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Be The Cowboy - Mitski

Be The Cowboy - Mitski

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Be The Cowboy

Mitski
Dead Oceans
Agosto / 2018
Indie Pop, Rock
O que achamos: Excelente
Timbre Recomenda

A voz de Mitski inicia "Geyser", a primeira faixa de seu mais novo álbum, mais limpa e terna do que nunca, deslizando por um agudo bipe que logo deságua em calmaria. Mas a maneira como Mitski trabalha recusa amenidades em favor de maneiras mais honestas de expressar a confusão emocional, que borbulha na iminência de explodir dentro da cantora. Assim, "Geyser" logo se converte em uma sinfonia de texturas, evocando o gêiser no coração da cantora nipoamericana, encontrando sempre um pico mais alto para atingir quando o anterior já parecia insustentavelmente intenso. É com essa abertura épica que somos apresentados a Be The Cowboy, quinto trabalho de Mitski Miyawaki, cantora e compositora de 28 anos e que agora se consolida como uma das vozes (e mentes) mais autênticas de sua geração.

Be The Cowboy encontra nossa heroína num lugar de mais maturidade em relação aos seus registros anteriores, como se ela estivesse agora mais familiarizada com sua própria solidão e aflições. "Lonesome Love" traduz essa sensação com muita precisão, ao representar através de um country obscuro a frustração de Mitski em não conseguir se libertar de um amor que a torna mais solitária, enquanto alguns dos versos mais assombrosamente honestos da cantora são disparados: "Nobody butters me up like you / and nobody fucks me like me..." e "Why am I lonely for a lonesome love?". A magnanimidade... Tão intensa.

Da mesma forma, o single "Nobody" (cuja conexão com a música anterior me aparenta ser intencional) majestosamente reflete a natureza solitária à qual Mitski parece ter cansado de resistir. A mistura do ritmo disco com o piano torna essa uma das faixas mais interessantes e versáteis da cantora, e quando o refrão bate e a palavra "nobody" é repetida como se fosse um mantra, é quase impulsivo tentar abraçar a si mesmo. O segundo refrão parece ganhar vida própria conforme Mitski estica e rearranja a palavra-título, encontrando novas formas de celebrar sua autossuficiência enquanto admite que um beijinho cairia muito bem.

A propósito, as faixas mencionadas até aqui exemplificam muito bem o quão versátil é a sonoridade desse novo trabalho. Mitski adiciona camadas ao conceito "cowboy" do seu álbum trazendo toques de country e folk, mas está mais pop que nunca, abusando dos traços eletrônicos e do pop sutil, ainda sem se desprender do rock que a colocou nos holofotes da crítica musical. Puberty 2 (2016), seu álbum anterior, já apresentava uma variedade musical caprichada dentro do escopo do pop rock autoral, mas Be The Cowboy vai além, com a cantora retomando o piano, que havia permanecido em seus dois primeiros álbuns (de 2012 e 2013), gravados com o apoio da orquestra da universidade onde Mistki estudou e através da qual ela construiu seus trabalhos iniciais.

Nesse disco, Mitski se desfaz um pouco da imagem de "heroína millennial / frances ha / procuro trabalho" que compunha parte da temática de suas obras anteriores. Não há canções sobre desemprego e frustração financeira no novo álbum, por exemplo, o que indiretamente é uma indicação de seu processo de amadurecimento. Em vez disso, Mitski concentra suas histórias no campo do amor, do desejo, do futuro. Ela quer, e querer, aqui, é um verbo intransitivo.

No entanto, amar é muito difícil num mundo onde a gentileza e a honestidade não são fáceis de encontrar, e Mitski narra seu sofrimento como se não tivesse sido esculpida para amar neste planeta. Ela entrega seus fluxos de consciência e acessos de sinceridade excessiva de maneira que me lembra do Morrissey em suas composições mais difíceis de engolir, e da Robyn pela capacidade de dançar ao som de um coração partido. "Meet me at blue diner, I'll take anything you wanna give me, baby", ela canta na balada triste de "Old Friend".

Na delícia pop de "Washing Machine Heart", ela revela: "Baby, when I close my eyes / I know who you pretend I am!" e depois pergunta, "Why not me?". Tudo é entregue com um tom de brincadeira, como se ela não estivesse compartilhando demais, como se a comparação de seu coração com uma máquina de lavar onde o dito-cujo joga seus sapatos sujos não fosse devastadora. Há algo na naturalidade presente nessas revelações que eleva a dramaticidade da canção, no maior estilo "Happy", do Puberty 2.

Ao falar de suas falhas, as palavras de Mitski na verdade acabam sendo sobre as próprias imperfeições do amor, que é sempre imperfeito, sempre complicado. "You're growing tired of me and all the things I don't talk about", ela canta por cima de guitarras no maior estilo PJ Harvey 2000 em "A Pearl", um rock mais potente onde nossa heroína se apega aos seus instrumentos com urgência, antecedendo a suave e já mencionada "Lonesome Love".

Conduzindo o álbum ao fim, "Blue Light" adiciona mistério e profundidade ao mundo dadaísta de Be The Cowboy, seu tom inicialmente ingênuo é substituído por ecos de zumbidos fantasmagóricos que abrem espaço para faixa final do disco, a linda balada "Two Slow Dancers". Inteiramente apoiada no piano, synth e nos vocais de Mitski, a faixa final do disco é justamente uma canção sobre crescer. "It would be a hundread times easier if we were young again / But as it is, and it is / We're two slow dancers, last ones out". Qualquer vôo alçado deve tocar o chão novamente, e Mitski só se deixa esquecer disso por alguns instantes, pois é essa a representação que o amor ganha em suas canções: algo finito e, geralmente, rápido, sempre sujeito à maldição da gravidade.

Então Be The Cowboy se encerra, com 14 faixas e 32 minutos de duração, e eu fico me perguntando: por que músicas tão curtas?! E provavelmente não chego a nenhuma resposta confiável, mas arrisco dizer que é por um motivo simples... Mitski não deve querer se repetir tanto. Tem quer ser exaustivo expressar sentimentos tão complexos e profundos de maneira tão clara, repeti-las seria sobrecarregar o sistema. Talvez, uma vez seja o suficiente para dizer as verdadeiras dores do coração.

O que importa é que Be The Cowboy é a maior expressão do poder presente na vulnerabilidade que eu vejo na música em muito tempo. A incrível capacidade de Mitski de conectar temas tão delicados e urgentes em suas obras resulta num trabalho versátil, comovente e bela numa maneira única. É um presente de Mitski para Mitski, e dela para o mundo. E é isso que ela está dizendo! Pois soa triste, mas não é. É uma baita conquista se tornar adulto e compreender mesmo que uma fração de sua própria solidão. E, com uma guitarra na mão, a solidão fica poderosíssima.

Saudade (O Corte 腹切り) - Ventre

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