de que não sabemos nada de nós mesmos, apenas o suficiente para querermos ser basicamente qualquer outra pessoa (“We're Only People (And There's Not Much Anyone Can Do About That)”, a faixa final).

“God’s Favorite Customer” aposta na produção comedida, equilibrada por cordas e uma modesta bateria, permitindo que a voz e a narrativa de Tillman sejam as verdadeiras estrelas da obra, e fazendo com que o termo “lisérgico” possua diversas formas e tons. A voz suave, poderosa e riquíssima, cada vez mais afiada, é um ponto alto sonoro dessa evolução artística conhecida como Father John Misty. É a sua versão mais convencional, mais pop, mais acessível e ao mesmo tempo mais pesada e emocionalmente frágil. O músico demonstra estar confortável nessa dicotomia, visto que é justamente ela que construí a versão mais poderosa da sua arte. As letras de Tillman sempre estiveram alinhadas no velho conselho sobre escrita: escreva sobre o que você conhece.

Então escreveu sobre si mesmo.

Agora também escreve sobre o mundo ao seu redor.

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