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Heaven and Earth - Kamasi Washington

Heaven and Earth - Kamasi Washington

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Heaven and Earth

Kamasi Washington
Young Turks
Junho/2018
Jazz
O que achamos: Excelente

O compositor, produtor e saxofonista Kamasi Washington lança seu segundo álbum, Heaven and Earth, três anos após o lançamento de seu álbum de estreia, The Epic. Além de dois LPs, dos EPs Harmony of Difference (2017) e The Choice (2018) - este último uma parte “surpresa” de Heaven and Earth -, a carreira do músico de Los Angeles conta também com diversos outros trabalhos, incluindo a participação no álbum In My Time (2006) da Gerald Wilson Orchestra e em To Pimp A Butterfly (2015), de Kendrick Lamar. Mais recentemente, Washington participou também de High As Hope (2018), de Florence And The Machine.

Em Heaven and Earth, Washington compartilha pensamentos profundos e complexos a respeito de si e do mundo que habita, trazendo à tona opiniões vivas e políticas e reflexões a respeito de oposição e equilíbrio. Segundo o músico: “O mundo em que minha mente vive vive em minha mente. Essa ideia me inspirou a fazer este álbum. A realidade que experienciamos é uma mera criação de nossa consciência, mas nossa consciência cria essa realidade baseada nessas exatas mesmas experiências. Nós somos simultaneamente os criadores de nosso universo pessoal e criações de nosso universo pessoal. A parte Terra [Earth] deste álbum representa o mundo como o vejo externamente, o mundo do qual sou parte. A parte Céu [Heaven] deste álbum representa o mundo como o vejo internamente, o mundo que é uma parte de mim. Quem eu sou e as escolhas que eu faço se encontram em algum lugar entre essas duas partes”.

As primeiras oito faixas compõem, assim, a primeira parte do álbum, Earth. A faixa de abertura desta primeira parte, “Fists Of Fury”, embalada por solos belíssimos de piano e saxofone, em conjunto com percussões dançantes, aborda o tema de combate à injustiça com as próprias mãos. As vozes de Patrice Quinn e Dwight Trible entoam versos enxutos e emblemáticos: “Our time as victims is over/ We will no longer ask for justice/ Instead we will take our retribution”. Dramática e poderosa, a faixa é uma versão da música tema de A Fúria do Dragão (1972). “Can You Hear Me”, a faixa seguinte, repete o coro de vozes ao fundo, que impõe um caráter cinematográfico, dando maior espaço ao saxofone, que cresce em harmonia com a progressão característica. Em “Connections”, um início sereno com riffs secos e singelos de guitarra se une a um coro emocionante, que lembra trilhas de filmes antigos, e um sax melancólico. O solo de guitarra compõe uma mescla interessante entre uma melodia de jazz e uma sonoridade quase robótica. A oitava música, “One of One”, embalada pelo coro de vozes e o ritmo afro-latino que se sustentam ao longo dessa primeira parte, finaliza o lado Earth. É com muita emoção e muita complexidade - pertinentes a Washington e pertinentes ao jazz - que a faixa mistura calmaria e tensão com maestria, terminando repentinamente para que haja um novo início, Heaven.

A segunda parte abre com “The Space Travelers Lullaby”, que a começar pelo nome, tem uma carga onírica e uma sonoridade etérea, embalada por um piano recheado de arpeggios, mais presente e constante que se une ao restante do instrumental, que amplifica um sentimento de inquietude. Em seguida, a impressionante “Vi Lua Vi Sol” - sim, o título é em português - traz, além do jazz cheio de mágica de Washington, um vocal repleto de camadas e efeitos, que se endereça poeticamente a quatro interlocutores: Moon, Earth, Sun e, por fim, Babe. “Song For The Fallen” mistura, em seus pouco mais de 12 minutos, elementos bastante atuais, como ruídos eletrônicos e sintetizadores, a um jazz latino e um solo memorável de Washington. “Show Us The Way”, com o impacto dramático do coral alternando com solos de piano de aspecto sombrio e um saxofone que canta e intensifica uma apreensão catártica, traz poucas e fortes palavras: “Dear Lord, show us the way”. Finalmente, “Will You Sing” fecha a segunda parte do álbum, marcada por um ritmo quebrado e um instrumental (como uma sutil, quase imperceptível guitarra) que acompanha as vozes em coro.

Heaven and Earth é uma alegria, um presente e um exemplo do que um músico brilhante como Kamasi Washington pode fazer pelo jazz contemporâneo. Com a contribuição de músicos como Tony Austin, Ronald Bruner, Jr., Brandon Coleman, Cameron Graves, Terrace Martin, Miles Mosley, Patrice Quinn e Thundercat, este é um álbum praticamente essencial não só para amantes do gênero, mas para amantes da música que vivem no mundo em que vivemos. Vale ressaltar também a importância do EP que compõe a terceira parte da obra, The Choice, que contém preciosidades como “The Secret of Jinsinson” e “Agents of The Multiverse”. Washington é, enfim, parte daquele grupo de músicos aos quais agradecemos por vivermos na mesma época, e Heaven and Earth é uma ilustração clara disso. Um álbum impressionante, que traz a complexidade do jazz e da modernidade em uma sintonia emocionante, amparado por um conceito poderosamente íntimo. É até difícil encontrar palavras para esse som, que toca em aspectos tão irracionais e sentimentais do ser, mas é necessário, pois é com essa sensibilidade que Washington construiu uma obra densa, importante e catártica, que une o antigo ao contemporâneo, o espiritual ao filosófico, e o céu à terra.

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